2008

 

Casamento, sim
Até que a vida nos separe

O fato de as pessoas e as expectativas mudarem, não significa que isso seja para pior. Muita gente afirma, quando um relacionamento acaba, que o sentimento não era verdadeiro. Mônica contesta isso : “Ele pode ter se transformado em alguma coisa, com a qual não dá para conviver. Na verdade, o eterno deveria ser medido em termos da vida do sentimento e não da vida das pessoas”. Muitos casais queixam-se que não vivem, depois de algum tempo, a mesma paixão do começo, como se isso fosse uma evidência de que a relação acabou. “Isso não é verdade”, avalia a psicóloga. “ Esse pensamento só mostra uma romantização e uma idealização da relação. A paixão pode tomar um outro curso, que não é necessariamente pior, pois pode evoluir para sentimentos muitos positivos e fortes como amizade, carinho, amor”. A paixão pode transformar-se numa relativa indiferença, em casais que vão levando a vida, “cada um com suas tarefas tradicionais e uma troca afetiva muito pequena. Também pode se deteriorar e virar uma relação de ódio e destruição. Existem várias opções”.

Contabilizar erros

Quando uma relação chega ao fim – casamento ou namoro – as pessoas passam a contabilizar os erros. “Começam a se perguntar quem foi o errado, o culpado e o casal entra numa postura de acusação recíproca” , diz Mônica. Existem vários aspectos, num relacionamento, que podem provocar o seu término: a falta de comunicação, valores muito diferentes, projetos de vida que antes podiam ser conjugados – ou seja, um projeto não incomodava o outro – ou mesmo elementos da personalidade do casal que são críticos na determinação do curso dessa relação.
A psicóloga explica melhor: “Se um dos dois, em função de sua história de vida, daquilo que vivenciou, tiver traços de personalidade ou a mania de se sentir sempre acusado, prejudicado, perseguido, então ele vai tender, a despeito do que a outra pessoa faça, a se enxergar acusado, traído, subestimado, enganado. Esses são os fantasmas das pessoas, porque na verdade, eles se colocam assim diante da vida e não apenas daquela relação a dois”. Esse traço de personalidade se manifesta em relação à pessoa que está ao seu lado. “O mesmo acontece com aquelas pessoas que não sabem dizer não, ou têm dificuldade em estabelecer limites e cedem mais do que podem”, complementa a psicóloga que dá um aviso aos navegantes: percam as esperanças de que ele ou ela vão mudar depois do casamento”.
O que acontece, em função da própria evolução da vida da pessoa, é que ela vai melhorar algumas características que incomodam o outro e "piorar" outras, diz Mônica. “O que pode acontecer é que esse traço que incomoda pode evoluir. Isso porque o convívio diário, o compartilhar constante, vão fazer com que um conheça mais o outro, tanto as coisas boas como esses traços que incomodam”.


Só muda quem quer

As pessoas mudam, mas somente quando isso é uma necessidade interna, não porque os outros querem. E, com o casamento, um sempre espera que o outro melhore. “As pessoas só mudam porque sentem que naquele momento é uma necessidade delas e não por causa do outro” explica Mônica. “Concessões têm que ser feitas de ambas as partes: se só um cede, é claro que a corda vai arrebentar”.
E para não se aguentar até o fim da vida um casamento que não está satisfatório, Mônica considera importante as pessoas estarem preparadas para a vida. “ Antigamente o casamento era visto pelas mulheres como um emprego.
“As mulheres foram criadas para casar e apesar de estudarem, trabalharem, ainda existe a idéia de que o homem é o cabeça da casa.Aliás, esta é a visão que ainda encontramos, pois a mulher, no geral, não era preparada para enfrentar a vida.
Salientando uma dificuldade de trabalhar, de acreditar que é capaz de sobreviver produzindo, cultivando coisas”. É aí que entra o aspecto da dependência econômica, “que muita vezes mascara a dependência emocional”, observa a psicóloga.Mas estamos numa época de transição e talvez nas próximas gerações, as mulheres estejam aptas a enfrentarem o casamento com uma maturidade maior.

Contar consigo

Há também um outro aspecto: a pressão da sociedade, para quem as pessoas mais estruturadas são as casadas. “Mas isso também está mudando”, reconhece a psicóloga. “Existem pessoas que são solteiras por opção. E por que isso tem que ser pior? Na verdade, grande parte das pessoas têm dificuldade em conviver com a solidão, o contar consigo”.
Ela afirma ser difícil encontrar uma mulher que, ao casar, não busque a figura do pai, “que não queira um colo, que consiga desenvolver uma relação de igual para igual, em que ambos tenham maturidade. Mas o inverso também é verdadeiro: é difícil um homem que também não queira uma mãe”. Para Mônica, a segurança masculina muitas vezes requer uma mulher submissa, inferior do ponto de vista intelectual e de produção, pois assim ele considera sua masculinidade garantida. A independência da mulher que o homem aceita é a de uma profissão feminina, em que ganhe menos, pois ainda existe a idéia de competição. “Muitos casamentos são desfeitos porque a mulher ganha mais do que o homem, pois isso abala a estrutura deles”, constata a psicóloga. “Nós vemos até alguns homens que têm uma fachada liberal, mas que em situações conflitantes mostram sua face opressora, para de certa maneira garantir sua segurança”.
Já que é preciso haver concessão, ela não deve pesar. “Quando o relacionamento vai bem, tem harmonia, esse fator concessão não é um problema”, avisa Mônica. “Mas quando o fato de fazer concessões se torna acusatório, esse é o primeiro sinal de alerta de que alguma coisa não vai bem. Se a troca em termos afetivos vai bem, as concessões são feitas tranquilamente, com prazer, deixam de ter o cunho de concessão. Essa é a base : a troca, o respeito à individualidade um do outro”.

Crescimento pessoal

Num casamento, conviver com a individualidade do outro é um desafio para o nosso crescimento pessoal. A individualidade do outro traz problemas, angústia, pois de certa forma é um outro mundo e provoca insegurança. Mas também pode ser um fator para o crescimento pessoal. “Também é através do outro que podemos reformular algumas coisas que vão bem conosco”, explica Mônica. “Se a individualidade do outro traz obstáculos intransponíveis, que despersonalizem, anulem, destroem e fazem a pessoa infeliz, o crescimento se torna muito difícil e conviver também”.
A questão é simples: ou a casal supera esses problemas e cresce com eles, ou deixa que eles os sufoquem, anulem e alienem. “Muita gente se conforma e prefere viver oprimida até por uma imagem que tem de casamento, em que um é superior e o outro é inferior. Quando se entra na competição, na rivalidade, fica mais difícil “, diz a psicóloga. “Conciliar num casamento, significa ceder em coisas que não sejam prioritárias para si, entrar num acordo, cada um cedendo um pouco e ao mesmo tempo respeitando a individualidade do outro, numa troca afetiva boa”.
Ela considera adaptação exatamente isso: fazer concessões sem sair do própria limite. “Esse tipo de situação de despersonalização pode durar muitos anos e eclodir de uma maneira muito negativa. Então é preciso sempre checar as expectativas nos termos do casamento e do outro”. Por outro lado, também é preciso admitir que ninguém é perfeito, pois a idealização sempre atrapalha: “Não existe fórmula” , diz Mônica. “Temos de ter sensibilidade para ver o outro e a partir daí perceber quais são os nossos limites e quais são os do outro”.
“Quando um casamento não vai bem, os aspectos do outro que causavam problemas tornam-se insuportáveis, mesmo que seja a maneira de comer ou apenas um cacoete. É como se englobassem tudo o que está errado", completa ela. “Se alguém sentir, quando tudo terminar, que não há mais jeito, apesar de todo o sofrimento que a separação causa, é sempre possível cada um retomar a vida e, quem sabe, partir para outro relacionamento. Já disseram que o segundo casamento é a vitória da esperança sobre a experiência. É bom também ficar alerta para os créditos e cobranças, pois quando começam, é hora de rever a relação. É sinal de alerta de que alguma coisa não vai bem”.

Entrevista ao AT Revista em 13/06/87

Mônica de Lima Azevedo



  

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