IRMÃOS

Os laços entre irmãos podem ser tão poderosos, complexos e transformadores -- para o bem ou para o mal -- quanto os que há entre pais e filhos. Em nossos irmãos vemos o espelho de nosso eu não-descoberto, e o amor e antipatia que sentimos por eles refletem muitas coisas, inclusive a maneira como nos relacionamos com as dimensões menos conhecidas de nossas profundezas ocultas. A psicologia tem muito a dizer sobre a rivalidade fraterna, mas, antes dela, a mitologia já tinha dito tudo. Os mitos aqui narrados também falam do poder redentor e curativo do amor entre irmãos.

CAIM E ABEL
Quem é o favorito do pai?
Essa história do Antigo Testamento é conhecida de todos nós, mas talvez não tenhamos refletido bastante sobre como os pais podem originar conflitos entre seus filhos. A história de Caim e Abei diz respeito ao que se conhece como "rivalidade fraterna" -- o ciúme e a competição que ocorrem entre irmãos. Algo tão natural e inevitável quanto o nascer do sol, e igualmente antigo. Uma pequena dose de rivalidade entre irmãos pode gerar um desenvolvimento sadio de cada um. Em grandes doses pode criar sofrimento e comportamentos destrutivos nas famílias.

Adão e Eva tinham dois filhos. Abel, o mais novo, era pastor de ovelhas, e seu irmão mais velho, Caim, lavrava os campos. Veio um dia em que os dois fizeram oferendas a Deus. Caim deu-lhe uma parte de sua safra, enquanto Abel ofertou a ovelha mais bela e gorda de seu rebanho. Deus agradou-Se da oferenda de Abel, mas não da de Caim. Sem conseguir discernir a razão desse favoritismo, Caim ficou muito zangado e amargurado com Deus e com seu irmão, Abel. Percebendo a ira de Caim, Deus lhe disse: -- Por que te zangas? Alcançarás êxito se trabalhares com afinco. Se não o fizeres, a culpa será tua. Mas Caim não se consolou com essas palavras, e a raiva cresceu dentro dele. Contudo, como não é sensato enraivecer-se com Deus, sua ira voltou-se contra o irmão mais novo. Ele acompanhou Abel aos campos e lá o atacou e assassinou. -- Caim, onde está teu irmão?, perguntou-lhe Deus. -- Não sei, respondeu Caim, não sou guardião de meu irmão. Mas Deus sabia, é claro, o que havia acontecido. -- Por que fizeste uma coisa tão terrível?, disse a Caim. O sangue de teu irmão clama a mim da terra qual voz que pede vingança. Eu te amaldiçôo: não mais lavrarás a terra. Ela está encharcada do sangue de teu irmão, como se houvesse aberto a boca para recebê-lo quando o mataste. Quando tentares cultivar o solo, ele nada produzirá. Serás um fugitivo errante pela terra. E Caim disse a Deus: -- Não posso suportar esse castigo. Expulsas-me da terra e de Tua presença. Serei um pária, e o primeiro que me encontrar me matará. Mas Deus respondeu: -- Não. Se alguém te matar, com sete vidas serás vingado. E assim Deus pôs um sinal na testa de Caim, para advertir quantos o encontrassem a não matá-lo. E Caim retirou-se da presença do Senhor e foi morar na terra de Node, que significa "Errância" muito a leste do Éden.

COMENTÁRIO: Pessoas de tendência religiosa ortodoxa provavelmente não questionam a moral duvidosa dessa narrativa. Mas, se examinarmos a história atentamente, é bem possível que nos perguntemos por que Deus favorece Abel, quando Caim exibe a mesma devoção que ele. Na verdade, não há justiça no julgamento divino. Cada um dos irmãos dá o melhor do que produz; Caim não pode ofertar ovelhas porque sua vocação é lavrar a terra. E nisso podemos vislumbrar reflexos de uma dinâmica familiar muito comum: a rivalidade que eclode entre os irmãos quando um pai favorece um filho em detrimento de outro. Caim não vê razão para ser rejeitado por Deus e, vista objetivamente, sua ira é bastante justificada. Mas ele não pode dar vazão a essa raiva diretamente contra Deus, assim como um filho não pode descarregar sua raiva contra um pai poderoso. A raiva manifestada contra Deus poderia resultar em aniquilação. Os filhos têm um temor profundo e arquetípico dos pais, não necessariamente porque estes o mereçam, mas porque pai e mãe são imagens divinas no psiquismo dos filhos e detêm o poder da vida e da morte. Por causa disso, a raiva de Caim volta-se contra seu irmão. Esse é um resultado freqüente quando tememos exibir nossa ira contra alguém a quem amamos ou tememos: ela é deslocada para o irmão ou irmã que parece haver conquistado todo o amor dos pais, e embora, na maioria das vezes, leve a uma forma de assassinato mais sutil -- a frieza e o rancor --, às vezes pode resultar na violência física, mesmo em famílias "normais". A chave dessa história não está, em última instância, na rivalidade entre os irmãos, mas numa divindade que exibe um favoritismo pautado em suas preferências pessoais. É evidente que Deus prefere ovelhas a milho -- e por isso Caim, e não Abel, é rejeitado. Talvez um vegetariano questionasse essa preferência! Ao examinarmos a dinâmica familiar, vemos que as razões do favoritismo estão na estrutura psicológica do pai ou mãe do sujeito. O pai que prefere esportes à criação artística talvez favoreça um filho atlético, em detrimento de outro que tenha talento musical; a mãe que se preocupa com a aparência física talvez prefira uma filha bonita a uma filha estudiosa mas feia. A vida, assim como as famílias, é injusta. Nesse conto não há resolução do impasse; Caim é transformado em pária e numa figura errante. Mas Deus o poupa. Talvez Se sinta meio culpado, pois a raiz dessa rivalidade fraterna está n'Ele. Na vida familiar pode haver resolução do conflito, mas ela só pode surgir quando os irmãos em guerra são sinceros o bastante para conversar sobre onde está a verdadeira mágoa, e quando aquele que é magoado ou rejeitado consegue conscientemente reconhecer sua raiva do pai que o ultrajou. E a maior responsabilidade de todas reside, talvez, no pai ou mãe que, como Deus nessa narrativa, porta-se de maneira claramente injusta e irracional, sem refletir o bastante. Talvez Deus tenha direito a esse comportamento, mas os pais não. A rivalidade fraterna refletida na história de Caim e Abel não provém de uma antipatia inata entre os irmãos; é gerada pela dinâmica complexa da família em si. Se formos afetivamente generosos e sinceros o bastante para discernir o âmago da questão, é possível que consigamos erradicar o sinal de Caim de nossa fronte e da de nossos filhos.

Liz Greene e Juliet Sharman, Uma Viagem através dos Mitos

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