A LENDA DE POIA

Avô e neto redimem o passado

A última história deste capítulo nos vem da tribo dos Pés Pretos, das planícies norte-americanas. Ela nos ensina que o poder curativo do amor nas famílias pode saltar uma geração, dos avós para os netos, redimindo o sofrimento que pais e filhos às vezes experimentam entre si e colocando a sabedoria do passado à disposição das futuras gerações.

Certo dia, Estrela da Manha baixou os olhos para a terra e ali viu Soatsaki, uma linda jovem da tribo dos Pés Pretos. Apaixonou-se por ela, desposou-a e a levou para o céu, para a casa de seu pai e sua mãe, o Sol e a Lua. Ali Soatsaki lhe deu um filho, a quem chamaram Pequeno Astro. A Lua, sogra de Soatsaki, gostava da moça e a acolhia com toda boa vontade, mas advertiu-a a não arrancar um nabo mágico que crescia perto de casa. Soatsaki, porém, foi vencida pela curiosidade. Arrancou o nabo proibido e descobriu que, pelo buraco que ficara no chão, conseguia enxergar a terra. Ao avistar as casas de sua tribo, sentiu uma saudade doída e seu coração foi tomado por uma tristeza mortal. Para castigá-la pela desobediência, seu sogro a expulsou do paraíso com o filho, Pequeno Astro, e os devolveu à terra, envolvidos numa pele de alce. No entanto, ao se ver separada do marido, a pobre moça não tardou a morrer, deixando seu filho só e desamparado. O menino tinha no rosto uma cicatriz, e era chamado de Poia, ou Rosto Marcado. Ao crescer, Poia apaixonou-se pela filha do cacique, mas ela o repeliu, por causa da cicatriz. Desesperado, ele tomou a decisão de procurar seu avô, o Sol, que poderia remover a marca que o desfigurava. Assim, Poia partiu em direção ao oeste. Ao chegar ao oceano Pacífico, fez uma pausa e passou três dias jejuando e rezando. Na manhã do quarto dia, uma trilha luminosa apareceu à sua frente, cruzando o oceano. Sem medo, Poia subiu pela trilha milagrosa. Chegando na morada do Sol, no céu, viu seu pai, Estrela da Manhã, lutando com sete pássaros monstruosos. Correndo para salvá-lo, liquidou os monstros. Como recompensa por seu gesto, o Sol, seu avô, eliminou a cicatriz e, depois de ensinar a Poia o ritual da Dança do Sol, presenteou-o com penas de corvo, como prova de seu parentesco com o Sol, e com uma flauta mágica que haveria de conquistar o coração de sua amada. Poia voltou à Terra por outro caminho, chamado Via Láctea. Ensinou à tribo dos Pés Pretos o mistério da Dança do Sol e, casando-se com a filha do cacique, levou-a para o céu para morar com seu pai, Estrela da Manhã, e seus avós, o Sol e a Lua.

COMENTÁRIO: O herói desse conto chama-se Rosto Marcado e, de fato, muitos são os filhos que sofrem a ferida psicológica das dificuldades conjugais que resultam na separação e no distanciamento dos pais. Aqui, o conflito surge porque Soatsaki, a mãe de Poia, não consegue obedecer às regras da família divina do homem com quem se casa. Por essa rebelião contra a família, ela sofre e é separada do marido, e Poia é separado do pai. É comum o caso em que alguém, ao se casar com um membro de uma família fortemente unida, não consegue se adaptar e é expulso, em termos afetivos e, às vezes, literais. Isso ocorre com freqüência nos chamados "casamentos mistos", nos quais uma dada estrutura econômica, religiosa ou racial constitui um poderoso edifício em que a pessoa "de fora" não consegue se encaixar. E são os filhos que ficam com as cicatrizes. Mas Poia, neto do Sol e da Lua, recusa-se a aceitar esse destino. Exige ingressar no reino do avô, que ele sabe ser capaz de livrá-lo da marca que o desfigura. No plano psicológico, isso nos diz que uma relação afetuosa com um avô ou avó pode, com freqüência, fazer sarar a ferida causada pelo casamento infeliz dos pais. Poia tem que provar seu valor, defendendo a vida do pai, Estrela da Manhã, ao matar as perversas aves -- e nós, por vezes, temos que tomar a iniciativa de procurar parentes distantes, com coragem e compaixão, mesmo sentindo que eles foram responsáveis pela desavença. Poia se dispõe a fazer essa tentativa, pondo em risco seu orgulho, e suas recompensas são grandes. Não apenas sua cicatriz é eliminada como ele pode levar a sabedoria do Sol ao povo de sua mulher e difundi-la entre as pessoas comuns, transmitindo os dons de seus ancestrais a novas gerações. Uma mensagem profunda nesse mito diz respeito à disposição de engolir o orgulho e fazer o esforço de reatar laços rompidos pelos erros de terceiros. Nas famílias, é freqüente os filhos serem afastados dos avós pela desarmonia entre os pais, ou por conflitos entre pais e avós. Seja pelo tempo, pela distância ou por uma centelha mais profunda de amor, que
se preserva apesar do conflito, a disposição que um filho tem de cruzar a ponte do passado -- a ponte mágica que Poia atravessa para chegar ao reino do avô -- pode promover a reunião da família e criar um canal pelo qual a sabedoria do passado se transmita às gerações do futuro.

Liz Greene e Juliet Sharman, Uma Viagem através dos Mitos

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