Chico Xavier
"A
casa aqui fala de Deus"
Durante uma das concorridas sessões
"Em um país católico como o Brasil, toda essa devoção
ecumênica ao humilde senhor - filho de um vendedor de bilhetes
de loteria e uma lavadeira de Pedro Leopoldo (MG) - só podia
o elevar naturalmente ao posto de "santo", muitas vezes
pelos próprios espíritas, em cuja doutrina não
existe essa categoria.
A santidade de Chico é invocada mesmo
por outro médium de prestígio em Uberaba,
José Ribeira, 78, que conhece Chico desde
1948 e que está na doutrina há 58 anos.
"Chico Xavier é um ponto de interrogação,
um dedo de Deus na Terra, um homem santo".
Netinho, o barbeiro que há mais de 30
anos vai à casa de Chico fazer-lhe a barba diariamente, é
enfático. "Estou convicto de que ele é um santo.
É um ser humano de luz.
Eu acredito que Deus chamou ele para reencarnar
na Terra e disse para que ele levasse o Evangelho de Jesus. Ele dedicou
a Jesus toda a sua vida, esquecendo-se dele próprio",
diz. A partir desse convívio, Netinho abraçou a doutrina
espírita, tornando-se um dos auxiliares mais dedicados ao mestre.
Outra que desfruta de convívio freqüente
com Chico Xavier é a tabeliã Fernanda Terra, responsável
pela sopa que todos os dias ele gosta de comer, misturada com a comida.
Aos sábados, é o dia de Fernanda
levar mousse de maracujá, doce que o médium adora.
De família católica, ela também
resolveu seguir o caminho espiritual indicado pelo médium.
Para ela, se Chico fosse católico, certamente seria canonizado
depois de morto.
"E isso deveria acontecer, embora ele seja
espírita, pois ele teve formação católica",
afirma ela. "Ele não é apenas
um médium. É um homem santo. É um exemplo de
vida, humildade, benevolência, perdão, caridade.
Não tem ninguém que ensine tanto
em matéria de espiritualidade como ele", diz ela, que
passou a conviver com Chico há sete anos, depois de ter sido
chamada pelo filho adotivo dele, Eurípedes Higino dos Reis,
para fazer uma procuração para o médium assinar.
"Fui a trabalho e ganhei o presente de ter
contato com o Chico. Fiquei horas conversando com ele e esse contato
mudou radicalmente a minha vida".
Eurípedes, o filho adotivo, que convive
com Chico desde os oito anos e mora com ele desde os 25, não
acha adequado um filho ficar falando do pai. "Eu olho o Chico
como um homem ecumênico e cristão, mas é muito
duvidoso o próprio filho falar do pai.
Ele sempre me deu a maior alegria. Vocês,
jornalistas, é que fazem dele um santo.
Esse é o papel de vocês", resumiu.
Presidente do Centro Espírita da Prece, Eurípedes é
conhecido como o "cão de guarda" de Chico Xavier.
Figura polêmica na cidade, criou um cerco
em torno do médium, espantando os fiéis e jornalistas
e controlando quem pode chegar perto e mesmo quem pode falar sobre
Chico. Sua amiga, a presbiteriana Maria (nome fictício), explica
por que ele suscita tanta antipatia: "Ele é o pára-raios
do Chico. Se não fosse ele, seria difícil, porque aqui
(no Centro) não é fácil não. Se ele fosse
um filho carnal, não seria tão dedicado.
Ele é filho, pai, irmão, guarda-costas,
e basicamente um incompreendido".
Freqüentadora do Centro, Maria não
revela seu nome verdadeiro por medo de que o pastor da igreja que
freqüenta descubra que ela costuma ir lá. Apesar disso,
justifica seu hábito ecumênico. "Cristo não
tem denominação religiosa.
O importante para mim é Deus e a casa
aqui fala de Deus.
Se eu não fosse ecumênica e não
tivesse essa fé toda, não agüentaria o racismo
que sofro aqui em Uberaba".
Negra, como Eurípedes,
Maria é funcionária pública e desenvolve trabalhos
com pessoas que vivem na rua.
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