Chico Xavier

Antes de Chico , depois de Chico

Intelectual atuante no movimento espírita, para Marlene, no Brasil "existe um movimento espírita a ser considerado antes e depois de Chico Xavier" e acredita que estamos ainda muito próximos "do acontecimento", ou seja, da vida do grande médium, para avaliar de fato o que a presença dele significou.

"Só saberemos o tamanho e a amplitude quando estivermos um pouco mais distanciados". Para ela, Chico é um exemplo de vida que revigora as idéias de Cristo.

"Quando há uma vivência genuína dos ensinamentos cristãos, você sente que há uma fecundação da idéia no mundo, como se houvesse uma imensa sementeira de algo positivo".

Para Lewgoy, o espiritismo que surge com Chico Xavier é eminentemente sincrético,

pois a ética católica o penetra de forma difusa.

"É isso que permite que Chico Xavier se transforme em ídolo.

Ele é o grande intermediário, o grande médium. Ele funciona quase como um profeta em outras religiões", explica ele.

"A maneira como as pessoas vão em caravanas até lá, como eles beijam a mão dele,

é como se estivessem se relacionando com um santo".

Ele faz questão de explicar que ele não está falando da doutrina católica e sim

da cultura católica.

"Essa tradição estrutura uma matriz da religiosidade brasileira. Não é de uma hora para outra que você vai prescindir dela. Temos uma forte influência dessa matriz religiosa". Para ele, um exemplo disso é que no espiritismo de Chico Xavier a dádiva convive com o sistema da dívida, tão caro ao espiritismo de Kardec.

Ou seja, aqui desenvolveu-se a crença da capacidade de espíritos de luz intervirem na vida das pessoas, através da mediação de um médium, que é o mesmo que a intercessão que os católicos pedem à Virgem Maria e aos santos em geral para resolver seus problemas. Segundo Bernardo, essa prática religiosa traz a idéia da "graça", ou seja, "a concessão de um favor por parte do mundo espiritual", que é muito forte dentro do catolicismo.

"Pela idéia original de carma de Kardec, ou você ganhava a cura de uma doença por seu merecimento, através de seus atos, ou não ganhava".

Ele, no entanto, faz questão de ressaltar que ainda que o espiritismo tenha se transformado no Brasil, a fidelidade a Kardec é muito grande.

Para ele, simplesmente trata-se de um conjunto de influência que tornou nosso espiritismo diferente do que era praticado na França.

Nos anos 70, psicografando

No final das contas, mesmo que muitos espíritas mais ortodoxos torçam o nariz, é fato que o espiritismo "xavieriano" contribuiu muito para popularizar essa religião no Brasil, país onde a doutrina iniciada pelo francês Allan Kardec se expandiu com mais força.

Essa popularização também pode ser creditada ao fato de que as obras de Chico Xavier "nacionalizaram as referências espíritas", como aponta Lewgoy, indo ao encontro do projeto nacional que guiava o Brasil a partir da década de 30, época que o médium

mineiro atingiu notoriedade.

Não é, portanto, por acaso que seu principal mentor espiritual, Emmanuel, tenha sido em outra encarnação o padre jesuíta Manuel da Nóbrega, ligado ao processo de

evangelização do Brasil.

Da mesma forma, o espírito André Luiz, autor que ditou Nosso Lar, o maior clássico do espiritismo brasileiro, teria sido o médico sanitarista Osvaldo Cruz e, anteriormente, Estácio de Sá, o fundador do Rio de Janeiro.

Felizmente, até 1989 Chico Xavier passou a maior parte de sua vida mantendo

distância da política - já que além de apoiar publicamente a candidatura de Fernando Collor de Mello para a Presidência, garantiu, depois do impeachment, que "o amigo" daria "a volta por cima".


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