B ezerra de Menezes
O Espírita
Antes de Allan Kardec ter codificado
o Espiritismo, já existia no Rio de Janeiro o grupo espírita
mais antigo, que foi o de Melo Morais, homeopata e notável
historiador. Isto se teria dado antes de Kardec, por volta de 1853.
Freqüentavam esse grupo o Marquês de Olinda, O visconde
de Uberaba, o general Pinto e outros vultos notáveis na época.
O Primeiro Centro Espírita,
que teve caráter jurídico, de nome Grupo Confúcio,
criado em 2 de agosto de 1873, que proclama o lema: "Fora da
Caridade não pode haver Salvação", infelizmente,
não teve longa duração. Ao cabo de três
anos ele se dissolvia. Além da assistência homeopática
inteiramente gratuita, serviu o grupo para revelar ao Brasil o nome
de um dos reveladores do Espiritismo, bem como, o que foi mais importante,
traduzir para o português as obras básicas de Allan Kardec.
Do Grupo Confúcio fazia
parte o conhecido espírita Dr. Joaquim Carlos Travassos, que
havia empreendido a primeira tradução das obras de Allan
Kardec e levara a bom termo a versão portuguesa de "O
Livro dos Espíritos". Logo que esse livro saiu do prelo
levou um exemplar ao deputado Bezerra de Menezes, entregando-o com
dedicatória. O episódio foi descrito do seguinte modo
pelo futuro Médico dos Pobres: "Deu-mo na cidade e eu
morava na Tijuca, a uma hora de viagem de bonde. Embarquei com o livro
e, como não tinha distração para a longa viagem,
disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por
ler isto... Depois, é ridículo confessar-me ignorante
desta filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas.
Pensando assim, abri o livro e prendi-me a ele, como acontecera com
a Bíblia. “Eu lia. Mas não encontrava nada que
fosse novo para meu Espírito. Entretanto, tudo aquilo era novo
para mim!... Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava
no "O Livro dos Espíritos". Preocupei-me seriamente
com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita
inconsciente, ou, mesmo como se diz vulgarmente, de nascença".
Foi assim, que nasceu, em 1876,
a primeira sociedade kardecista no Rio de Janeiro, subordinada à
denominação de "Sociedade de Estudos Espíritas
Deus, Cristo e Caridade". Um dos seus fundadores e primeiro chefe
de grupo foi Bittencourt Sampaio. Sampaio era médium receitista,
isto é, receitava homeopatia sob inspiração.
O Espiritismo sempre se mostrou
como uma espécie de tabu impenetrável para a massa que
teima em não lhe conhecer a teoria e os postulados. Desde porém
que qualquer pessoa (culta ou rude, não importa) se encontre,
por circunstâncias mesmo independentes de sua vontade, frente
a frente com os problemas espíritas, logo a doutrina se lhe
revela, clara e insofismável, com o seu acervo de conforto
moral e caráter altamente caritativo.
Tudo parecia um tabu cercado
pelo anátema ou pela excomunhão dos padres... Não
admira, portanto, a dificuldade, mais ou menos séria, que se
antepunha à aquisição de elementos novos aos
núcleos da época.
No dia 16 de agosto de 1886,
um auditório de cerca de duas mil pessoas da melhor sociedade
enchia a sala de honra da Guarda Velha, na rua da Guarda Velha, atual
Avenida 13 de Maio, no Rio de Janeiro, para ouvir em silêncio,
emocionado, atônito, a palavra sábia do eminente político,
do eminente médico, do eminente cidadão, do eminente
católico, Dr. Bezerra de Menezes, que proclamava a sua decidida
conversão ao Espiritismo.
Poderíamos citar casos
inúmeros de adesões entre pessoas ilustres da época,
dentre elas, valha-nos, contudo, anotar a do advogado Antônio
Luiz Sayão, acatado causídico de então. Desesperado
pela enfermidade tenaz que corroía o organismo combalido de
sua esposa, Sayão, vendo-a moribunda e desenganada por vários
médicos, resolveu aceitar os conselhos de um amigo que, insistentemente,
tentava induzi-lo a recorrer ao Espiritismo. Fez o que toda a gente
faz em tais ocasiões. Pediu uma receita aos espíritos
e... esperou o "milagre". O milagre se verificou; a homeopatia
indicada entrou a operar proficientemente e, após longa e porfiada
luta, a paciente sentiu-se revigorada e completamente curada. Conquistou
assim o Espiritismo um dos seus valores mais notáveis, pois
Sayão se tornou um verdadeiro difundidor da doutrina, à
qual ele emprestava o brilho da sua cultura.
Outro caso, nas mesmas condições
do precedente, foi o de Augusto Elias da Silva, cujo ardor, na propaganda
do Espiritismo, foi de tal ordem que o levou até a fundar o
"Reformador", em 21 de janeiro de 1883, órgão
eminentemente espírita. O momento era de plena agitação
doutrinária e o ambiente pesado de adversidade. Na imprensa
diária do País, conservadores avessos à aceitação
dos novos postulados lançavam contra os mesmo extensas catilinárias,
crivadas de ápodos soezes. Do alto dos púlpitos, chovia
sobre a massa dos fiéis prosternados a torpeza dos insultos
e a viscosidade das insinuações, derramadas nos sermões
dos sacerdotes. Elias da Silva, na ânsia de revidar tais ataques,
foi bater à porta de Bezerra de Menezes. O "médico
dos pobres", cuja alma já se encontrava impregnada pela
sabedoria calma do mestre, sem entusiasmos facciosos, aconselhou-o
com prudência, mas, também, sem vacilações.
E a sua palavra plena de sabedoria, escudada na rigidez de princípios
que a caracterizava, lançou a diretriz que o "Reformador"
deveria seguir, na campanha apenas iniciada. Política discreta,
sem o nivelamento dos processos de ataque, mas firme em suas afirmativas.
Não combater o ódio com as armas do ódio; combater,
de preferência, o ódio com o amor...
Isso se passava em 1883. Um ano
após, diante da perspectiva de anarquia que já se passava
nos arraiais do Espiritismo, sentiram aqueles que dirigiam os núcleos
no Rio a necessidade de uma união mais forte e que, por isso
mesmo, se tornasse mais indestrutível. Os Centros onde se ministravam
a doutrina trabalhavam autonomamente. Urgia, com efeito, um sistema
de disciplina e de ordem entre os Centros do Espiritismo. Não
uma disciplina férrea, draconiana, semelhante à Igreja,
pois no Espiritismo as dogmas foram coisas que sempre repugnou ao
livre-arbítrio dos espíritas. Restava, portanto, um
único recurso: o de congregar os elementos dispersos, em torno
de um centro único, realizando assim a mudança, mas
consagrando o ideal da união que faz a força... De tais
resoluções surgiu a fundação de uma nova
entidade: a "Federação Espírita Brasileira"
em 01 de janeiro de 1884. Seu papel seria o de federar todos os grupos
em uma espécie de sindicalização espiritual,
para que todos pudessem fazer ouvir os seus anseios, através
de um único porta-voz.
Nesse espaço de tempo,
Bezerra perde dois de seus filhos, fato este que não o abateu
de seus princípios filosóficos aceitando a Presidência
da FEB.
Lançou os fundamentos
de uma nova entidade, onde se congregassem todas as associações.
Fundado um novo Centro, instalada a sua sede, tiveram início
os trabalhos preparativos. Infelizmente ele não pôde
realizar o programa que havia presidido à fundação.
As correntes de opinião que dividiam a família espírita
mais e mais se acentuavam. As ambições de mando, bem
como os desejos de ocupar postos de relevo, convulsionavam os crentes,
fazendo-os divergir pelas menores coisas.
A eterna luta entre espíritas
e kardecistas, místicos e dos científicos, ocasionou
retardamentos consideráveis na marcha da doutrina. O que Bezerra
sonhava era com a união integral da família espírita.
Não o compreenderam, infelizmente, e as dissensões prosseguiam.
Na primeira comunicação, Bezerra chegou a declarar:
“Permita Deus que os espíritas a quem falo, que os homens
a quem foi dada a graça de conhecerem em espírito e
verdade a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, tenham a boa vontade
de me compreender, a boa vontade de ver nas minhas palavras unicamente
o interesse do amor que lhes consagro". Nada mais conciliatório.
No entanto, tais palavras soaram como bombas. Bezerra não se
deixou abater na ação leonina que empreendera, tendo
suas atividades incrivelmente desdobrada. Tanto Romualdo, Daneil Mont’Alverne,
como Santo Agostinho, seu verdadeiro orientador, apareciam-lhe constantemente.
Bezerra de Menezes, além
dessas atividades, freqüentava assiduamente os notáveis
"trabalhos de desobsessão" do Grupo Luz e Caridade.
Em 1889, o regime do Brasil sofreu
a transformação radical de 15 de novembro. O exército
se reuniu no Campo de Santana e o generalíssimo Deodoro, erguendo
a espada, proclamou a República.
Bezerra de Menezes trabalhava.
Seu espírito exauria-se na campanha santa que o absorvia por
inteiro. Em dezembro, finalmente, começou a sentir cansaço.
Seu organismo exigia repouso. Mesmo assim não atendeu aos imperativos
do organismo. Não lhe concedeu tréguas. No intuito de
se dedicar mais ao centro - pois neste setor é que maior necessidade
havia de trabalho e de abnegação - demitiu-se da presidência
da Federação. Animava-o uma secreta intenção:
fundar uma escola de médiuns. E foi para dar realização
a esse pensamentos, que Bezerra fundou uma escola de médiuns.
Nem todos os companheiros acharam, porém, que a idéia
fosse proveitosa. Muitos mesmo chegaram a combatê-la. Um deles
foi Elias da Silva. Esse entendia que o desenvolvimento das faculdades
mediúnicas de criaturas que para isso não estivessem
devidamente preparadas, poderia redundar em casos de obsessão.
Mas o parecer de Bezerra era justamente contrário ao de Elias.
E firme como sempre instalou a escola de médiuns, no Centro.
Aí, porém, sua desilusão foi completa. Clamou
num deserto. Aos seus apelos reiterados, ninguém respondia.
Só, absolutamente só, seu desconforto o fez sofrer mais
pelo abandono dos seus amigos. Nem os próprios membros da diretoria
compareciam às Sessões. Bezerra clamou aos quatro cantos.
Convocou inutilmente os correligionários. Tudo surdo. Tudo
impenetrável.
E havia qualquer coisa de sublime
na atitude estóica daquele velho de longas barbas brancas,
isolado e mudo, a lutar bravamente, em obediência aos imperativos
do rumo que a si mesmo traçara.
No Centro, no seu Centro, sua
figura de ancião curvava-se sobre a mesa dos médiuns
e aí se deixava ficar, em completa abstração.
Doía-lhe o fracasso, o desmoronamento inevitável, embora
lento, daquela casa a que ele se dedicara o melhor de seus esforços.
Mas mesmo no abandono, sua vontade não se quebrantava. Alguém
o advertiu, um dia, que talvez ele não tivesse compreendido
bem as famosas "instruções" de Allan Kardec.
Bezerra de Menezes deu de ombros.
Seus recursos não lhe
bastavam. E a necessidade ditou-lhe um gesto supremo. Pretendeu expor
aos seus companheiros de diretoria a penúria em que se encontrava
a associação. Para isso escreveu a cada um deles. Pediu-lhes
o comparecimento inadiável. Mas ninguém apareceu...
O lutador não se deu por vencido.
Na semana seguinte tornou a convocar
os seus companheiros. E, como da primeira vez, Bezerra se encontrou
sozinho na sede do Centro. Positivamente estava fracassado. Foi então
à casa de um por um. Exortou-os a uma última reunião
a fim de se tomarem as resoluções finais da entidade.
As respostas eram sempre as mesmas:
- Meu caro Bezerra, você compreende, tenho andado atrapalhadíssimo.
Não me leve a mal. Olhe, de minha parte, dou-lhe plenos poderes,
para você deliberar, seja o que for... E Bezerra baixava a cabeça,
agradecendo o "interesse" dos companheiros. Foi então
que decidiu bater às portas da "Fraternidade". Ele
não queria que o Centro expirasse, solicitou então uma
sala, um cantinho qualquer, por menor que fosse, bastaria para lhe
assegurar a sede. Nem que dessem apenas uma mesa, Ele trabalharia
sozinho. Seus amigos da "Fraternidade" dispensaram-lhe o
acolhimento devido, pois, a Bezerra de Menezes, todos queriam bem
e lá ficou instalado o Centro.
Logo na semana seguinte aparecia
nas colunas do "O Paíz" o aviso seguinte:
"Centro Espírita,
com sede na velha sociedade Fraternidade, tendo por bandeira Deus,
Cristo e Caridade, auxiliará o desenvolvimento intelectual,
criando um estabelecimento de humanidade, onde o ensino seja gratuito
à mocidade, mantendo o ”Reformador" e dando à
luz uma Revista de estudos práticos da doutrina, sob o ponto
de vista científico, fazendo conferências públicas,
ao alcance de todas as classes. Auxiliará o desenvolvimento
moral, pedindo o concurso de todos para obras de beneficência,
organizando regularmente, de conformidade com as leis da doutrina,
os grupos existentes e os novos que forem precisos para acudir-se
aos espíritos sofredores, adquirir-se o conhecimento em espírito
e verdade do Evangelho e fazerem-se experimentações
científicas sobre princípios e fatos espíritas.
Podem, pois, todos os espíritas do Brasil, que quiserem dar
força a esta organização recomendada pelo Mestre,
dirigir-se ao Centro Espírita "Fraternidade", provisoriamente
à Rua São José, 44, 2o andar".
Não foi, porém,
lá muito feliz a estadia do Centro na "Fraternidade".
Novas dissensões entraram a agitar o meio. Novas lutas, novos
desentendimentos. A eterna porfia, a sempre renovada incompreensão
entre místicos e científicos, Kardec e de Roustaing.
Bezerra de Menezes não
combatia ninguém. Combateu sim, durante toda a sua vida, em
prol da estreita união dos espíritas, indistintamente.
O ano de 1890 não findou
satisfatoriamente para os meios espíritas no Brasil. Em outubro,
o governo republicano sancionou o Novo Código Penal. O pavor
dominava os lares. As buscas eram constantes, nas próprias
casas de família. O arbítrio imperava, sob o gelado
silêncio dos habitantes. Nos morros, nos arrabaldes distantes,
no próprio centro da cidade, a polícia devassa tudo,
prendendo sem delongas todo aquele que lhe parecesse suspeito. As
denúncias anônimas choviam e os agrupamentos de qualquer
natureza viam-se logo dispersados. Nos meios espíritas não
foi menor o pânico. Perseguidos e proibidos de se reunirem,
os poucos centros existentes viram-se na dura contingência de
cerrarem as suas portas, a fim de que não incorressem nas iras
policiais. Foi este um dos períodos de mais dura provação
para os espíritas no Brasil. O próprio "Reformador"
viu-se obrigado a suspender sua publicação. A Igreja
Católica, embora separada do Estado, concorria assim mesmo
para exercer maior pressão contra seu inimigo mais acirrado.
E do alto dos púlpitos choviam as catilinárias contra
os espíritas. Os centros fecharam as portas; os mais fervorosos
se reuniam às ocultas, na atmosfera gélida do pânico.
Em 1893 a situação
mais se agravou provocada pela Revolta da Armada. Não só
a do País como, também, a situação pessoal
do incansável lutador. Pobre, paupérrimo mesmo, e em
pleno isolamento, não desanimou. No Natal do mesmo ano Bezerra
encerrou a série de "Estudos Filosóficos"
que vinha publicando no "O Paiz".
Foi em uma noite fria de julho
de 1895, que o grupo constituído pelos membros da diretoria
bateu à porta da casa do "médico dos pobres".
Convidaram Bezerra a assumir a presidência da Federação
Espírita. Não, não podia aceitar. Seu estado
de saúde já não lhe proporcionava a energia necessária
para arcar com tamanha trabalheira. Sentia-se cansado, exausto de
lutar contra a vida e contra os homens. Não se sentia com forças
para tentar acomodar toda aquela gente cujos ânimos cada vez
mais se acirravam em franca adversidade. Mesmo assim, declarou que
estava ali para receber as sugestões do mundo espiritual, cujas
decisões ele prometia seguir, obedientemente. Disse e esperou.
Alguns momentos após, o próprio espírito de Agostinho,
incorporado no médium Frederico Júnior, veio dirigir-lhe
palavras de conforto, aconselhando-o a lutar mais ainda. Concitou-o
a desenvolver seus esforços no sentido de ampliar a campanha
sob a bandeira de Deus, Cristo e Caridade. Como batalhador de primeira
linha - pois que era um espírito de escol - devia aceitar a
presidência da Federação. Dali, maiores seriam
ainda os benefícios que ele iria prestar aos sofredores. Finalizando,
Agostinho prometeu auxiliá-lo.
Consoante a promessa que fizera,
Bezerra de Menezes viu-se obrigado a obedecer. E resignado, o infatigável
batalhador, com 63 anos de idade, assumiu a presidência da Federação
Espirita Brasileira.
Na cavalgada do tempo, 1900 raiou
como a esperança falaz que a humanidade costuma depositar,
supersticiosamente, nos marcos artificiais de cada era. Logo nos primeiros
dias de janeiro, Bezerra de Menezes foi acometido por violento ataque
de congestão cerebral, que o prostrou no leito pobre de onde
ele jamais iria poder levantar-se. Principiou daí o longo período
de agonia que durou três meses, cruciantemente, indescritivelmente...
A casa triste, caiada de branca, casa típica dos arrabaldes
cariocas daquela época, onde se encontrava o gigante baqueado,
era bem o recanto humilde e sereno onde se deveria desprender um espírito
de tal sublimidade. Dentro, em um quarto desguarnecido e simples,
Bezerra agonizava. Deitado a um canto, sobre um leito de ferro, sua
figura impressionava deveras. A congestão violenta e tenaz
arrancara-lhe a fala e os movimentos.
Os olhos de Bezerra de Menezes!
Toda a gente que o conhecera falava continuamente em seu olhar. Verdes,
da cor dos "verdes mares bravios da sua terra natal", dir-se-ia
que dentro daqueles dois olhos se encerrava a imagem translúcida
das águas do seu Ceará, em contorções
de espumas e arrepiadas pelo sulco das jangadas. Dentro da penumbra
das pálpebras encerrava-se o mistério úmido da
alma boníssima do amigo dos pobres.
Os membros endureceram na paralisia
irremediável; os olhos continuaram a mover-se. A língua
travou-se-lhe na boca retorcida e grossa; mas os olhos brilhavam ainda.
Ao lado do leito, apenas uma cadeira de palhinha e uma pequena mesa
atulhada de medicamentos, receitas, copos, vidros etc. Na cadeira
havia continuamente uma criatura qualquer. Era o lugar das visitas.
O visitante entrava nas pontas
dos pés, sentava-se na cadeira e ali se quedava mudo durante
alguns momentos. Bezerra voltava para ele seus olhos claros e úmidos,
onde se escondia o mistério do nada e cuja luz brilhava esquisitamente
como que a traduzir a gratidão do enfermo. Raros eram os que
resistiam a esse olhar; e, antes que rebentassem os soluços,
a visita se levantava e deixava o quarto, aquele quarto onde se extinguia
alguém que, ao partir, iria deixar tanta gente órfã
da Bondade.
Durante o dia e durante a noite,
nunca ele esteve só. E a gratidão daquela gente traçou,
nesses últimos dias de vida do "Médico dos Pobres",
uma página delicada, emotiva e sublime.
Ninguém desconhecia a
luta tremenda em que se debatia a família do grande apóstolo
do Espiritismo. Todos conheciam suas dificuldades financeiras, mas
ninguém teria a coragem de oferecer fosse o que fosse, de forma
direta. Por isso, os visitantes depositavam suas espórtulas,
delicadamente, debaixo do seu travesseiro. No dia seguinte, a pessoa
que lhe ia mudar as fronhas, surpreendia-se por ver ali desde o tostão
do pobre até a nota de duzentos mil reis do abastado!...
No dia 11 de abril de 1900, dia
esplendente de sol e de radiosidade, naquela mesma casa da Rua 24
de Maio, Bezerra de Menezes vivia os seus últimos momentos.
Bezerra de Menezes faleceu às
onze e meia, sem um estertor, sem uma contração. No
dia seguinte, seu corpo foi sepultado no cemitério de São
Francisco Xavier, às 2:00 horas da tarde; e, no dia 13, o "O
Paíz", jornal que fôra para ele uma verdadeira tribuna
doutrinária, descrevendo-lhe o traspasse, iniciava assim o
longo noticiário:
"Revestiram-se de uma solenidade
augusta as derradeiras homenagens ontem prestadas a este eminente
brasileiro. Desde que se divulgou a notícia do seu falecimento,
até uma parte do dia de ontem, uma incessante romaria se estabeleceu
em demanda da sua habitação. Eram os pobres, os humildes
e necessitados, no anonimato da sua condição, que lhe
iam render o tributo da saudade e do reconhecimento, conquistados
a golpes de bondade, e cujos soluços e lamentações
se confundiam com os da pobre família desolada".
O enterro do corpo de Bezerra
foi uma apoteose. Gente de toda a cidade do Rio de Janeiro, especialmente
dos morros, das favelas, gente humilde, descalça, maltrapilha,
os pobres de espírito, os humildes de coração,
beneficiados pela Medicina do seu Amor, ali se achavam em mistura
com outra gente rica e poderosa, pertencente ao mundo oficial do Governo
e às entidades culturais do Distrito Federal.
E todos choravam como se tivessem
se apartado de um Pai, do maior de seus amigos!
Na noite de 12 de abril de 1900
(após 24 horas de seu falecimento), houve a habitual sessão
na Federação Espírita Brasileira. Então
todos os que dela participavam ouviram, pela maravilhosa mediunidade
sonambúlica de Frederico Pereira da Silva Junior, a palavra
querida do espírito do nosso Bezerra de Menezes. Sua mensagem
foi longa, e nela mais uma vez, humildemente, agradeceu a Deus, a
Jesus e à Virgem Santíssima as bênçãos
divinas que misericordiosamente recebia na pátria espiritual,
pois se considerava ainda muito pecador e, portanto, indigno desse
sagrado amor de Jesus!
No dia 17 de abril, promovido
por Leopoldo Cirne, reuniram-se alguns amigos de Bezerra, a fim de
chegarem a um acordo sobre a melhor maneira de amparar a sua família,
tendo então sido formada uma comissão que funcionou
sob a presidência de Quintino Bocaiúva, senador da República,
para se promover espetáculos e concertos, em benefício
da família daquele que mereceu o cognome de "Kardec Brasileiro".
Outros amigos tentaram lhe dar
paz à alma, mediante o santo sacrifício da missa, em
um templo católico. A cerimônia anunciada para o dia
29, na Igreja do Socorro, em São Cristóvão, não
foi levada a efeito. Obstáculos de ordem doutrinária
se antepuseram, à última hora, ao intento piedoso dos
amigos católicos... "O Paíz" do dia 30, noticiando
o fato, terminou assim a sua apreciação:
"Quanto à missa,
com o libera-me, no momento em que não tardaria a começar
o sacrifício, para o que já se achava previamente armado
o catafalco, na Igreja do Socorro, com a orquestra a postos, e presente
um considerável número de fiéis, amigos do Dr.
Bezerra de Menezes, foi recebida uma ordem do reverendíssimo
Vigário Geral da Arquidiocese, proibindo os sufrágios,
sob a alegação de se tratar do chefe dos espíritas
do Brasil".
Frustrada a intenção
dos que queriam salvar-lhe a alma, deixaram todos o pequeno templo
e se dirigiram em romaria ao cemitério, onde diante do túmulo
do "Médico dos Pobres", falaram vários oradores,
inclusive o Dr. João Pereira Lopes.
Digno de registro foi um caso
sucedido com o Dr. Bezerra de Menezes, quando ainda era estudante
de Medicina. Ele estava em sérias dificuldades financeiras,
precisando da quantia de cinqüenta mil réis (antiga moeda
brasileira), para pagamento das taxas da Faculdade e para outros gastos
indispensáveis em sua habitação, pois o senhorio,
sem qualquer contemplação, ameaçava despejá-lo.
Desesperado ? uma das raras vezes
em que Bezerra se desesperou na vida ? e como não fosse incrédulo,
ergueu os olhos ao Alto e apelou a Deus.
Poucos dias após bateram-lhe
à porta. Era um moço simpático e de atitudes
polidas que pretendia tratar algumas aulas de Matemática.
Bezerra recusou, a princípio,
alegando ser essa matéria a que mais detestava, entretanto,
o visitante insistiu e por fim, lembrando-se de sua situação
desesperadora, resolveu aceitar.
O moço pretextou então
que poderia esbanjar a mesada recebida do pai, pediu licença
para efetuar o pagamento de todas as aulas adiantadamente. Após
alguma relutância, convencido, acedeu. O moço entregou-
lhe então a quantia de cinqüenta mil réis. Combinado
para o dia seguinte o início das aulas, o visitante despediu-se,
deixando Bezerra muito feliz, pois conseguiu assim pagar o aluguel
e as taxas da Faculdade. Procurou livros na biblioteca pública
para se preparar na matéria, mas o rapaz nunca mais apareceu.
No ano de 1894, em face das dissensões
reinantes no seio do Espiritismo brasileiro, alguns confrades, tendo
à frente o Dr. Bittencourt Sampaio, resolveram convidar Bezerra
a fim de assumir a presidência da Federação Espírita
Brasileira.
Em vista da relutância
dele em assumir aquele espinhoso encargo, travou-se a seguinte conversação:
? Querem que eu volte para a
Federação. Como vocês sabem aquela velha sociedade
está sem presidente e desorientada. Em vez de trabalhos metódicos
sobre Espiritismo ou sobre o Evangelho, vive a discutir teses bizantinas
e a alimentar o espírito de hegemonia.
? O trabalhador da vinha, disse
Bittencourt Sampaio, é sempre amparado. A Federação
pode estar errada na sua propaganda doutrinária, mas possui
a Assistência aos Necessitados, que basta por si só para
atrair sobre ela as simpatias dos servos do Senhor.
? De acordo. Mas a Assistência
aos Necessitados está adotando exclusivamente a Homeopatia
no tratamento dos enfermos, terapêutica que eu adoto em meu
tratamento pessoal, no de minha família e recomendo aos meus
amigos, sem ser, entretanto, médico homeopata. Isto aliás
me tem criado sérias dificuldades, tornando-me um médico
inútil e deslocado que não crê na medicina oficial
e aconselha a dos Espíritos, não tendo assim o direito
de exercer a profissão.
? E por que não te tornas
médico homeopata? disse Bittencourt.
? Não entendo patavinas
de Homeopatia. Uso a dos Espíritos e não a dos médicos.
Nessa altura, o médium
Frederico Júnior, incorporando o Espírito de S. Agostinho,
deu um aparte:
? Tanto melhor. Ajudar-te-emos
com maior facilidade no tratamento dos nossos irmãos.
? Como, bondoso Espírito?
Tu me sugeres viver do Espiritismo?
? Não,
por certo! Viverás de tua profissão, dando ao teu cliente
o fruto do teu saber humano, para isso estudando Homeopatia como te
aconselhou nosso companheiro Bittencourt. Nós te ajudaremos
de outro modo: Trazendo-te, quando precisares, novos discípulos
de Matemática...
TODO
CONTEÚDO DAS ORAÇÕES, MENSAGENS ESPÍRITAS
E PSICOGRAFIAS PODERÁ SER COPIADO, PUBLICADO, DIVULGADO SEM
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