ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

11
Reencarnação e Evangelho

Na casa do meu Pai há muitas moradas.

O homem que anseia e busca a espiritualização própria, deve contrapor sua ação benéfica, sua atividade construtiva, seu labor fraterno, ao trabalho das inteligências pervertidas.
Tais inteligências, operando no Plano Físico e no Espiritual, visam à desagregação, à desarmonia.
Promovendo ou estimulando empreendimentos que se harmonizem inteiramente com os ideais do Cristianismo, devemos evitar que o conhecimento inoperante nos transforme em palacetes iluminados, de portas fechadas e em pleno deserto, distanciados da ignorância e da perversidade, do sofrimento e da lágrima.
Devemos ser o tugúrio humilde, mas sempre aquecido, hospitaleiro e bom, onde o copo de água fria e o caldo reconfortante retemperem o viajor cansado das longas jornadas, nas difíceis e labirintosas veredas da ascensão.
O conhecimento do Espiritismo — promessa de Jesus através do Consolador, do Paracleto — dá-nos uma compreensão de como foi profundo e sábio o Mestre quando insistia, junto aos discípulos, para que disseminassem a Sua palavra.
Jesus não beneficiava, apenas, a um povo, a uma geração.
Seu coração, amoroso e compassivo, abrangia a Terra inteira.
Do Oriente ao Ocidente.
Sua luz confundia-se com as luzes, concentradas, de infinitos sóis.
Seu coração, generoso e fraterno, desdobrava-se para outras “moradas do Pai”.
Por isso, o Sublime Educador não cessava de recomendar a expansão do Evangelho, a pregação da Boa Nova.
Majestoso, Eterno, Grandioso — apascentava, com Infinita Ternura, bilhões de ovelhas transviadas.

* * *

Sendo o Pão da Vida e a Luz do Mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo era, por conseguinte, a mais completa manifestação de Sabedoria e Amor que a Terra, em qualquer tempo, jamais sentira ou conhecera.
No passado e no presente.
A palavra do Mestre se refletiu e se reflete, salutar e construtivamente, em todos os ângulos evolutivos da Humanidade.
No campo da Moral.
Na esfera da Cultura.
Na gleba do Sentimento.
Em “outras moradas do Pai”, onde evolucionam ovelhas que não pertencem ao plano terreno, o verbo do Senhor impregna todos os seres, encarnados e desencarnados, de um perfume que se não esvai.
De uma luz que se não apaga...
De um esplendor que se não dissipa...
De uma esperança que se não extingue...
De uma vitalidade que se não estiola...
... a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus.
Se às Religiões, inclusive ao Espiritismo, faltasse o alimento evangélico, a seiva cristã, todas elas empalideceriam, debilitadas, inermes, cadaverizadas, exangues...
Sem vida e sem calor.
Sem Alma.
Mortas...
Certa vez, ouvimos de Amado Instrutor Espiritual:
A reencarnação, conhecida de vários povos e civilizações, não conseguira, até o advento de Jesus, tornar o homem mais feliz, mais fraterno. Com Jesus, no entanto, sofreu ela um banho de luz e misericórdia.
Lapidares, comoventes, inesquecíveis palavras! O Tempo, inexorável Saturno, não as apagou de nossa memória.
Com o Mestre da Cruz, a palingenesia inundou-se, de fato, de Amor.
Ao “necessário vos é nascer de novo”, do inolvidável diálogo com Nicodemos, juntou o Cristo o “amái-vos uns aos outros”, Regra Áurea do Evangelho Imortal.
E assim, sob o impulso fraterno da palavra do Cristo de Deus, vai a Humanidade terrena e a de “outras moradas” caminhando, a passos seguros, na direção de seus gloriosos destinos.
Em busca da luz, do amor, da perfeição. No rumo da Vida, da verdadeira Vida.

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Convivência

Eu não vim chamar os justos...

Foi o banquete em casa de Levi, o futuro evangelista Mateus, que ensejou ao Mestre as palavras em epígrafe.
Palavras que venceriam os séculos, os milênios... Levi era publicano, o que, na antiga Roma, significava “cobrador de impostos”.
Os publicanos eram detestados pelos judeus, que não gostavam de pagar tributos a César, especialmente porque os misteres de arrecadação favoreciam, da parte de funcionários inescrupulosos, já àquele tempo, extorsões duras e polpudas.
De maneira geral, portanto, eram mal vistos os pu¬blicanos, na comunidade israelita, embora entre eles houvesse homens de bem, inatacáveis por sua probidade.
Prevalecia, contudo, o conceito genérico: os publicanos eram espoliadores do povo.
O convite a Levi Mateus; a presença de Jesus em sua casa; o lauto banquete por ele oferecido ao Mestre, tudo isso constituiu motivo para censuras e comentários mordazes.
O mesmo acontecera na visita do Senhor a Zaqueu, também publicano.
A atitude caridosa do Amigo Celeste produziu tamanha celeuma entre fariseus e escribas, fiéis e inconfundíveis representantes do formalismo e da hipocrisia, que eles não se contiveram, interpelando o Justo dos Justos: “Porque comeis e bebeis com publicanos e pecadores ?“ E o Mestre, sem trair a grandeza, a excelsitude do seu incompreendido apostolado, apostolado de luz e de misericórdia, responde-lhes, com firmeza, que os sadios “não precisam de médico, e, sim, os doentes”.
E conclui, incisivo, categórico: — “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.”
Tais palavras revelam não só infinita compaixão pelos infelizes, que são os que pecam, mas, também, incomensurável sentimento de tolerância.
A advertência do Cristo, emudecendo, naquele dia, os loquazes fariseus, ecoa, ainda hoje, em nossa cons¬ciência, estabelecendo linhas diferentes para a nossa ca¬minhada.
O Espiritismo tornou suas as palavras de Jesus, cujo pensamento sintetiza na atualidade.
E os Espíritas de boa vontade, esclarecidos e fra¬ternos, esforçam-se no sentido de dar-lhes aplicação.
Os Espíritas, procurando assimilar e exemplificar o ensino, reconhecem que, se é realmente agradável o convívio com irmãos superiores, profundamente fraterno e meritório é o acolhimento àqueles que ocupam, na escala evolutiva, posição menos segura que a nossa.
Os companheiros mais esclarecidos têm muito para nos dar, através da palavra e, sobretudo, da exemplificação.
Aos mais atrasados do que nós, podemos oferecer algo de nosso coração, de nosso entendimento.
Assimilar dos mais evoluídos a bondade e a sabedoria, é realmente proveitoso às nossas experiências. Proveitoso e bom, agradável e envolvente, convenhamos.
No entanto, abraçar os que aceitaram, por equívoco, as sugestões do erro e do crime, constitui valioso programa evangélico, tal como fêz Jesus em casa de Zaqueu ou no banquete de Levi.
Por meio desse regime de interdependência, afetiva e cultural, é que se movimentam os carros do progresso, conduzindo a Humanidade, com segurança, para os seus alevantados objetivos.
“A mente, em qualquer plano, emite e recebe, dá e recolhe, renovando-se constantemente para o alto destino que lhe compete atingir” — esclarece o nobre Emmanuel.
Recolhendo de Jesus, na inesquecida hora do banque¬te mundano, o verbo reajustador, Levi Mateus soube multiplicar, a cento por um, através de suas anotações, o benefício do precioso minuto de convivência com o Mestre.
E somos nós, os aprendizes da atualidade, os beneficiários daquela convivência tão acremente censurada...
Somos nós os legatários dos sublimes apontamentos.

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