ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
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Reencarnação e Evangelho
Na casa do meu
Pai há muitas moradas.
O homem que anseia e busca
a espiritualização própria, deve contrapor sua
ação benéfica, sua atividade construtiva, seu labor
fraterno, ao trabalho das inteligências pervertidas.
Tais inteligências, operando no Plano Físico e no Espiritual,
visam à desagregação, à desarmonia.
Promovendo ou estimulando empreendimentos que se harmonizem inteiramente
com os ideais do Cristianismo, devemos evitar que o conhecimento inoperante
nos transforme em palacetes iluminados, de portas fechadas e em pleno
deserto, distanciados da ignorância e da perversidade, do sofrimento
e da lágrima.
Devemos ser o tugúrio humilde, mas sempre aquecido, hospitaleiro
e bom, onde o copo de água fria e o caldo reconfortante retemperem
o viajor cansado das longas jornadas, nas difíceis e labirintosas
veredas da ascensão.
O conhecimento do Espiritismo — promessa de Jesus através
do Consolador, do Paracleto — dá-nos uma compreensão
de como foi profundo e sábio o Mestre quando insistia, junto
aos discípulos, para que disseminassem a Sua palavra.
Jesus não beneficiava, apenas, a um povo, a uma geração.
Seu coração, amoroso e compassivo, abrangia a Terra inteira.
Do Oriente ao Ocidente.
Sua luz confundia-se com as luzes, concentradas, de infinitos sóis.
Seu coração, generoso e fraterno, desdobrava-se para outras
“moradas do Pai”.
Por isso, o Sublime Educador não cessava de recomendar a expansão
do Evangelho, a pregação da Boa Nova.
Majestoso, Eterno, Grandioso — apascentava, com Infinita Ternura,
bilhões de ovelhas transviadas.
* * *
Sendo o Pão da
Vida e a Luz do Mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo era, por conseguinte,
a mais completa manifestação de Sabedoria e Amor que a
Terra, em qualquer tempo, jamais sentira ou conhecera.
No passado e no presente.
A palavra do Mestre se refletiu e se reflete, salutar e construtivamente,
em todos os ângulos evolutivos da Humanidade.
No campo da Moral.
Na esfera da Cultura.
Na gleba do Sentimento.
Em “outras moradas do Pai”, onde evolucionam ovelhas que
não pertencem ao plano terreno, o verbo do Senhor impregna todos
os seres, encarnados e desencarnados, de um perfume que se não
esvai.
De uma luz que se não apaga...
De um esplendor que se não dissipa...
De uma esperança que se não extingue...
De uma vitalidade que se não estiola...
... a ventania das paixões humanas jamais apagará uma
só das luzes de Deus.
Se às Religiões, inclusive ao Espiritismo, faltasse o
alimento evangélico, a seiva cristã, todas elas empalideceriam,
debilitadas, inermes, cadaverizadas, exangues...
Sem vida e sem calor.
Sem Alma.
Mortas...
Certa vez, ouvimos de Amado Instrutor Espiritual:
A reencarnação, conhecida de vários povos e civilizações,
não conseguira, até o advento de Jesus, tornar o homem
mais feliz, mais fraterno. Com Jesus, no entanto, sofreu ela um banho
de luz e misericórdia.
Lapidares, comoventes, inesquecíveis palavras! O Tempo, inexorável
Saturno, não as apagou de nossa memória.
Com o Mestre da Cruz, a palingenesia inundou-se, de fato, de Amor.
Ao “necessário vos é nascer de novo”, do inolvidável
diálogo com Nicodemos, juntou o Cristo o “amái-vos
uns aos outros”, Regra Áurea do Evangelho Imortal.
E assim, sob o impulso fraterno da palavra do Cristo de Deus, vai a
Humanidade terrena e a de “outras moradas” caminhando, a
passos seguros, na direção de seus gloriosos destinos.
Em busca da luz, do amor, da perfeição. No rumo da Vida,
da verdadeira Vida.
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Convivência
Eu não
vim chamar os justos...
Foi o banquete em casa
de Levi, o futuro evangelista Mateus, que ensejou ao Mestre as palavras
em epígrafe.
Palavras que venceriam os séculos, os milênios... Levi
era publicano, o que, na antiga Roma, significava “cobrador de
impostos”.
Os publicanos eram detestados pelos judeus, que não gostavam
de pagar tributos a César, especialmente porque os misteres de
arrecadação favoreciam, da parte de funcionários
inescrupulosos, já àquele tempo, extorsões duras
e polpudas.
De maneira geral, portanto, eram mal vistos os pu¬blicanos, na comunidade
israelita, embora entre eles houvesse homens de bem, inatacáveis
por sua probidade.
Prevalecia, contudo, o conceito genérico: os publicanos eram
espoliadores do povo.
O convite a Levi Mateus; a presença de Jesus em sua casa; o lauto
banquete por ele oferecido ao Mestre, tudo isso constituiu motivo para
censuras e comentários mordazes.
O mesmo acontecera na visita do Senhor a Zaqueu, também publicano.
A atitude caridosa do Amigo Celeste produziu tamanha celeuma entre fariseus
e escribas, fiéis e inconfundíveis representantes do formalismo
e da hipocrisia, que eles não se contiveram, interpelando o Justo
dos Justos: “Porque comeis e bebeis com publicanos e pecadores
?“ E o Mestre, sem trair a grandeza, a excelsitude do seu incompreendido
apostolado, apostolado de luz e de misericórdia, responde-lhes,
com firmeza, que os sadios “não precisam de médico,
e, sim, os doentes”.
E conclui, incisivo, categórico: — “Eu não
vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.”
Tais palavras revelam não só infinita compaixão
pelos infelizes, que são os que pecam, mas, também, incomensurável
sentimento de tolerância.
A advertência do Cristo, emudecendo, naquele dia, os loquazes
fariseus, ecoa, ainda hoje, em nossa cons¬ciência, estabelecendo
linhas diferentes para a nossa ca¬minhada.
O Espiritismo tornou suas as palavras de Jesus, cujo pensamento sintetiza
na atualidade.
E os Espíritas de boa vontade, esclarecidos e fra¬ternos,
esforçam-se no sentido de dar-lhes aplicação.
Os Espíritas, procurando assimilar e exemplificar o ensino, reconhecem
que, se é realmente agradável o convívio com irmãos
superiores, profundamente fraterno e meritório é o acolhimento
àqueles que ocupam, na escala evolutiva, posição
menos segura que a nossa.
Os companheiros mais esclarecidos têm muito para nos dar, através
da palavra e, sobretudo, da exemplificação.
Aos mais atrasados do que nós, podemos oferecer algo de nosso
coração, de nosso entendimento.
Assimilar dos mais evoluídos a bondade e a sabedoria, é
realmente proveitoso às nossas experiências. Proveitoso
e bom, agradável e envolvente, convenhamos.
No entanto, abraçar os que aceitaram, por equívoco, as
sugestões do erro e do crime, constitui valioso programa evangélico,
tal como fêz Jesus em casa de Zaqueu ou no banquete de Levi.
Por meio desse regime de interdependência, afetiva e cultural,
é que se movimentam os carros do progresso, conduzindo a Humanidade,
com segurança, para os seus alevantados objetivos.
“A mente, em qualquer plano, emite e recebe, dá e recolhe,
renovando-se constantemente para o alto destino que lhe compete atingir”
— esclarece o nobre Emmanuel.
Recolhendo de Jesus, na inesquecida hora do banque¬te mundano, o
verbo reajustador, Levi Mateus soube multiplicar, a cento por um, através
de suas anotações, o benefício do precioso minuto
de convivência com o Mestre.
E somos nós, os aprendizes da atualidade, os beneficiários
daquela convivência tão acremente censurada...
Somos nós os legatários dos sublimes apontamentos.
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