ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

15
Reencarnação e Reajuste

... Reconcilia-te com o adversário, enquanto estás a caminho.

Entre uma pessoa que acredita, simplesmente, numa única existência — com início no berço e término na sepultura —, e outra, crente na multiplicidade das vidas, a segunda terá, sem dúvida, maior facilidade para com¬preender e aproveitar o ensinamento do Mestre.
Faze as pazes com o adversário enquanto dispões da oportunidade...
O homem não reencarnacionista, supondo que a vida se resume no que aí está — nascer, viver, comer, procriar e morrer, indo, depois, para o céu, o inferno ou para
o Nada — um homem nessas condições, inteiramente divorciado de qualquer programa superior, não compreenderá porque deva reconciliar-se com um inimigo.
Dificilmente se lhe provará que deva ir ao encontro de um obscuro desafeto, pois que dele não necessita, dele nada espera, com ele não se incomoda.
A não ser que possua espontânea sensibilidade, excepcionalmente o homem afortunado e poderoso concordaria em procurar o adversário humilde, pobrezinho, para com ele reconciliar-se, especialmente se considera que a razão está do seu lado.
O orgulho, a vaidade, o amor próprio, enfim, levantarão, entre ambos, intransponível barreira.
O argumento do homem orgulhoso, que não crê, nem cogita da vida futura, será, invariàvelmente, este: “Não preciso de ninguém; logo, porque me hei-de humilhar?”
Assim pensa, assim vive, assim age, lôgicamente.
Assim procede, porque só vê a vida presente.
Não vislumbra, sequer, uma nesga do futuro — futuro que, para o Espírita sincero, é sempre sinônimo de Responsabilidade.
O contrário acontece com o homem que acredita na imortalidade da alma e avança, ainda, um pouco mais: crê, uma crença firme, porque consciente, na Reencarnação.
Crê no retorno a paisagem do mundo, por necessidade evolutiva, em experiências provacionais ou expiatórias, ou para a execução de tarefas em nome do Senhor.
A doutrina reencarnacionista exerce salutar influência na vida, no destino, na felicidade do ser humano.
A noção, consciente, das vidas sucessivas, implica, tàcitamente, normalmente, na melhoria do comportamento individual.
O reencarnacionista sabe que o Espírito eterno somente conhecerá a ventura definitiva, integral, plena, intransferível, se houver paz no seu coração, no receoso de sua alma, nos refolhos conscienciais, aquela paz que resulta da harmonia com o próximo, e, principalmente, da harmonia consigo mesmo, com o seu mundo íntimo.
O homem que acredita na lei das vidas sucessivas, e procede segundo esta crença, leva mais vantagem do que aquele que supõe comece a vida no berço e termine na sepultura.
A desvantagem é para o que não crê no “pré” e no “pós” ensinados pelo Espiritismo: pré-existência e pós-encarnação.
O bem que fizermos aos nossos adversários, favorecendo, assim, a reconciliação ainda neste mundo — enquanto estamos a caminho” — tem a faculdade de nos beneficiar relativamente ao passado, ao presente e ao futuro.
De que maneira? — eis, por certo, a indagação.
Normalmente — com a ressalva de que toda regra tem exceção — as inimizades de hoje têm sua origem no ontem.
Ao nos defrontarmos com inimigos de outras vidas, antigas rivalidades se renovam.
Remotas fogueiras voltam a crepitar, inflamando labaredas que o sopro da ignorância e do orgulho acendeu no pretérito.
Não devemos lançar nessas fogueiras o combustível da intransigência e do rancor.
Atentos ao “reconcilia-te com o adversário”, do Celeste Benfeitor, e, ainda, considerando a necessidade inadiável do aperfeiçoamento espiritual, o reencarnacionista de boa vontade pode, hoje, mediante a prática do bem, interromper velhos antagonismos de ontem, evitando, assim, a propagação das fogueiras.
Novas culpas, novos débitos, com o inevitável cor¬tejo de sofrimento e lágrima, serão, portanto, evitados.
Eis aí os benefícios que a Reencarnação, com o seu natural incentivo à fraternidade, nos traz com vistas aos enganos do passado.
Erros seculares desaparecem ante o abençoado mi¬lagre da reconciliação amorosa.

16
Riqueza

... é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha...

A Doutrina Espírita oferece aos seus adeptos —àqueles que lhe procuram observar e sinceramente absorver as luzes santificantes — adequado conceito em torno de tão importante quão difícil aspecto da experiência humana: — a Riqueza.
Há quem enriqueça pelo esforço próprio, no trabalho honesto.
Há quem se torne milionário por efeito de heranças ou doações.
Há, contudo, os que trazem suas arcas repletas em consequência de atividades ilícitas, desonestas, espoliando aqui, enganando acolá, defraudando mais adiante.
A fortuna, todavia, em si mesma não é boa nem má.
É neutra — absolutamente neutra.
Em forma de cintilantes moedas ou expressando-se por cédulas de alto valor, conserva ela, contudo, a sua neutralidade.
O homem, pela aplicação que lhe dá, é quem a transforma em veículo do bem ou do mal, de salvação ou condenação, alterando-lhe a finalidade.
Com ela pode o homem construir soberbos monumentos de benemerência; mas, com ela, também pode cavar, diante de si, abismos de alucinação e crime.
A riqueza bem aplicada, enobrecendo quem a possui, provê de remédio, de alimento, de vestuário, o lar humilde onde, tantas vezes, a vergonha digna se oculta huinllhada, retraída.
A riqueza mal aplicada, enclausurando o homem nas teias da ambição, condu-lo à miséria espiritual, à demência, à loucura.
Como se vê, podemos convertê-la em bênção ou condenação em nossa vida.
O homem esclarecido, que se desprendeu do corpo deixando valiosos recursos, econômicos ou financeiros, alegrar-se-á, sentir-se-á ditoso, se notar que tais recursos estão espalhando na Terra o perfume da Caridade, nas suas mais diversas manifestações.
No copo de leite para a criança enferma.
No prato de sopa para o necessitado.
No vestuário para o que se defronta com dificuldades.
Na intelectualização e espiritualização do seu semelhante.
Se deixou alguém no mundo largas possibilidades materiais e não se encontra, espiritualmente, em boas condições, as preces de reconhecimento de seus benefi¬ciários alcançar-lhe-ão onde estiver, em forma de consolação e paz, bom ânimo e reconforto, felicitando, destarte, doador e legatários.
Há um tipo de riqueza que constitui, invariàvelmente, uma brasa na consciência de quem a deixou no mundo, embora possam os herdeiros, aplicando-a cristãmente, suavizar-lhe o sofrimento, abrandar-lhe o remorso.
É a que se adquire por meios excusos, por inconfessáveis empreendimentos, apoiados na exploração dos semelhantes.
Riqueza abençoada é aquela que, obtida no trabalho digno, expande-se, fraternal e operosamente, criando o trabalho e favorecendo a prosperidade.
A que estimula realizações superiores, nos diversos setores da atividade humana, convertendo-se em rosas de luz para o Espírito Eterno nos divinos Jardins do Infinito.
Esse tipo de riqueza e essa forma de aplicá-la favorecem a ascensão do homem, uma vez que, possuindo-a, não é por ela possuído.
A riqueza mal adquirida e mal aplicada conservará o seu detentor em consecutivas repetições de dramas expiatórios, nos caminhos terrestres e nas sombrias regiões da vida espiritual.
Asseverando ser “mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus”, não quis o Mestre menosprezar a prosperidade, que é um bem da vida.
Nem condenar, irremissivelmente, o companheiro afortunado.
O que o Mestre pretendeu, decerto, foi advertir-nos quanto aos perigos do excesso, do supérfluo, porque nossas mãos invigilantes estão habituadas ao abuso.
Temos sido, no decurso dos milênios, campeões da extravagância.
Reconhecia Jesus que a fortuna em poder de criaturas que estagiam, ainda, no clima do egoísmo, nas estações da avareza, imersas na insensibilidade, é sempre porta aberta — diríamos melhor — escancarada para o abismo.
A única riqueza, em verdade, que não oferece margem de perigo, é a riqueza espiritual, os tesouros morais que o homem venha a adquirir.
É a riqueza que se não manifesta, exclusivamente, por meio de cofres recheados, nem de palacetes suntuosos e patrimônios incalculáveis, afrontando a indigência.
É a que se traduz na posse, singela e humilde, dos sentimentos elevados.
Por esse tipo de riqueza, imperecível e eterna, podemos e devemos lutar, denodada e valentemente.
Com toda a força do nosso coração.
Com toda a energia de nossa alma.

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