ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
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Reencarnação e Resgate
Não é que
ele tenha pecado, nem seus pais...
Certa vez os discípulos,
apresentando a Jesus um cego de nascença, formularam a seguinte
pergunta: —“Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais,
para que nascesse cego?”
Antes de examinar, à luz do Espiritismo, a resposta do Senhor,
ressaltemos o fato de os discípulos acreditarem na Reencarnação,
pois somente a crença nas múltiplas existências
poderia justificar semelhante pergunta.
Tudo indica que Jesus conversava sobre o assunto, na intimidade com
os discípulos, após as longas caminhadas, embora de público,
junto à multidão incapaz de entender a tese transcendentalíssima,
fizesse silêncio.
O Mestre sabia que os homens da época não tinham olhos
para enxergar.
Não tinham ouvidos para entender.
Escutavam, mas não compreendiam.
A respeito da crença dos judeus na Reencarnação,
ouçamos o que escreve Léon Denis, no magnífico
livro “Cristianismo e Espiritismo”:
Em suas obras, faz o historiador
Josepho profissão de fé na reencarnação;
refere ele que era essa a crença dos fariseus. O padre Didon
o confirma, nesses termos, na sua “Vida de Jesus”: “Entre
o povo judeu, e mesmo nas escolas, acreditava-se na volta da alma dos
mortos na pessoa dos vivos”. É o que explica, em muitos
casos, as perguntas feitas a Jesus por seus discípulos.
A resposta do Cristo foi
clara: o homem que ali estava não havia pecado.
Nem os seus pais, pois na Justiça Divina os filhos não
pagam pelos pais, nem os pais pelos filhos.
O Espírito que animava aquele corpo, o Espírito que nele
havia reencarnado — este sim, havia pecado antes do nascimento.
“Não há efeito sem causa — disse Allan Kardec,
o insigne Codificador do Espiritismo -, e todo efeito inteligente tem,
forçosamente, uma causa inteligente.”
E Léon Denis argumenta:
Com a doutrina das preexistências
e das re¬encarnações tudo se liga, se esclarece e
compreende: a justiça divina se patenteia; a harmonia se esta¬belece
no universo e no destino.
É lógico,
também, que “as obras de Deus” não se podem
manifestar de forma desumana: punição a um cego de nascença!
A não ser que se admita a preexistência da Alma. Negando-a,
não há por onde fugir: será uma punição
injusta, da qual um indivíduo normal se envergonharia.
“As obras de Deus” se manifestam no cumprimento da Lei.
Lei de Justiça, Lei de Amor.
Lei que corrige o pecador, agora ou mais tarde, concedendo-lhe sucessivas
moratórias, quantas se façam necessárias.
Tendo ensinado Jesus que a cada um seria dado de acordo com as próprias
obras — “Lei de Causa e Efeito” —, não
iria ele insinuar a absurda, a inconse¬quente idéia de que
a Lei aplica sanções e corretivos a pessoas sem culpa.
Como o cego de nascença...
“As obras de Deus” se exprimem no Amor, que é, também,
Justiça Imanente.
E na Justiça — que é também Amor.
Aquele homem não havia pecado, mas a sua Alma, o seu Espírito,
sim, em existências passadas.
“Quem com ferro fere, com ferro será ferido” —ensina
a sabedoria popular.
Aquele Espírito, ali reencarnado, ferira antes de nascer; ali
estava, portanto, inocente na aparência, para resgatar o seu débito,
para saldar a sua promissória.
Ali estava, “ferido nos olhos”.
Nascera cego...
O débito era antigo, mas nem por isso deixara de existir.
A Lei registrara o remoto delito.
A Lei cobrava, a seu tempo, o que lhe era devido.
* * *
Nascer cego ou paralítico,
demente ou surdo-mudo, ou com propensão a moléstia grave,
ou incurável, que se manifestará mais tarde, é
bênção que nem sempre o indivíduo sabe agradecer.
É bênção — porque estará resgatando
dívida.
E com Amor, porque a Lei é credora compassiva, que permite amortizações
parceladas.
É bênção — porque estará sendo
reabilitado.
E com Amor, porque a própria recordação da dívida
não é conservada.
É bênção — porque se estará
libertando.
E com Amor, porque a libertação lhe conduzirá o
Espírito redimido pelos caminhos de luz da Espirituali¬dade
Superior.
Diante do cego ou do paralítico, do surdo-mudo ou do psicopata,
o homem comum interrogará: — “Porque esta criatura
nasceu assim ?“
A maioria levantará os ombros, na impossibilidade de uma resposta
que não ofenda a magnanimidade divina...
Mas os reencarnacionistas — e entre eles os Espíritas,
tomando a palavra, responderão, em nome do Evangelho e do Espiritismo:
— “Esta criatura nasceu assim porque o seu Espírito
pecou noutras existências.
A Reencarnação explica, à luz da lógica,
o problema dos resgates.
Põe no justo lugar a Justiça Divina. Esclarece o problema
dos resgates dolorosos, semelhantes ao do “cego de nascença”
da época do Cristo e do nosso tempo.
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Pobreza
Sim, ó Pai, porque
assim foi do teu agrado.
Uma das mais sublimes
funções do Evangelho do Senhor — e do Espiritismo
— é a de preparar o homem para que saiba viver com dignidade
em quaisquer circunstâncias.
Do Evangelho, do seu tempo até hoje; e do Espiritismo na atualidade,
como restaurador dos postulados do Cristianismo.
Na riqueza, ou na pobreza, encontrará o ser humano, nas lições
de Jesus e nos ensinos da Codificação, que harmoniosamente
se identificam e se completam, os meios de viver, lutar e vencer com
ombridade.
Jesus não preconizou a miséria por condição
indis¬pensável à vida do homem, do mesmo modo que
não indicou a fortuna por meio ideal, exclusivo, de o homem transitar,
com êxito, pelos caminhos do mundo.
A missão do Evangelho foi e é a de preparar a Humanidade
para que ela possa viver dignamente, quer na carência, quer na
prosperidade.
O que nos tem faltado, em nossas consecutivas expe¬riências,
é o fator “preparação”.
Não sabemos comportar-nos, cristãmente, numa ou noutra
situação: na riqueza ou na pobreza.
Quando os ventos conduzem o barco de nossa vida aos portos engalanados
da fortuna, tornamo-nos egoístas e, por vezes, cruelmente impiedosos
ante o sofrimento que se desdobra, ante nós, como se fora sugestão
divina, suave e doce convite para que ajudemos aos mais necessitados.
Mas a riqueza, quase sempre, oblitera os Sentimentos do homem.
Sufoca-lhe os germens da solidariedade.
Insensibiliza-o de tal modo que, enquanto a Bondade vai fugindo, sutilmente,
humilhada, por uma das janelas do nosso coração, por uma
de suas espaçosas e largas portas vai entrando o Egoísmo,
via de regra acompanhado do seu dedicado pajem, do seu vigilante companheiro:
o Orgulho.
E não é só: mais atrás, espreitando, outra
comparsa:
a Prepotência.
Quando o frio da adversidade, por sua vez, nos bate à porta,
levando-nos às estações da pobreza, da dificuldade,
caímos na paisagem da inconformação.
Confiamo-nos, de imediato, à rebeldia.
Entregamo-nos, levianamente, à revolta.
Substituímos a prece humilde — de Ontem, pela blasfêmia
irreverente, desrespeitosa.
Recusamos, assim, lamentavelmente, uma experiência que, muita
vez, poderia representar a manifestação da Vontade do
Senhor, que nos dá segundo o que necessitamos, e não segundo
o que almeja a nossa consciência.
* * *
O que nos falta, portanto,
é preparação evangélica. É Cristianismo
em nosso coração e em nossa inteligência, para que
saibamos viver na opulência — sem esquecer os deveres de
solidariedade; e na pobreza —sem olvidarmos a obediência
a Deus e o aspecto, essencialmente educativo, altamente educativo, de
semelhante prova.
A pobreza, tanto quanto a riqueza, como expressi¬vos e complexos
fenômenos sociológico-espirituais de um mundo desajustado
— de um mundo que demonstra ainda não conhecer a Deus —,
nada valem em si mesmas, intrinsecamente.
A forma por que nos conduzimos, numa ou noutra experiência, é
que falará por nós — acusando-nos ou defendendo-nos
— no tocante à destinação espiritual.
O rico generoso, o rico que não repudiou o seu próximo,
receberá da Lei, mais cedo ou mais tarde, o que a Lei reserva,
igualmente, para o pobre de coração com-passivo, de alma
misericordiosa.
O afortunado cruel, explorador da necessidade alheia, o rico que se
encastelou no trono do egoísmo avassalante, receberá da
Lei, em qualquer tempo, o que a Lei reserva para o pobre revoltado,
insubmisso e blasfemo.
A Lei é impessoal.
A Lei está na consciência humana e nela estabelece o seu
augusto e solene tribunal.
O problema, como podemos ver, é de preparação —exclusivamente
de preparação.
Em síntese: de adaptação à LEI DO AMOR,
ensinada e vivida por Jesus, e que a interpretação espírita,
amena, suave e lógica, veio colocar ao alcance do homem.
Não para que o homem a tenha por moldura, por ornamento exterior,
mas para que o homem a utilize, a desfrute, através da união
com Deus, do encontro pessoal com Jesus.
Nem o Evangelho preconiza a mendicância, nem o Espiritismo lhe
apóia a existência.
Jesus e Kardec, em todos os seus ensinamentos, preconizam um mundo de
trabalho e dignidade.
De solidariedade e amor.
Do mais forte ajudando o mais fraco.
Do mais rico colaborando a favor do mais pobre.
Um mundo de moralidade e respeito.
De ordem e progresso.
O Cristianismo e o Espiritismo preconizam uma sociedade em que os pobres
saibam e possam conquistar, honestamente, o pão de cada dia,
tanto quanto o rico saiba e queira transformar os seus patrimônios,
de que, em última análise, é apenas administrador,
em oportu¬nidade de trabalho e prosperidade para todos.
É tão infeliz o pobre que se revolta, diante da dificuldade,
quanto o rico que se compraz, simplesmente, na satisfação
do seu exclusivo interesse.
A um e outro reservará a Lei a inevitável consequência:
o retorno a novas experiências, para que novas experiências
lhes abram, a pobres e ricos desajustados, o entendimento ante a Vontade
e os Desígnios do Administrador Universal: — DEUS.
É tão feliz o rico que dá com alegria, e faz, da
sua fortuna, um instrumento de prosperidade e justiça, visando
ao progresso e ao engrandecimento da coletividade onde a Divina Bondade
o situou, quanto o pobre que, na simplicidade de sua vida, no anonimato
de suas lutas, compreende e aceita as circunstâncias, por mais
penosas e difíceis, que a Paternal Sabedoria lhe reservou.
Quem faz a felicidade do homem é o próprio homem.
Ou melhor, o homem através da compreensão do Poder Divino
— desse Poder que o criou, o vem amparando e o vai conduzindo
no rumo da perfeição.
A felicidade não vem de fora para dentro, da periferia para o
centro.
A tempestade pode estar rugindo, implacável, lá fora,
mas o mundo interior de cada indivíduo pode estar sereno e plácido,
como plácida e serena é a superfície de um lago.
Todavia, enquanto zéfiros brancos podem estar entoando, lá
fora, a sinfonia da paz, a canção do sossego, dentro do
homem podem estar em erupção os vulcões da inveja
e do ciúme, da ambição e do ódio, da revolta
e do desespero.
O problema, portanto, é de preparação para a luta,
segundo os padrões do Evangelho, que a Doutrina Espírita
veio estruturar na consciência humana.
Compreender, compreender, compreender — eis a imperiosa, indisfarçável
necessidade do ser.
Compreensão, contudo, que resulte menos da cultura vaidosa que,
edificada no materialismo e sem o lastro evangélico, tende a
agravar as soluções; mas, compreensão que decorra
do conhecimento espiritual, com base na ética do Cristianismo,
que o Espiritismo veio revitalizar — anemizado que estava pela
incúria dos homens.
Se o homem deseja, efetivamente, ser feliz, deve, sem embargo do seu
trabalho, da sua luta, do seu empenho na sustentação de
si mesmo e da sua família, guardar fidelidade à própria
consciência.
Utilizar, com nobreza e confiança, a oportunidade que o Pai lhe
confiou: — na riqueza ou na pobreza.
Na riqueza, tornando-se generoso e bom, dinâmico e progressista.
E dizer: “Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.”
Na pobreza, tornando-se honesto e digno, correto e sincero na execução
de seus deveres.
E dizer: “Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.”
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