ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

19
Reencarnação e Cultura

O saber ensoberbece, mas o amor edifica.

A cultura — como todos os dons que felicitam o Espírito no caminho da plenitude evolutiva — desenvolve-se em função das vidas sucessivas.
É uma conquista que a alma realiza no curso de milênios sem conta.
Os gênios do pensamento que transitaram pelo mundo à maneira de inextinguíveis faróis — Confúcio, Sócrates, Leonardo Da Vinci, Goethe, Rui Barbosa, Einstein e outros, foram almas insipientes, nos primórdios da sua evolução.
Inteligências primárias, que tatearam, também, nas sombras da mediocridade.
Tiveram, enfim, a mesma origem de todos os homens.
O princípio espírita de que todas as almas “foram criadas simples e ignorantes” revela a inexistência de favoritismos e privilégios nas leis divinas.
Na balança de Deus não há, como ocorre na do homem, dois pesos e duas medidas.
A Humanidade tem, obviamente, origem comum.
Viaja para o mesmo destino — a perfectibilidade.
Percorre as variadas e múltiplas estações do aprendizado, neste e noutros mundos disseminados pelo Universo.
A soma dos valores culturais, como a dos valores morais, representando aquisições que se perdem nas brumas do tempo, faz que despontem, aqui e alhures, ontem e hoje, nas radiosas constelações da Sabedoria, refulgentes estrelas, inconfundíveis por seu brilho ímpar.
A cultura, entretanto, pode ser, muita vez — como a fortuna, a beleza física, o poder, motivo para a desgraça do homem, quando essa cultura, desprovida de humildade e amor, o conduz, pela presunção, ao detestável vício do narcisismo intelectual.
O homem rico de cultura, mas pobre de bons sentimentos, é um infeliz, embora se julgue um deus.
Cultura sem lastro espiritual significa, em quaisquer circunstâncias, perigo para a alma.
Por isso, o apóstolo, que possuía a sabedoria pelo Espírito, advertia, escrevendo aos cristãos de Corinto:
“O saber ensoberbece, mas o amor edifica.”
E, mais adiante, aclarando o seu pensamento: “Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito não aprendeu ainda como convém saber.”
A reencarnação é o meio, e a perfeição o fim.
Deve o homem preparar-se, por ela, no sentido de, realizando-se interiormente, evangelicamente, palmilhar, sem maiores inconvenientes, a senda do conhecimento, aprendendo “como convém saber”.
É sempre possível encontrarmos no mundo, reencarnado na condição de idiota incurável, um gênio do passado que abusou do direito de ser inteligente e culto para oprimir e matar.
Nunca se há de encontrar, no entanto, alguém expiando crimes por muito ter amado.
Não é demais lembrar o Mestre, no episódio com a pecadora que lhe ungira os pés: “Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque muito ela amou.”
O homem, simplesmente intelectual, usa a inteligên¬cia, aplica o conhecimento e emprega a cultura só e só na satisfação de sua vaidade pessoal.
Para enaltecimento do ego — Vanitas vanitatum et omnia ixtnitas!
O homem evangelizado, que retém os patrimônios da sabedoria — a que “não incha” — sabe que nada possui de seu, pois reconhece, com humildade consciente, que inteligência e cultura são dons celestes que a sua receptividade absorveu na esteira dos milênios.
Nos estudos da fenomenologia mediúnica, no campo do Espiritismo Cristão, podem ser encontrados numerosos exemplos de cientistas que reencarnaram em dolorosas circunstâncias.
Alguns, cegos — sem a bênção da visão física.
Muitos, inutilizados — torturados na epilepsia ou na lepra.
Outros — hidrocéfalos ou idiotas.
Outros, ainda — paralíticos, surdos-mudos...
Centenas deles cruzam, conosco, as ruas do mundo, carregando nas profundezas subconscienciais alucinantes visões, quadros terríveis.
Permanecem atormentados ante o alarido das víti¬mas do passado, que lhes não perdoaram a perversidade — filha da intelectualidade sem Deus.
Vivem sob o peso das objurgatórias da própria consciência...

* * *

Aqueles, contudo, que muito amaram no pretérito, podem estar sofrendo no mundo — mas sofrendo por amor.
Nos labores construtivos, na renúncia à vida em gloriosos mundos, continuam na Terra ajudando aos que permanecem nas retaguardas experienciais.
Essas almas se acrescem de sublimados valores.
Contabilizam, na escrita dos Céus, ilimitados créditos.
Para os que menosprezarem os bens da inteligência e da cultura, abre-lhes o Espiritismo, com a perspectiva da reencarnação, panoramas de renovamento.
O “nascer de novo”, do maravilhoso diálogo de Jesus com Nicodemos; o “nascer da água e do Espírito”, e não o “nascer” simbolizando, apenas, a renovação espiritual sem o resgate dos crimes cometidos, constitui mensagem de esperança para as almas que choram nos vales sombrios — embora transitórios — dos planos inferiores.
A reencarnação — a chamada “bênção do recomeço — acena a todos os falidos do caminho, a todos que fracassarem em sucessivos tentames.
Oferta-lhes a certeza de novas existências reparadoras e de aprimoramento.
Oferece-lhes, como se fosse um carinhoso “recado de Deus” aos seus filhos mais infelizes, oportunidade para que voltem ao mundo; — sim, a Reencarnação é um amoroso recado de Deus à Humanidade!
Permite-lhes o retorno à ribalta terrestre, para, com atos positivos do Bem, neutralizarem os perniciosos efeitos gerados por atos negativos do Mal — nos desvios da Inteligência e na perversa aplicação da Cultura não evangelizada.
Quando se fala ou escreve sobre Reencarnação, éimperioso se pense em cultura, porque, sem a repetição de experiências — dezenas, centenas de vezes, os primeiros homens seriam, ainda, uns brutos, uns selvagens.
Como aprenderam?
Com quem aprenderam?
Com o Espiritismo — que prega e difunde o intercâmbio espiritual entre os mundos-moradas do Pai — não é difícil compreendermos como e com quem aprenderam os primeiros homens, os terrícolas.

20
Perdão

Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.

A transcendentalidade do perdão pode ser aquilatada por um fato aparentemente simples: a sua inclusão, por Jesus, num dos mais importantes documentos do Evangelho, tal seja o “Pai-Nosso”.
Bastaria isso, supomos, para que não pusessem dúvidas quanto ao seu valor; sobretudo, quanto à necessidade da sua prática, do seu cultivo sincero.
Inúmeras vezes fêz o Mestre referência ao perdão, destacando-o por valioso e indispensável imperativo à evolução humana.
Interpelado por Pedro se devia perdoar “sete vezes”, respondeu-lhe que devia perdoar “setenta vezes sete”, o que equivale a dizer: perdoar indefinidamente, tantas vezes quantas forem necessárias.
Evidentemente, não tinha Jesus a intenção de fixar, em quatrocentos e noventa vezes, que é o produto da multiplicação “setenta vezes sete”, o número de vezes para o seu exercício.
Seria absurdo crer na imperdoabilidade da ofensa número 491...
O que o Mestre quis dizer foi isso: perdoar todas as vezes que formos ofendidos.
Dez ou vinte, cem ou quinhentas, mil ou dez mil, bilhões ou bilhões de bilhões...
Perdoar indefinidamente.
Qualquer pessoa, de mediana compreensão, entenderá isso.
Quando o mesmo Pedro, esquecido do conselho do Cristo, cortou a orelha do servo do sumo sacerdote, no Getsemani, renovou Ele o ensino do perdão, ordenando:
“Embainha a tua espada, porque quem mata pela espada, pela espada perecerá.”
Nessa ocasião, como se vê, não se limitou a ensinar o perdão: explicou-lhe, também, as consequências, segundo a Lei de Causa e Efeito, segundo a Reencarnação.
Quando ensinava o “Pai-Nosso” aos discípulos, acentuava: “Se, porém, não perdoardes aos homens, tão pouco vosso Pai vos perdoará as ofensas.”
Do “Pai-Nosso” se explicou Jesus o parágrafo referente ao perdão, o que é bem significativo, eis o que lhe mostra a importância.
De outras, em sua caminhada de luz, em seu ministério de bondade, sem referência vocabular, exercitou-o de modo amplo, completo, integral, culminando com o “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem”, na intercessão por seus algozes, na Cruz.
Incluindo-o, entretanto, no “Pai-Nosso”, quis Jesus fazer um legado permanente, definitivo, à Humanidade.
Sendo a “oração-modelo” — que encerra louvor, rogativa e reconhecimento — todas as correntes do Cristianismo haveriam de adotá-la.
O que significa dizer: diariamente, aqui e alhures, seria ela recitada por quase toda a Humanidade terrestre.

* * *

O conceito de perdão, segundo o Espiritismo, é idên¬tico ao do Evangelho, que lhe é fundamento: concessão, indefinida, de oportunidades para que o ofensor se arrependa, o pecador se recomponha, o criminoso se libere do mal e se erga, redimido, para a ascensão luminosa.
Quem perdoa, segundo a concepção espírita-cristã, esquece a ofensa.
Não conserva ressentimentos.
Ajuda o ofensor, muita vez sem que este o saiba.
Não convém ao aprendiz sincero, sob pena de ultraje à própria consciência, adotar um perdão formal, aparente, socialmente hipócrita.
Perdão formal é o que não tem feição evangélica.
Guarda rancor.
Alegra-se com os insucessos do adversário.
Nega-lhe amparo moral e material.
Relativamente às vantagens que decorrem do perdão evangélico — e não do formal, podemos destacar a sua influência, salutar e benéfica, em toda a trajetória evolucional do ser humano.
No curso de toda a eternidade.
No plano físico e no extrafísico.
Na vida presente, na espiritual, nas futuras.
Com relação à vida presente, quem perdoa obtém a graça da consciência tranquila.
Torna-se inacessível ao mal.
Dá impulso evolutivo à própria Alma.
Avança, afinal, na senda do aperfeiçoamento.
No tocante à vida do Espaço, depois da morte física, o perdão assegura a descontinuidade do mal.
Evita, assim, obsessões terríveis nas regiões inferiores.
Simbioses psíquicas, dramas pavorosos no Espaço inferior, onde almas torturadas se digladiam durante anos ou séculos.
Quanto às vidas futuras, o ato sincero do perdão, hoje, tem a faculdade de possibilitar, amanhã, reencar¬nações felizes, liberadas de compromissos escuros.
Amar o ofensor, reconhecemos, nem sempre é fácil; mas, perdoar-lhe a ofensa, compreendendo-lhe a ignorância e a desventura — e não a maldade, é menos difícil.
A referência ao perdão no “Pai-Nosso”, oração de todos os dias — “oração de cabeceira” — como que revela o objetivo, generoso e compassivo, de Nosso Senhor, no sentido de, cotidianamente, forçar-nos a proferir a sublime palavra: PERDÃO.
E, como os nossos InstrutoreS Espirituais nos avisam que “a disciplina antecede à espontaneidade”, o contacto verbal com o perdão — “Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores” — dar-nos-á, por certo, recursos para que o pratiquemos com benevolência e amor.

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