ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

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Reencarnação e Progresso

Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá.

O problema das aptidões intelectuais é bem significativo, no estudo da reencarnação, e sugere apreciações interessantes quando observado à luz das diversas doutrinas religiosas ou filosóficas.
As religiões que ensinam ter a criatura humana apenas uma existência, ou seja, as que preconizam a criação da alma no momento da formação do corpo, teriam, sem dúvida, bastante dificuldade em explicar, entre outras, a palpitante questão do conhecimento e da sabedoria, da erudição e do talento.
Dificilmente se pode compreender como uma pessoa, numa existência de apenas algumas dezenas de anos, pudesse revelar privilegiada inteligência e sabedoria, como frequentemente ocorre, sabendo-se que, sendo tão vastos os conhecimentos humanos, impossível seria a um homem acumular tanto em tão curto prazo.
“Uma encarnação é como um dia de trabalho” afirma, acertadamente, um Amigo Espiritual.
Daí a nossa dificuldade em compreendermos como poderia um homem realizar vastas e apreciáveis conquistas intelectuais, nos mais variados campos do saber, num período de seis, sete ou mesmo oito dezenas de anos.
E essa dificuldade aumentaria, mais, se catalogássemos os homens que, em idênticos períodos, nada ou quase nada aprenderam nos templos do saber.
Ficamos, assim, numa expectante e dolorosa alternativa: ou Deus, Supremo Criador de Todas as Coisas, e parcial e injusto, porque cria e põe no mundo sábios e ignorantes, quando a todos os seus filhos deveria dar, como o fazem os mais imperfeitos pais terrenos, as mesmas possibilidades, ou seremos inevitavelmente levados a aceitar a tese das religiões reencarnacionistas: cada exis¬tência representa um elo de imensa cadeia de sucessivas vidas, durante as quais o Espírito aprende e cresce, evolui e se enriquece de valores novos e consecutivos.
O Espiritismo é reencarnacionista; como tal, ensina a doutrina das existências múltiplas, das vidas que se renovam, como o faz a maioria das doutrinas antigas.
O conjunto dos ensinamentos espíritas gira em torno do seguinte enunciado filosófico: “Nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredir continuamente — tal é a lei.”
O Espiritismo fixou nessa admirável sentença a sua estrutura doutrinária, fornecendo uma chave de luz para intrincados problemas que têm desafiado a argúcia, a cultura e o talento de inúmeros pensadores, em todas as épocas da Humanidade.
A reencarnação nos faz compreender a Deus por Suprema Inteligência e Suprema Justiça.
Faz-nos compreendê-lo por Infinita Perfeição e Infinita Misericórdia.
Deus nos é mostrado, através da reencarnação, Justo e Bom, criando almas simples e ignorantes, a fim de que, pelo esforço próprio, ascendam todas aos pináculos evolutivos, no rumo da perfeição com Jesus.
Aceitando a reencarnação, não temos dificuldade em compreender a promessa do Mestre:
— “Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá.”
À luz da reencarnação, o que era nebuloso se tornou límpido.
A interpretação do Evangelho se tornou menos difícil.
Mais compreensivo se tornou o pensamento de Jesus.
O que era confuso e indecifrável, passou a refletir, espontânea e naturalmente, a meridiana claridade do bom-senso e da lógica.
A explicação palingenésica leva-nos, afinal, a melhor compreendermos porque existem sábios e ignorantes no mundo, cruzando as mesmas ruas, sofrendo as mesmas dores, respirando o mesmo oxigênio, sem que sejamos, dolorosa e tristemente, compelidos a aceitá-lo como um Pai que usa, com os seus filhos, dois pesos e duas medidas.
A cultura, o conhecimento, o progresso, enfim, decorrem desse maravilhoso encadeamento de existências, durante as quais a Alma adquiriu e armazenou valiosos patrimônios intelectuais.
Sem a tese reencarnacionista, a explicação do progresso das Humanidades permanece incompleta, ou, pelo menos, incompreensível.
O observador imparcial, o historiador sensato e o homem desprovido de preconceito hão-de estar conosco, nessa afirmativa.

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Vigilância

Cingidos estejam VOSSOS corpos e acesas as vossas candeias.

As condições em que despertaremoS, na Espiritualidade, após a morte corporal, dependem, efetiva e indisfarçavelmente, do nosso estado evolutivo.
Do rumo que tivermos imprimido aos nossos passos.
Do esforço evangélico empreendido.
Da maneira como tivermos sabido valorizar o tempo.
O Espiritismo tece, sobre este assunto, oportunas e valiosas considerações, aclarando, assim, o pensamento do Mestre.
A situação do homem, após a desencarnação, suscita o interesse para os primeiros instantes de vida na esfera subjetiva!
O acordamento, em si mesmo, como fenômeno insólito, estranho, surpreendente, inesperado.
A recuperação gradual da memória, no perispírito, com a consequente lembrança dos fatos que nos poderão dar paz ou desassossego.
O reencontro com amigos e adversários, em planos determinados pelo nosso peso específico.
A resposta da Lei à nossa vigilância na fraternidade ou à nossa insensatez ante a grandeza da vida, mediante indefiníveis júbilos ou insuportáveis tormentos.
O conhecimento, espontâneo ou compulsório, segundo as circunstâncias e necessidades educativas, de outras existências, assinalando, nos quadros da memória supra-normal, reminiscências suaves e doces, ou dolorosas e amargas.
O grau, a natureza, a duração de nossos retrospectos mentais.
Tudo isso, expressando a realidade imanente, condicionar-se-á aos próprios valores morais e espirituais de quem parte no rumo da Eternidade...
Resultará do plantio que tivermos feito, pois colheremos o que semearmos.
Representará a indefectível reação da Lei às nossas atitudes, palavras e pensamentos na vida terrena, onde, há cerca de dois milênios, vimos caminhando sob a luz do Evangelho da Redenção.
Tudo isso — repetimos — dependerá da maior ou menor firmeza com que nos tivermos conduzido no Mundo.
A palavra de ordem, portanto, enquanto estamos no plano físico, deve ser: Vigilância, vigilância, vigilância...
Evidentemente, o Mestre não pede santificação da noite para o dia.
Ninguém adormece pecador, para despertar angelificado.
Mas é possível ao homem deitar-se vazio de idéias nobilitantes, escravo da preguiça e da incerteza, descrente e amorfo, e levantar-se, na manhã seguinte, renovado e feliz, desejoso de trocar o encardido vestuário da indolência e da irresponsabilidade, pela túnica singela, mas bem cuidada, do servidor operoso.
A santificação, de fato, exige muito; mas a boa vontade custa menos.
Há um ditado, bem conhecido, que assegura: — “A noite é boa conselheira.”
Contudo, aqueles que o divulgam ignoram, em sua maioria, a substância, a essência do enunciado popular.
O Espiritismo faz luz sobre o assunto.
Explica que, ao adormecermos, o nosso Espírito, parcialmente liberto, reúne-se, em certas ocasiões, a entidades amigas e generosas que lhe transmitem sábios con¬selhos, preciosas advertências, sugestões benevolentes que nos fazem despertar mais felizes, mais esperançosos, mais lúcidos, mais inspirados na solução dos problemas da vida.
No jogo das aparências, em que se comprazem os homens, de fato é a noite “boa conselheira”.
Na realidade, porém, excelentes companheiros — carinhosos instrutores espirituais — é que nos esperam, durante o repouso físico, para traçarem valiosas diretrizes que possibilitem o eqüacionamento de complexas questões de nossa experiência evolutiva.
Urge, pois, exerçamos a vigilância.
Preservemos a saúde do corpo e a harmonia do Espírito.
Santifiquemos os olhos diante do mal.
Eduquemos o ouvido.
Controlemos a língua.
Imprimamos direção evangélica aos nossos passos.
Evitemos animosidades — monstros que se prolongam além da vida física.
Absorvamos, enfim, o perfume que se evola das eternas lições que o Divino Amigo nos legou, cingindo nossos corpos e acendendo as nossas candeias.

* * *

Enquanto no Mundo, é possível refletir com segurança e agir com relativo equilíbrio.
No entanto, após o desenlace corporal, quando se patenteiam e se evidenciam os nódulos espirituais e os desajustes psíquicos, o problema da segurança e do equilíbrio se torna menos fácil.
Sem o refúgio do vaso físico, a preservá-la do assédio das sombras, a alma que se não movimentou no bem Se recomporá com mais dificuldade.
Imprevisível é a hora da grande transição.
Compete-nos, destarte, permanecermos na vigilância, na identificação com o Reino de Deus e Sua Justiça, a fim de que partida e chegada não sejam ocorrências dolorosas.
Especialmente a chegada.
Viver no bem — aprendendo e servindo, amando e perdoando — para que o adormecer seja suave, e o despertar sublime.
Cinjamo-nos, pois, com a túnica da benevolência e do perdão incondicional, para que a candeia da fé e do conhecimento superior ilumine nossos passos, além da morte, assegurando-nos, assim, a alegria que se não extingue.
E a felicidade que se não acaba...

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