ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
35
Mocidade e Ambiente
Foge, outrossim, das paixões
da mocidade.
O conselho de Paulo a
Timóteo entende, francamente, com o problema da
reforma interior, que não é fácil de realizar.
Requer luta, estudo, meditação, perseverança.
As imperfeições e tendências para o mal são
inerentes à própria condição
de inferioridade do planeta, o qual constitui, nesta etapa do nosso
processo
evolutivo, o habitat temporário da psique.
Nele vicejam, vigorosamente, os sentimentos anti-evangélicos.
As sementes do mal encontram, na esfera terrena, a gleba propícia
para
desabrocharem.
Mesmo as almas já dotadas de certos conhecimentos intelectuais
e
qualidades nobres, ao reencarnarem na Terra, sofrem as influências-ambientes,
sem que isso constitua, como talvez possa parecer, um retrocesso, uma
re-
gressão.
Inúmeras vezes o próprio Paulo de Tarso confessava, amargurado:
"O bem
que eu quero, não faço; o mal que não quero, esse
é que faço."
A força do mal é tão insinuante que um pequeno
descuido, no
desenvolvimento e na ampliação das virtudes, poderá
precipitar-nos
temporariamente no báratro das condenações psíquicas,
retardando, assim, a
marcha progressiva do nosso Espírito.
Na melhor das hipóteses, produzirá um estacionamento tão
inconveniente e
prejudicial como, para o estudante, a repetição do ano
letivo, perdido na
embriaguez das futilidades e dos prazeres que não constroem.
Os moços, principalmente, dada a natureza incipiente, maleável,
das funções
intelectivas, na fase do desenvolvimento fisiológico, apresentam
um estado de
maior e melhor vulnerabilidade às coisas boas ou más,
elevadas ou deprimentes.
Claro que temos de combater um grande e terrível inimigo, representado
pelas nossas imperfeições.
Para os jovens espíritas, contudo, a tarefa se torna menos árdua.
A Doutrina, por sua argumentação lógica, racional
e concludente, alicerçada
na tese reencarnacionista, tem o sublime privilégio de esclarecer
e iluminar,
instruir e
confortar.
Tem o moço espírita uma seara inesgotável de ensinamentos
e experiências
capazes de assegurarem o bom êxito, no esforço evolutivo,
quando houver
perseverança e tenacidade.
No campo do Espiritismo, apesar de todas as influências negativas
do
mundo exterior e de sua própria alma, o jovem encontrará
os elementos de que
necessita para o seu progresso moral e cultural.
Há livros admiráveis a compulsar.
Enfermos a visitar.
Desalentados a reerguer.
A noção de responsabilidade, suscitada pelo conhecimento
doutrinário,
impõe-nos um esforço maior no sentido da nossa melhoria.
A certeza da preexistência do Espírito, com o ativo e passivo
que lhe são
peculiares, aponta, define, revela obrigações e responsabilidades.
A convicção inabalável da vida futura induz-nos,
por seu turno, à valorização
do talento-tempo.
O conhecimento da lei das reencarnações sucessivas, cientificamente
comprovada pelo Espiritismo, determina, à juventude, grandes
responsabilidades.
Leva-a, tacitamente, a lutar com denodo pelo aperfeiçoamento
individual,
resultando daí, naturalmente, o passo inicial, decisivo, para
a iluminação interna.
A mais nobre tarefa do jovem espírita é a de influenciar
sobre o ambiente em
que vive.
Exemplificar o bem, para que o bem se expanda, se afirme, triunfe.
Essa a tarefa atribuida aos jovens espíritas, aos jovens cristãos,
especialmente agora, quando a mentalidade juvenil se defronta com uma
sociedade materializada, cujos princípios ameaçam extinguir
os sentimentos no-
bres do coração, em cujo santuário deverá
ser erguido o maravilhoso edifício da
Fraternidade Humana.
36
Eclipse, Não
Pai, se queres, passa de mim este cálice.
Os Instrutores Espirituais asseguram
que a personalldade de Jesus ainda é
inabordável ao entendimento humano.
Não temos capacidade, nem de cultura, nem de sentimento, para
compreender o Mestre.
Não lhe podemos conhecer os divinos pensamentos.
Não lhe podemos analisar as atitudes.
Falecem-nos recursos para interpretar-Lhe, de maneira integral, todas
as
palavras e ensinamentos.
Por isso - asseveram -, é o Cristo ainda inabordável à
compreensão do
homem.
O Cristo não é conteúdo para a taça da compreensão
humana.
Efetivamente, é muito difícil entender certas atitudes
do Senhor, qual ocorre
com a que teve por cenário o Getsemani -
Essa dificuldade de compreensão dos sentimentos de Nosso Senhor;
de
aprofundar-Se-lhe a Alma sensível, a individualidade universal,
acentua-se,
principalmente, quando se Lhe pretende examinar as palavras proferidas
no
Horto, em horas que precederam o Calvário: - "Pai, se queres,
passa de mim
este cálice."
Há quem interprete a atitude do Senhor como de receio ante o
martírio que
se avizinhava.
E os que assim pensam, dizem: "Houve um eclipse na Grande Alma
do
Cristo, eclipse que logo se dissipou. Foi uma nuvem rápida que
ocultou, por
instantes, o refulgente Sol, O Cristo Eterno reagiu, prontamente, contra
o gesto
humano do Filho de Maria."
Nosso pensamento, a respeito do comovente e sublime episódio,
é um tanto
diverso.
A nosso ver - e tendo o cuidado de realçar a inabordabilidade
do Cristo -
o cálice que o Mestre preferia não sorver não era
o do madeiro.
Nem o da coroa de espinhos.
Nem dos cravos, nem da lança que lhe fizeram jorrar o sangue
generoso.
Nem o da morte entre dois ladrões comuns.
O cálice que o Cristo preferia não lhe fosse dado a beber,
foi o da
compaixão.
Condoera-se Jesus, por antecipação, antevendo o esfacelamento
de toda
uma semeadura de espiritualidade e redenção em favor dos
homens.
Era todo um apostolado de luz e esclarecimento que se diluía
sob o
apaixonado impulso da Humanidade - cuja salvação fora
o objetivo fundamental
de Sua vinda ao mundo.
A Humanidade caminhava na direção do abismo -e o Cristo
o pressentia e
lastimava, preferindo não acontecesse.
"Pai, se queres, passa de mim este cálice."
Falou o Mestre como falaria um coração maternal que observa,
no rumo do
precipício, os passos do filho extremecido.
Coração exuberante de amor, transbordante de ternura,
ébrio de carinho.
A Humanidade era bem o filho negligente, teimoso, que ouvira as lições,
mas
não lhes assimilara o conteúdo. Eclipse do Mestre - nunca.
O Cristo foi, é e continuará sendo um sol sem eclipses.
Um astro que ilumina eternamente, sem alternativas, nem oscilações.
Uma estrela de primeira grandeza, cujos reflexos atravessam todos os
corpos, por mais gigantescos e sólidos.
Um Sol que transpõe e vence infinitas distâncias.
Assim pensando e sentindo, afirmamos: Eclipse, não...
* * *
Jesus pressentira que os homens arquitetavam,
no silêncio, o crime
inominável, pelo qual haveriam de responder, inelutàvelmente,
por séculos e
milênios.
"A cada um será dado segundo as suas obras" consecutivas
vezes ensinara.
Percebia, em Sua divina intuição, que os filhos de Sua
Alma - Alma
Maternal - engendravam o mais hediondo assassínio de toda a História
universal, através de sua imolação - dEle que tinha
vindo ao mundo justamente
para redimi-los, para salvá-los.
"Pai, se queres, passa de mim este cálice."
Os cegos e os mudos, os paralíticos e os surdos, os leprosos
e os infelizes
haviam recebido do seu coração inesgotáveis benefícios.
Na alma de todos - pobres e ricos, grandes e pequenos - plantara as
sementes da fraternidade e do perdão. E ansiava por que elas
germinassem.
Viera ao mundo - dizia - para lançar fogo sobre a Terra.
"E bem quisera que já estivesse a arder."
Não exigia o Mestre o reconhecimento, a gratidão dos homens;
contudo,
esperava que os seus corações guardassem, retivessem o
perfume da
renovação, a essência do Amor que lhes trouxera
dos santuários espirituais.
E os homens, filhos de Sua Alma, maquinavam, no silêncio, a sua
morte...
Em alguma parte forjavam, na sombra, a própria condenação.
Auto-sentenciavam-se.
Jesus, num átimo, no Getsemani. olhou o futuro da Humanidade.
Devassou-lhe os milênios de provação e resgate,
e condoeu-se dos homens.
Sua Alma encheu-se de compaixão.
Piedade pelos homens, que voltariam, em novos corpos, várias
vezes, para o
resgate inevitável.
Não por Seu corpo, nem por Seu Espírito, indestrutível,
eterno: pela alma
coletiva da Humanidade, que, naquele instante, se preparava para consumar,
com o Sangue do Justo, o seu grande, histórico pecado: o extermínio
do Cordeiro
de Deus!
O cálice do Cristo não foi o do temor - foi o da compaixão.
O cálice do Cristo não foi o do medo - foi o da piedade.
O cálice do Cristo não foi o do receio ante a cruz de
madeira - foi o da
Tristeza ante a Cruz de Sofrimento que os homens poriam nos ombros,
horas
depois, carregando-a, daí por diante, por muitos séculos
e milênios.
Eclipse - nunca.
Cristo é um Sol inofuscável, que transcende quaisquer
sombras, que não
conhece eclipses...
O Seu coração, compassivo e misericordioso, que ama, sofre
e chora o Filho
Pródigo, inundar-se-ia, sem dúvida, de felicidade, transbordaria
de júbilo, se
aquele assassínio não se consumasse.
"Pai, se queres, passa de mim este cálice."
Mas, ante a pertinácia dos algozes, respeitando-lhes o livre
arbítrio, volta-se
para Deus, sereno e majestoso: "Pai, se não é possível,
faça-se a tua vontade."
O Pai quisera, mesmo, que o Suave Embaixador bebesse, até à
última gota,
na taça da incompreensão humana, o licor da piedade e
do amor.
Da misericórdia e da compaixão.
Nunca, o cálice do temor, que seria um eclipse nublando um Sol
radioso,
eterno, inublável.
Eclipse - não...
TODO CONTEÚDO
DAS ORAÇÕES, MENSAGENS ESPÍRITAS E PSICOGRAFIAS
PODERÁ SER COPIADO, PUBLICADO, DIVULGADO SEM AUTORIZAÇÃO
PRÉVIA DESDE QUE SEJA SEM FINS LUCRATIVOS.