ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
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Renovação
Brilhe a vossa luz.
O supremo objetivo do
homem, na Terra, é o da sua própria renovação.
Aprender, refletir e melhorar-se, pelo trabalho que dignifica —
eis a nossa finalidade, o sentido divino de nossa presença no
mundo.
Descendo o Cristo das esferas de luz da Espiritualidade Superior à
Terra, teve por escopo orientar a Humanidade na direção
do aperfeiçoamento.
“Brilhe a vossa luz” — eis a palavra de ordem, enérgica
e suave, de Jesus, a quantos Lhe herdaram o patrimônio evangélico,
trazido ao mundo ao preço do Seu próprio sacrifício.
A infinita ternura de Sua Angelical Alma sugere-nos, incisiva e amorosamente,
o esforço benéfico: “Brilhe a vossa luz.”
O interesse do Senhor é o de que os Seus discípulos, de
ontem, de hoje e de qualquer tempo, sejam enobrecidos por meio de uma
existência moralizada, esclarecida, fraterna.
O Evangelho aí está, como presente dos céus, para
que o ser humano se replete com as suas bênçãos,
se inunde de suas luzes, se revigore com as suas energias, se enriqueça
com os seus ensinos eternos.
O Espiritismo, em particular, como revivescência do Cristianismo,
também aí está, ofertando-nos os oceânicos
tesouros da Codificação.
Pode-se perguntar: De que mais precisa o homem, para engrandecer-se,
pela cultura e pelo sentimento, se lhe não faltam os elementos
de renovação, plena, integral, positiva?...
Que falta ao homem moderno, usufrutuário de tantas bênçãos,
para que “brilhe a sua luz?.
A renovação do homem, sob o ponto de vista moral, intelectual
e espiritual, é difícil, sem dúvida.
Mas é francamente realizável.
É indispensável, tão somente, disponha-se ele ao
esforço transformativo, com a consequente utilização
desses recursos, desses meios, desses elementos que o Evangelho e o
Espiritismo lhe fornecem exuberantemente, farta e abundantemente, sem
a exigência de qualquer outro preço a não ser o
preço de uma coisa bem simples: a boa vontade.
A disposição de auto-melhoria.
O homem, para renovar-se, tem que estabelecer um programa tríplice,
como ponto de partida para a sua realização íntima,
para que “brilhe a sua luz”, baseado no Estudo, na Meditação
e no Trabalho.
ESTUDO: — O estudo se obtém através da leitura do
Evangelho, dos livros da Doutrina Espírita e de quaisquer obras
educativas, religiosas ou filosóficas, que o levem a projetar
a mente na direção dos ideais superiores.
O estudo deve ser meditado, assimilado e posto em prática, a
fim de que se transforme em frutos de renovação efetiva,
positiva e consciente: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos
fará livres.”
MEDITAÇÃO: — A meditação é
o ato pelo qual se volve o homem para dentro de si mesmo, onde encontrará
a Deus, no esplendor de Sua Glória, na plenitude do Seu Poder,
na ilimitada expansão do Seu Amor: “O Reino de Deus está
dentro de vós.”
Através da prece, na meditação, obterá o
homem a fé de que necessita para a superação de
suas fraquezas e a esperança que lhe estimulará o bom
ânimo, na arrancada penosa, bem como o conforto e o bem-estar
que lhe assegurarão, nos momentos difíceis, o equilíbrio
interior.
Na meditação e na prece haurirá o homem a sua própria
tonificação, o seu próprio fortalecimento moral
e a inspiração para o bem.
TRABALHO: — O trabalho, em tese, para o ser em processo de evolução,
configura-se sob três aspectos principais: material, espiritual,
moral.
Através do trabalho material, prôpriamente dito, dignifica-se
o homem no cumprimento dos deveres para consigo mesmo, para com a família
que Deus lhe confiou, para com a sociedade de que participa.
Pelo trabalho espiritual, exerce a fraternidade com o próximo
e aperfeiçoa-se no conhecimento trancendente da alma imortal.
No campo da atividade moral, lutará, simultâneamente, por
adquirir qualidades elevadas, ou, se for o caso, por sublimar aquelas
com que já se sente aquinhoado.
Em resumo: aquisição, cultivo e ampliação
de qualidades superiores que o distanciem, em definitivo, da animalidade
em que jaz há milênios de milênios: “É
na vossa perseverança que ganhamos as vossas almas.”
A estrada é difícil, o caminho é longo, repleto
de espinhos e pedras, de obstáculos e limitações,
porém, a meta é perfeitamente alcançável.
Uma coisa, apenas, é indispensável: um pouco de boa vontade.
Boa vontade construtiva, eficiente, positiva.
O resto virá, no curso da longa viagem...
4
O Filho do Homem
... não tinha onde
reclinar a cabeça.
Nasceu numa manjedoura.
Não tinha onde descansar a cabeça.
Morreu numa cruz, escarnecido e humilhado. Eis a história, comovente
e bela, sublime e incompreendida, do Cristo de Deus...
Daquele que estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio
dele, mas o mundo não o conheceu.
A lição é, inegàvelmente, profunda.
Do estábulo ao Calvário, sua vida foi um cântico
de misericórdia e amor, simplicidade e compreensão, indulgência
e grandeza.
Na manjedoura — nasceu entre pacíficos animais e singelos
pastores.
No mundo — viveu no meio de mulheres, crianças e homens
infelizes.
Na cruz — morreu entre ladrões vulgares, escrevendo, contudo,
no Gólgota, a mais deslumbrante epopéia de luz que a Humanidade
já presenciou.
Muitos homens nasceram em berços de ouro, mas encarnaram existências
nulificadas.
Viveram no mundo cercados de honrarias, ostentando títulos e
galardões pomposos, disputando lauréis e considerações,
mas tiveram seus nomes esquecidos tão logo desceram ao túmulo.
Tiveram os seus corpos guardados em caixões riquíssimos,
mas, apesar das pompas funéreas, nada fizeram para que o mundo
lhes perpetuasse o nome, a obra, a memória.
O homem não vale pela casa, nem pelo berço onde nasceu.
Não importam as considerações de que foi alvo,
espontâneas ou provocadas.
Não tem valor intrínseco a imponência do mausoléu
que lhe acolhe os despojos carnais, no devido tempo.
Não tiveram os pais de Jesus uma tradição de aristocracia
genealógica que lhe facilitasse os passos na caminhada pelo mundo
e lhe favorecesse o triunfo e a glória, o poder e o mando.
Nada que O preservasse do acinte e da crueldade, do achincalhe e do
opróbrio da populaça inconsciente, desvairada e perversa.
José, seu pai, carpinteiro anônimo em Nazaré, não
desfrutava do prestígio temporal.
De manhã à noite, manejando a enxó e o formão,
ganhava, com o suor do rosto, o alimento de cada dia.
Não era de família nobre, segundo a conceituação
humana; não conhecia as altas rodas do seu tempo, mas era rico
de qualidades superiores, de bens espirituais.
A sua vida e o seu programa eram simples: a Igreja, a oficina e o lar
humilde, honrado.
Maria, sua mãe, era mulher sem renome social, mas virtuosa e
pura, imaculada e santa.
Seu mundo, era o lar.
Sua felicidade, o esposo e o filho.
Se o lar era-Lhe um santuário, a sinagoga era-Lhe um paraíso.
No lar e na sinagoga conversava com Deus, diàriamente, em silenciosa
e divina comunhão.
Como se vê, não vale o homem pela riqueza do berço
em que dormiu o primeiro sono; pela opulência em que viveu; nem
pela suntuosidade com que o sepultaram.
Vale o homem e disso dá exemplo a vida do Senhor — pela
valorização que procura ou sabe dar aos minutos, às
horas, à existência enfim.
* * *
O Mestre não tinha
onde descansar a cabeça.
“As feras - asseverava Ele - têm os seus covis.”
“As aves — continuava — têm os seus ninhos.”
“Mas o Filho do Homem — concluía — não
tem onde reclinar a cabeça.”
O Cristo de Deus, o Salvador do Mundo, não tinha onde repousar
a Augusta cabeça.
O Redentor da Humanidade, a Luz de Todos os Séculos, não
conhecia um mínimo de conforto.
Apesar disso, o Farol que acendeu no topo do Calvário, quando
parecia derrotado e vencido, continua iluminando os eternos caminhos
da Humanidade planetária.
Os homens, todavia, ludibriados, buscam a fortuna e o poder, na doce
ilusão de que o poder e a fortuna podem assegurar, na vida espiritual,
a glória que se não extingue.
Quem não busca, avidamente e a qualquer preço, inclusive
da própria dignidade, a riqueza e a evidência, é
categórico no mundo, à conta de insensato, sonhador, idealista.
O mundo não Compreende o homem que se limita a obter o indispensável
ao seu e ao sustento dos que lhe constituem o instituto familiar.
Assim como Ele veio “para o que era seu” e os seus “não
o receberam”, a mentalidade humana não pode entender aquele
que se não obstina em acumular tesouros que a traça consome,
o ladrão rouba e o tempo destrói.
Admirável homem de hoje é o que sabe amealhar fortuna,
mesmo que a vida desse homem seja inócua, vazia, egoísta.
O Cristo, evidentemente, não foi um mendigo; mas, também,
não foi um milionário dos bens terrenos.
Os tesouros de Deus estavam no seu coração.
Tesouros que distribuia com abundância, fartamente, pródigamente,
na consolação aos desalentados e no esclarecimento aos
ignorantes.
O Cristo — “Médium de Deus”, segundo Kardec
e Emmanuel — não tinha onde reclinar a cabeça.
Aquela cabeça que supervisionara, dos Celestiais Páramos,
a formação da Terra.
Utilizando singelas alpercatas, percorria, incansávelmente, as
estradas palestinenses, as praias do Tiberíades.
Trajando simplesmente uma túnica desprovida de quaisquer ornamentos
que revelassem superfluidade, podia, no entanto, ofertar a homens e
mulhereS, anciães e jovens, as moedas da Fé e da Esperança
na Vida Imperecível.
Assinalava o valor dos patrimônios espirituais, repetindo, inúmeras
vezes: “A tua fé te salvou.”
Lembrava o perigo dos bens perecíveis, advertindo:
“Não vos afadigueis por possuir ouro, ou prata, ou qualquer
outra moeda em vossos bolsos.”
A Judas, o discípulo afanoso, recomendava: “... a bolsa
é pequenina; contudo, permita Deus nunca sucumbas ao seu peso.”
Se desejamos a glória da Vida Imortal, o que nos compete, sem
dúvida, é o cumprimento de todos os deveres que a vida
nos sugere, mesmo que, igualmente, não tenhamos onde reclinar
a cabeça.
Glória que se obtém com a vivência cristã.
Escrevendo, diuturnamente, no Livro da Vida, as obrigações
que assegurem o nosso e o equilíbrio de quantos evolucionam,
como nós, em busca da perfeição com Jesus.
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