ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

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Liberdade Cristã - 1º

Todas as coisas são lícitas, mas nem todas
convém.

Fixando os limites da liberdade cristã - em outras palavras: estabelecendo
regras para o bom-tom evangélico - adverte Paulo aos membros da Igreja por
ele fundada em Corinto, na Grécia, no capítulo 10º, versículo 23 de sua 1ª
Epístola, quanto à liceidade e conveniência das coisas.
A orientação paulina é sábia e equilibrada, uma vez que favorece a nossa
compreensão quanto ao comportamento heterogêneo dos homens, em
determinadas circunstâncias da vida em comum.
Para maior clareza da passagem em estudo, reproduzimo-la, também,
segundo outras traduções bíblicas:
"Tudo me é permitido, mas nem tudo convém; tudo me é permitido, mas nem
tudo edifica."
Em primeiro lugar, realcemos o respeito ao livre arbítrio individual, no
substratum ético do Cristianismo: tudo é permitido ao homem, mas ele
modificará essa liberdade de escolha, deixará de usar essa permissão tão logo a
Espiritualidade lhe apresente mais amplos horizontes evolutivos, ou a evolução
lhe mostre mais largos panoramas espirituais.
O homem pode fazer isto ou aquilo, desde que nisto ou naquilo se compraza.
Escravo, contudo, é o homem na colheita, pois que livre o é na semeadura.
O pensamento do Apóstolo dos Gentios é algo parecido, no tópico em
análise, com o do Mestre - a quem Paulo tanto soube amar e a cujo ideal tão
bem soube servir -, quando rogava pelos discípulos, na chamada "oração
sacerdotal": "Pai, não te peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal."
A advertência de Paulo leva-nos, inicialmente, a refletir quanto à conveniência
ou não de certas coisas..
Impele-nos, igualmente, para um detalhe significativo: Quando o homem
acorda para as eternas realidades - do Bem e da Moral, do Sentimento e da
Cultura -, certas normas da vida social são, para ele, evidentemente lícitas, mas
lhe não convêm.
Não convêm, porque não edificam.
Não constroem intrinsecamente.
Não aprimoram.
Não aproveitam ao Espírito Imortal.
Estudemos o assunto, delicado sem dúvida, sob alguns aspectos da vida de
relação.
A vida social, em tese, é agradável e necessária, algumas vezes, à
manutenção do círculo de amizades que o homem forja dia a dia.
Há criaturas, no entanto, que colocam este problema em termos tais, que
chegam a afirmar: "A minha vida social é tão intensa, tão absorvente, que não me
sobra tempo para mais nada."
É o caso, então, de se ponderar com o Apóstolo: É lícito manter vida social;
contudo, se tal programa, por sua intensidade, se torna obsessivamente
escravizante e escravizantemente obsessivo, com prejuízo para um outro, sublime
programa - o das ocupações espirituais -obviamente não convém, porque não
edifica.
Outro caso, agora relacionado com as diversões.
Há pessoas que as frequentam quase durante a semana inteira, não reservando
sequer uma noite para visita a um doente, a um encarcerado, a um sofredor, a um
amigo que atravessa uma provação.
Comparecer às diversões instrutivas, naturalmente é coisa lícita, inclusive
porque a diversão instrutiva areja e educa o Espírito, aliviando-o das sobrecargas
mentais
de um dia de intenso labor.
É lícito, sem dúvida, mas não convém ao aprendiz de boa vontade procurá-
las excessivamente, duas ou três vezes na semana, porque duas ou três noites
serão mais crestamento vividas se utilizadas na visita aos necessitados, ou no
cumprimentO, enfim, de qualquer tarefa espiritual.
O problema, em suma, da criatura realmente interessada em dinamizar a
própria renovação, é o da vivência cristã do maior número de horas.
Renovar é libertar-se.
Libertar-se é ascender na compreensãO, no entendimento.
Cada hora, em nossa existência, é uma oportunidade que nos compete
valorizar, utilizando-a no bem, em qualquer uma de suas variegadas
modalidades.
Frequentar as diversõeS educativas - simpleSmente as educativas e nunca
as licenciosas - uma vez por outra, é coisa licita.
Delas não nos pretende o Espiritismo privar. Tornar-se, contudo, o homem
escravo das filas, obsidiar-se pelos anúncios de espetáculos - não convém, por-
que não edifica.
Penetremos bem o pensamento de Paulo: "Todas as coisas são lícitas, mas
nem todaS convêm."


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Liberdade Cristã - 2º

Tudo me é permitido; mas nem tudo edifica.

Os Espíritas já conhecem - alguns por experiência pessoal, outros através
da leitura - a precariedade das alegrias e distrações do mundo.
Já percebem o contraste entre elas e os júbilos espirituais, a transitoriedade
daquelas e a perenidade destes.
Podem, portanto, usar o discernimento na escolha do que lhes convém -
porque tem sentido de eternidade -, em detrimento do que apenas é lícito -
que é sempre de natureza efêmera.
As visitas sociais, das quais o coração não participa, vazias, via de regra, de
conteúdo e finalidade edificantes, são inócuas.
Não se lhes vê, em sua maioria, objetivo sério.
O que fazem, geralmente, é favorecer a malícia, o comentário ferino, a
observação maledicente.
Não convêm, pois, a quem tem problemas sérios com os quais deve e deseja
ocupar o seu tempo, as suas horas e minutos.
Nas diversões, atendemos, via de regra, ao nosso próprio interesse, o que
não deixa de ser, no fundo, uma forma de egoísmo - disfarçada, sutil,
imperceptível.
Na visita ao necessitado, atendemos ao interesse de outrem, o que é,
indubitàvelmente, uma atitude de altruísmo.
Nas primeiras, há uma satisfação pessoal.
Na segunda, realizamos um ato fraterno, caridoso, evangélico, cujo preço,
muita vez, é o sacrifício de uma hora de repouso.
Paulo, dando curso ao seu pensamento, no capítulo 10º, versículo 24,
recomenda: "Ninguém busque o seu próprio interesse; mas, sim, o de outrem."

* * *

Outro exemplo, também elucidativo.
Ler é bom, é agradável, é coisa lícita, permitida.
Mas só convém ler o que nos possa melhorar.
O que nos possa instruir para o Belo, o Eterno, o Divino.
O mau livro é irmão do espetáculo pernicioso.
Nem toda leitura, por conseguinte, convém, embora toda leitura seja lícita,
com exclusão das páginas viciosas, mesmo porque não se pretende impor ao
homem leia este ou aquele livro que se não ajuste à sua preferência.
Esta interpretação do pensamento de Paulo não encontrará receptividade
em criaturas que ainda não começaram a sentir enfado na leitura de certos livros,
onde a insensatez e a leviandade, a presunção e a descrença se ajustam
perfeitamente.
O homem que está começando a se esclarecer não perde o seu tempo -
precioso Talento que a Divina Bondade lhe concede - na leitura de livros
Simplesmente lícitos, mas o emprega, convenientemente, na leitura de livros
essencialmente edificantes.
Toda leitura, portanto, é lícita, se não atenta contra a moral e os bons
costumes.
Mas, nem toda leitura convém.
Toda leitura é permitida, mas nem toda leitura edifica.
Profunda é a recomendação do ex-doutor do Sinédrio, ex-tecelão de Tarso,
e, depois, valoroso, incomparável disseminador das Verdades Cristãs.
Quantas vezes ouvimos de companheiros palavras como estas: "Não fui às
tarefas espirituais porque, no caminho, me encontrei com um amigo e ficamos a
conversar."
A conversação com um amigo, numa esquina qualquer, é coisa lícita; mas,
preferi-la à sublime alegria dos deveres espirituais, não convém, porque não
edifica.
Pelo contrário: serve para nos conservar, por muito tempo ainda, talvez
séculos, Substituindo o eterno pelo temporal.
O divino - pelo humano.
O transcendente - pelo rotineiro.
O que redime - pelo que cristaliza.
O espiritual - pelo material.
Os prazeres do Céu - pelas alegrias da Terra.
Há milênios de milênios a nossa alma - viajora do Infinito - compraz-se na
futilidade.
Na leitura vulgar, quando não deprimente.
Na visita convencional.
Na distração rotineira.
Nos espetáculos sem proveito.
Nega a si mesma, destarte, a belíssima oportunidade de um esforço maior,
no sentido de emergir da animalidade para a humanidade, de renovar hábitos e
costumes, atitudes e sentimentos.
É hora de mudar, sem dúvida...

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