ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

51
Ovelha Perdida

... não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que
se extraviou?

O tempo de permanência nos planos de sofrimento, depois da morte física,
será aquele que a própria criatura quiser, tanto quanto permanecemos num lugar
de confusão somente até o dia que desejarmos.
Repitamos, com a ênfase de inabalável convicção:
o tempo que a criatura quiser.
Meses, anos, decênios ou séculos.
O egoísmo e a perversidade, o ódio e a vingança, elaboram, sem que o
homem o perceba, a sua própria condenação.
A consciência culpada de hoje cairá, amanhã, no inferno que o remorso criou.
E, caindo nesse inferno, extraviando-se, sintonizar-se-á com milhares de
consciências culpadas que se lhe afinem com a craveira da invigilância e do
crime.
As zonas de sofrimento, na Espiritualidade, estão repletas de almas
infernalizadas. Abarrotadas de ovelhas que abraçaram o mal e nele se
chafurdaram largo tempo.
Egoístas e invejosos, perversos e vingativos, avarentos e sensuais - eis a
infeliz população desses planos vibratórios ligados à crosta e à subcrosta da
Terra.
Deles, contudo, poderão sair quando assim o permitirem as suas próprias
forças.
O Pastor amoroso busca, ansiosamente, a ovelha descuidada, pois lhe
conhece a fragilidade.
Falanges de Samaritanos excursionam, em nome do Cristo e por Sua
inspiração, incansável e consecutivamente, pelos sombrios vales do plano
extrafísico, onde vegetam, em horrível promiscuidade, milhões de criaturas.
Aquelas, todavia, que venham a abrir o coração ao arrependimento sincero,
dali sairão nos braços amoráveiS de sublimes mensageiros do Pai, que não
deseja se perca uma só de suas ovelhas.
Tão logo se disponha o ser infeliz a renovar-Se, imediatamente cessará o
seu inferno.
A criação e destruição do inferno dependem, em princípio, do próprio
homem.
Nada de tormentos eternos.
Nem de labaredas queimando sem consumir, traduzindo um processo de
castigo que o menos piedoso algoz do mundo teria vergonha de inventar.
E, muito menos, de mantê-lo... como pretendem que Deus o venha fazendo.
As "trevas", a que tantas vezes se referiu Jesus, são o produto exclusivo do
desequilíbrio mental de milhões de seres infelizes.
Essas almas fracassadas permanecerão, de fato, nessas "trevas", até o dia
em que o desejarem.
Mais corretamente, em linguagem doutrinária: até o momento em que tenham
forças para se reajustarem mentalmente.
Até o instante em que venham a oferecer, em definitivo, o santuário do
coração às renovadoras bênçãos do arrependimento sincero e da humildade
cristã.
O homem evangelizado, que se harmoniza com Deus e com a própria
consciência, jamais viverá nas "trevas".
Poderá ir até elas, para ajudar e socorrer os infelizes que, pela invigilància,
nelas se precipitaram.
Pertença a esta ou àquela religião, ou mesmo a nenhuma, - se o homem for
bom e digno, caridoso e puro, honesto e moralizado, nunca viverá nessas
"trevas".
Nunca precisará o pastor de deixar as 99 ovelhas para ir ao encontro da que
se extraviou, no fundo de uma grota.
Nunca, amigos, podem crer.


52
Céu

Não vem o Reino de Deus com visível aparência.

São inconciliáveis os conceitos doutrinários de Céu, aceitos e esposados
pelo Espiritismo, com os pregados e afirmados por algumas religiõeS.
Para essas religiões, o Céu é, também, à maneira do inferno, um lugar
determinado, circunscrito, delimitado.
Uma zona geográfica, na Espiritualidade, onde a beatitude e a contemplação
nos falam de um Deus comodista, para não dizer preguiçoso.
Tal conceito teológico de Céu, como se vê, é tão absurdo e inaceitável
quanto o de inferno.
Entidades angélicas, ao som de harpas dolentes, distraindo aqueles que
tiveram meios e recursos para receber na Terra, de mãos nem sempre puras, um
passaporte para as regiões imaculadas do Infinito...
Realmente não se pode dizer que tal ambiente, com anjos, música e
claridades, seja desagradável; mas ninguém lhe pode negar, também, a
monotonia, a sonolência, a algidez, a prejudicialidade.
É tão impossível, no presente século, crer no sofrimento eterno, nas
labaredas que se não extinguem, como crer na felicidade inoperante, sem
dinamismo e sem fim, num Céu onde não haja trabalho e renovação.
O Espiritismo aceita e prega uma definição ativa do Céu, compatível, aliás,
com a lei evolutiva que rege todos os fenômenos da Vida.
O Céu, para os Espíritas, é também um estado consciencial.
Um estado consciencial superior, refletindo o clima psíquico, a realidade
mental de quem passou pelo mundo fazendo o bem.
Não seria justo, nem lógico, nem racional, que o indivíduo que se moralizou,
se dignificou no trabalho, se engrandeceu, moral e espiritualmente, tenha como
prêmio, depois da morte do corpo, a pior coisa do mundo, o mais triste castigo
que se pode infligir a um ser humano: NÃO FAZER NADA!
Ouvir, simplesmente, suavidades musicais...
Deleitar-se, apenas, com a beatífica visão de um Céu parado, sem luta e
sem esforço, de um Céu sem realização e sem trabalho.
O Espiritismo ensina que há incontáveis regiões no Universo inteiro - e não
apenas em certos pontos geográficos - onde almas elevadíssimas se
congregam pela harmonia de sentimentos, construindo assim, elas mesmas,
transcendentes mundos de transcendente felicidade, verdadeiros céus, zonas
inacessíveis às almas impuras (até que se aperfeiçoem), onde a Vontade de
Deus, através de Jesus, distribui missões grandiosas, visando ao progresso das
Humanidades.
"Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os
fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e
Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as
rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias" - escreve
Emmanuel, em "A Caminho da Luz."
Essas zonas não se destinam a "A, B ou C", mas a todas as criaturas de
Deus - espíritas, católicos ou protestantes - desde que se redimam, que se
afeiçoem, em definitivo, ao Cristo, desde que se integrem no programa
evangélico da virtude e do conhecimento, da renovação e do trabalho.
Todos nós viveremos, um dia, nessas regiões, quando o superior estado de
nossas consciências assim o permitir.
Todos conheceremos, mais tarde, essa plenitude divina.
O progresso abrange a universalidade dos seres. Os tiranos do mundo, os
criminosos de todos os matizes, os infelizes de toda espécie, as prostitutas, os
ateus e materialistas - todos alcançarão, um dia, as celestes bem-aventuranças.
O Pai não deserda nenhum dos Seus filhos.
"Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá" - assegurou Jesus
com a doce autoridade de Sua grandeza.
As almas infernalizadas de hoje serão amanhã as almas sublimadas pelo
Amor e pela Sabedoria, porque a Evolução é lei impessoal, adogmática,
assectária.
A Evolução abrange, universalmente, todos os seres.
O homem pode retardar o cumprimento dessa Lei por algum tempo - anos e
séculos.
Um dia, porém, quando se abrir na sua consciência uma pequena brecha, por
menor que seja, a força dessa lei impulsiona-lo-á, irresistivelmente, para o Alto
Destino que lhe está reservado.

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