ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

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Tesouro Oculto

O Reino de Deus está dentro de vós.

Interrogado, certa vez, pelos fariseus, quando viria o Reino de Deus, explicou-
lhes Jesus que o Reino de Deus estava "dentro deles".
De acordo com as palavras do Mestre, o Reino de Deus está, encoberto,
dentro de nós.
Dentro dos fariseus, homens formalistas, insinceros, como também dentro
dos discípulos, homens evangelizados, francos e leais.
Nos redutos mais íntimos de nossa consciência.
No santuário de nosso coração.
Nas entranhas mais profundas de nossa individualidade espiritual.
Cabe-nos, pois, unicamente, o dever e o esforço por sua descoberta, a fim
de que seja abreviada a nossa felicidade.
"O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo
homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o
que tem, e compra aquele campo."
Como se vê, há quem ainda não o tenha, há quem já o possua, porém há
recursos para que todos o possam adquirir pelo esforço próprio.
"O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que procura boas
pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vendeu tudo o que possuía,
e a comprou.
Deduz-se, da palavra do Senhor, que o Céu é a mesma coisa que o Reino de
Deus.
Quando tivermos adquirido compreensão e virtudes capazes de nos levar à
integração com o pensamento evangélico, entraremos no gozo, na posse das
primícias celestiais.
Enquanto não sentirmos paz dentro de nós - fiquemos sabendo que o Céu
não está em nós, nem nós estamos no Céu.
O Reino de Deus ainda não foi por nós descoberto.
O tesouro permanece oculto - mas nós ainda não o vimos.
A pérola já se encontra à venda - mas o negociante ainda não a encontrou.
Céu é quietude interior, quer estejamos encarnados ou desencarnados.
O Céu está na consciência isenta de remorsos.
Na mente sintonizada com o Alto.
No coração incessantemente devotado ao Trabalho edificante.
Na alma sinceramente resignada na Dor. Quando a soma dessas "realidades
espirituais" houver trazido quietude e serenidade ao nosso coração -teremos
descoberto, dentro de nós, o Reino de Deus.
Seremos como o homem que, transbordante de alegria, vendeu tudo o que
tinhã e comprou o campo onde estava oculto o tesouro.
Ou como o negociante que, jubiloso, vendeu tudo o que possuía e comprou a
pérola.
Estaremos, pois, no Céu.
E as palavras de Jesus - "O Reino de Deus está dentro de vós" - estarão,
obviamente, confirmadas.
Plenamente confirmadas, como não podia deixar de ser...


54
Inovações

Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar.

Observa-se em alguns setores de nosso movimento o hábito de aplaudir
oradores espíritas, em reuniões essencialmente doutrinárias, evangélicas.
Há quem afirme que, em alguns Estados, confrades nossos não mais podem
levantar sem que estrujam cruciantes e cruciadoras palmas.
Há palmas quando o presidente da reunião se dirige à mesa, palmas quando
a compõe, palmas quando o conferencista se levanta, palmas depois da prece.
Os efeitos desses aplausos são sempre maléficos:
ou o orador se desconcerta, prejudicando a tarefa a desempenhar, ou sai dali
atacado pela doença da vaidade.
É de justiça se ressalte, entretanto, que as instituições reajem,
delicadamente, contra semelhante hábito, oriundo, via de regra, de companheiros
bem intencionados e corteses, mas que, nem por isso, deixam de atentar contra
a singeleza dos centros espíritas, onde deve predominar recolhimento espiritual
que favoreça a paz interior.
Seria admirável se as reuniões tivessem, como deseja a maioria das
instituições espíritas, a simplicidade dos primeiros ágapes do Cristianismo, nas
igrejas, em humildes residências e no cenário da Natureza - Livro Divino onde a
Infinita Sabedoria e o Infinito Poder se refletem soberanamente.
Seria confortador, especialmente para os conferencistas, se, durante e após
as reuniões, notassem nelas alguma analogia com as tertúlias que os discípulos
-almas abertas ao Sol da humildade, corações desfolhando, em recíproca
amorosa, as pétalas de rosa da fraternidade - realizavam na Casa do Caminho,
onde a palavra do esclarecimento e da consolação não se fazia ao preço amargo
de inoportunos e chocantes aplausos.
Os aplausos que se manifestam, em forma de palmas retumbantes, são, a
nosso ver, o joio do formalismo sufocando o trigo da simplicidade.
Os elogios insinceros, verbais ou escritos, expressando outra forma de
aplaudir, podem ser o joio do orgulho ameaçando o trigo da humildade que
desponta, fràgilmente, na sementeira do coração humano.
Evidentemente, a palavra do estímulo fraterno e encorajador dirigida, cordial,
mas discretamente, ao seareiro esforçado, não se pode, nem se deve
categorizar à conta de elogio insincero.
Uma e outro se distinguem com relativa facilidade. Felizmente, quase todas
as instituições espíritas cristãs desaprovam, no Brasil inteiro, o elogio chocante, o
aplauso retumbante.
Na maioria dos Centros, as últimas palavras do orador são recolhidas em
respeitoso silêncio - em augusto silêncio. Entre outras, na Federação Espírita
Brasileira.
Em Pedro Leopoldo, no Centro Espírita "Luiz Gonzaga", ninguém jamais se
animou a quebrar, com elogios e palmas, a harmonia das tarefas ali realizadas.
E quando a invigilância de alguém suscita referências descabidas, o Diretor
Espiritual, respeitável e digno, elevado e nobre, interrompe o precioso serviço do
receituário, e, pelo próprio médium, transmite o recado, cortês mas incisivo:
"Recomendamos a abstensão de referências pessoais. Somos, apenas,
trabalhadores de boa vontade."
Porque aplaudir o conferencista?
Em pagamento ao seu trabalho?
Pelo brilho e acerto com que se houve, no desempenho da tarefa?
Como assim, se é digno o trabalhador não somente pelo brilhantismo da
palavra eloquente, mas, também - e especialmente - pela sinceridade com
que se comporta?...
Se foi realmente proveitoso o trabalho do companheiro, testemunhemos, em
silêncio, nossa gratidão a Jesus, que o inspirou por intermédio de carinhosas e
anônimas entidades.
Se escreveu e leu uma bela página, recordemos que a inteligência lhe fora
dada por Deus, e que a Deus, portanto, Eterna Fonte de toda a Sabedoria,
devem dirigir-se os nossos e os agradecimentos do conferencista.
Escrevendo ou improvisando, o conferencista é sempre um instrumento das
forças espirituais, que se associam, bondosamente, à cultura e ao talento, ao
esforço e à boa vontade do elemento encarnado.
Assim sendo, não sabemos porque palmas, elogios, aplausos.
Seria mais adequado deixássemos palmas e elogios para agremiações
literárias ou artísticas, parlamentos ou convenções políticas, reuniões onde se
reivindicam situações que elogios e palmas aparecem por estimulantes
necessários.
Conferências fora dos Centros Espíritas - que para nós têm o sentido de
Templo, de Igreja - justificam palmas, oriundas, que o são, de auditórios pouco
familiarizados com a simplicidade de nossas reuniões.
Números de arte - música ou poesia - em reuniões espíritas-sociais que
os Centros por vezes realizam, justificam tais efusões, até um ponto,
naturalmente, em que a moderação não seja esquecida.
Tais manifestações tornam-se, no entanto, inconvenientes - ou melhor:
inconseqüentes - quando a tarefa é essencialmente evangélica, doutrinária.
Este é o nosso modo de pensar.
Seria interessante que se fizesse alguma coisa no sentido de queimar o joio
antes que ele, fortalecido, se enraíze, dominando, inteiramente, a sementeira
espírita-cristã.
O Espiritismo é doutrina de conteúdo e finalidade nitidamente espirituais.
Reclama, de todos nós, idealismo e sinceridade, renovação e operosidade.
As Casas Espíritas são igrejas, templos, santuários onde nos reunimos em
nome do Cristo e com o objetivo de difundir-Lhe o pensamento divino.
Manifestações ruidosas assentam, perfeitamente, em solenidades públicas,
onde, via de regra, se entronizam vaidades e se evidenciam personalidades
profanas.
Segundo a nossa maneira de ver, devemos colaborar com as instituições
neste sentido: neutralizar, delicada mas perseverantemente, esse hábito que
irmãos de boa vontade vão infiltrando nos serviços doutrinários e evangélicos,
ameaçando, sutilmente, a simplicidade cristã.
Simplicidade que não pode nem deve ausentar-se de nossos plenários de
estudos e meditação.

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