ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
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Jesus em Betânia - 1º
E uma mulher, chamada
Marta, hospedou-o em sua
casa.
Uma das mais belas ocorrências evangélicas é a que
se desenrola em
Betânia, pitoresca aldeia da Judéia, por ocasião
da visita do Mestre à casa de
Marta e Maria.
Tudo nela é grandioso e comovente, pela simplicidade de que se
reveste o
divino acontecimento.
A localidade singela, a casinha modesta e os elegantes contornos do
Monte
das Oliveiras formam a sugestiva paisagem exterior, emoldurada por um
crepúsculo de incomparável beleza.
Lá dentro, possivelmente sob o percuciente olhar de vizinhos
e curiosos, duas
jovens irmãs, espiritualmente distanciadas entre si, acolhem
o Mestre
Compassivo.
Maria, assentada aos pés de Jesus, ouve-lhe, embevecida, os ensinamentos;
Marta, afanosa, inquieta, ia e vinha arrumando as coisas e preparando
frugal
repasto para o Hóspede Celeste, que se dignara transpor-lhe os
umbrais
domésticos.
No centro da conversação, majestoso e sereno, com os louros
cabelos a lhe
envolverem os ombros, o Divino Amigo distribuía os tesouros da
sua grandeza,
enunciando parábolas encantadoras e alegorias de extrema simplicidade.
A sua palavra harmoniosa pairava no singelo aposento, saturando-o de
suave
magnetismo e sublimes vibrações.
Preceitos de humildade, incentivos ao perdão, magníficas
noções de
fraternidade, advertências justas e oportunas, doces consolações
e incisivas
referências à necessidade do trabalho construtivo, fluíam,
abundantes, dos lábios
imáculos de Nosso Senhor.
Quando se verificava uma trégua na pregação sem
atavios de retórica,
respeitoso silêncio dominava o recinto, realçando a tocante
solenidade daquela
hora memorável.
* * *
Maria conservava-se assentada
aos pés do Mestre, embriagada de amor
evangélico, sonhando os mais belos sonhos de que era capaz o
seu formoso
coração. A presença de Jesus na rústica
habitação de Betânia representava,
para o seu idealismo, glorioso minuto, maravilhosa oportunidade que
sua alma
sensível não desejava perder.
O espírito de Maria vibrava em planos superiores, ansioso por
algo que
tivesse, sobretudo, um sentido de permanente beleza e radiosa eternidade.
Pouco se preocupava, naquele momento, estivesse sua irmã atarefada,
entrando
e saindo, no preparo do caldo reconfortante com que procurava honrar
a pessoa
augusta do Mestre.
Jesus continuava falando, falando, pausadamente...
Aquela suave e ao mesmo tempo enérgica inflexão de voz
tinha o dom de
prender, de magnetizar docemente a todos que dele se aproximavam, a
todos
que o escutavam.
Num dos instantes em que o Senhor exalçava o trabalho, a generosa
e
simpática figura de Marta detém-se na sala, agora convertida
num minúsculo
plenário de luz.
Observando a irmã enlevada diante de Jesus - esquecida de tudo
e alheia a
todos - e ouvindo-lhe as derradeiras referências sobre o dever
bem cumprido,
na pauta das obrigações comuns, interpela-o, em tom queixoso:
Senhor, não te
importas que minha irmã tivesse deixado que eu fique a servir
sozinha? Ordena-
lhe, pois, que me venha ajudar.
Podemos imaginar a surpresa de todos, no momento em que Jesus era
diretamente convidado a opinar sobre um problema trivial, rotineiro,
inerente às
duas dedicadas anfitriãs.
Que iria responder o Mestre?
Exprobraria o procedimento da moça que ficara a seus pés,
indiferente ao
esforço da irmã?
Censuraria Marta, por se mostrar tão ciosa dos deveres terrenos,
em
detrimento dos espirituais?
Louvaria a dedicação da primeira, que se mostrava tão
profundamente
interessada nas Verdades por Ele anunciadas?
Como opinaria o Mestre - perguntavam, cada um a si mesmo, os
circunstantes, inclusive Marta e Maria...
Alguns instantes transcorreram e as palavras de Jesus ecoaram no aposento,
com imensa ternura e infinita compreensão: Marta! Marta! andas
inquieta e
preocupas com muitas coisas.
O Mestre não censura Marta.
Não a recrimina.
Não lhe ironiza a ambliopia mental.
Não lhe diz, em tom de humorismo, que se acha presa às
coisas terrestres.
Bondosamente adverte-a por sua inquietação ante problemas
de rotina -
inquietação que revela um estado espiritual ainda inseguro,
vacilante, indeciso.
Falou-lhe, em seguida, da melhor parte, escolhida por Maria, desdobrando
ao espírito da jovem um ângulo de vida ainda inexplorado
pela sua mente
plumitiva.
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Marta e Maria - 2º
Marta! Marta! andas inquieta...
Há na existência
humana - na existência de toda criatura - duas partes: a
material, representada pelas obrigações que a própria
vida impõe, e a espiritual,
representada pelos deveres relacionados com a alma eterna.
Ambas são respeitáveis, porque integram o conjunto de
necessidades
humanas, decorrentes da própria vida em sociedade.
A mulher e o homem, o velho e a criança, o pobre e o rico, a
autoridade e o
subalterno, o letrado e o analfabeto vivem as duas partes.
O que as distingue, contudo, é que uma tem caráter efêmero
e a outra tem
caráter definitivo.
A parte material de nossa vida, em que pese à sua respeitabilidade,
é
passageira, é transitória.
A parte espiritual é eterna, imortal, imperecível.
A inquietação de Marta indica apreço maior à
parte material, tanto assim que
se não preocupa com as sublimes lições que o Mestre
distribui, com abundância
- e que Maria absorve, sequiosa.
À medida que a criatura vai sentindo a parte espiritual, começa
a existir nela
mesma, do lado de dentro, uma quietude, um sossego, uma profunda e inalterável
calma no trato com a outra parte - a material.
Foi o caso de Maria.
Não ignorava que a arrumação do aposento e o próprio
repasto podiam ser
adiados - sem prejuízo para os interesses eternos.
Podiam ficar para depois, a fim de que se não perdesse o alimento
divino
que Jesus ofertava.
O abençoado minuto da visita do Cidadão Celeste representava
ocorrência
fundamental, inadiável, que, possivelmente, nunca mais se repetisse.
O Mestre deveria seguir o seu caminho, demandando outras aldeias e outras
gentes, a espalhar luz em profusão e bênçãos
em abundância.
Sol Divino - a iluminar outros sóis, que lhe refletem a claridade...
Urgia, portanto, não se perdesse uma só de suas palavras,
um só dos seus
ensinamentos.
Esse era o conceito de Maria, a respeito da visita de Jesus à
sua casa...
* **
Há muita gente
no mundo na posição de Marta:
generosa e fraterna, mas inquieta, agitada, desassossegada ante as coisas
perecíveis.
Muito poucos seguimos o exemplo de Maria, que, acordada para a Verdade,
mostrava-se quieta por dentro e por fora, superior aos problemas efêmeros,
sem,
contudo, desprezar-lhes a valia relativa.
A advertência do Mestre conserva, ainda hoje, a sua oportunidade.
É necessário impere em nós o espírito calmo
de Maria, inclinado às coisas
infinitas, a fim de que as inquietações finitas de Marta
nos não impeçam de ouvir,
sem enfado, os conselhos do Mestre - que o Evangelho trouxe e o Espiritismo
revive.
O Evangelho, que o Senhor pregava naquela hora a Maria e a Marta, continua
sendo o tema de mais fundamental importância para a nossa alma.
Por meio de suas lições, sentidas e exemplificadas, caminharemos
para o
progresso, alcançaremos a luz.
Os problemas mundanos, sem que os depreciemOs, nem lhes diminuamos o
valor, atendem, apenas, ao instante que passa.
Jesus - no conceito de Maria - era uma realidade que ela desejava
perenizar na sua alma; um tesouro que não lhe devia fugir dos
olhos e do
coração.
Jesus - no conceito de Marta - era um Hóspede Celeste, cuja presença
deveria honrar, naquele instante.
Os serviços domésticos constituíam, para a jovem
afanosa, elemento
inadiável.
O Cristo respeitou, carinhosamente, a imaturidade da moça de
Betânia, tanto
que se limitou a realçar-lhe a inquietação, tentando
reajustá-la: Marta! Marta!
andas inquieta e te preocupas com muitas coisas.
Identificou-lhe, com ternura, a infância espiritual.
Sabia-a despreparada para remígios mais altos, como plumitiva
das coisas
espirituais.
Não a censurou, nem a recriminou. Apenas aconselhou-a, com delicadeza,
a
que se acalmasse.
E, sem exaltar a vantajosa posição de Maria, para não
lhe prejudicar o germe
do entendimento superior, esclarece: Maria, pois, escolheu a boa parte
e esta
não lhe será tirada.
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