ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA
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O Cristão e o Mundo
Não peço
que os tires do mundo.
Não se pode conceber, ante
as palavras do Senhor na oração pelos discípulos”,
tenham os homens de iso¬lar-se a pretexto de melhor servirem a Deus.
É de supor-se, todavia, que aos cenobitas modernos não
tivesse ocorrido, ainda, a idéia de examinarem a re¬ferência
acima, que o evangelista anotou.
Se na atualidade tal conduta surpreende, encontramos uma certa justificativa
na conduta dos eremitas do passado, veneráveis e santas figuras
que buscavam o insulamento em grutas desertas.
Os anacoretas, cujos nomes são ainda hoje reverenciados, fugiam
do mundo, adotavam vida de inteira renúncia com o propósito
de despertarem o homem para os problemas da alma, cuja excelsitude,
cuja valia já podiam sentir.
Tudo, no entanto, tem o seu tempo, a sua época.
Na atualidade, o isolamento em mosteiros ou caver¬nas, sem finalidade
prática, sem proveito para os semelhantes, expressaria egoísmo,
acomodação à boa-vida.
Significaria fuga ao trabalho.
Quando alguém foge, hoje, do turbilhão das metrópoles,
via de regra é para exercitar a confraternização,
para edificar escolas que instruam e eduquem a infância e a juventude,
para construir hospitais que acolham enfermos pobres, ou para erguer
abrigos que assegurem aos velhos uma existência mais tranquila,
no pôr de sol de suas experiências terrenas.
As palavras do Mestre, na chamada “oração sacerdotal”,
exprimem cautela, revelam prudência.
O pensamento de Jesus — “Não peço que os tires
do mundo, e, sim, que os guardes do mal” — era o de impedir
que os discípulos viessem a empanar o fulgor da Boa Nova, o universalismo
da Doutrina Cristã, com um possível retraimento das lutas
mundanas.
A fuga ao trabalho, aos deveres imediatos, poderia criar um precedente
perigoso para as futuras realizações do Evangelho.
Os discípulos, àquela época, tanto quanto nós
outros na atualidade, não prescindiam do clima ardoroso das lutas
terrestres — porque as lutas corrigem, aperfeiçoam, iluminam.
A oração do Senhor, proferida em voz alta, haveria de
causar-lhes duradoura impressão.
Repercutiria, profundamente, nos séculos que se avi¬zinhavam.
Assim é que, na hora da partida, quando se preparava para o retorno
às Esferas de Luz de Ignotas Regiões, fixou-lhes, em definitivo,
o procedimento no mun¬do, de maneira que, permanecendo eles no mundo,
dessem ao mundo testemunhos de luta e trabalho, compreensão e
amor.
É por isso que os companheiros do Mestre fundaram a “Casa
do Caminho”, onde o faminto recebia alimento, onde o esfarrapado
encontrava vestuário, onde o doente alcançava amparo.
Ninguém pode dar testemunho de valor espiritual, se não
viveu provas difíceis, dramas intensos, complicados problemas,
se não viajou em águas procelosas.
Ninguém pode dar testemunho de resistência moral, se não
sentiu o impacto de fortes tentações, sobrepondo-se, no
entanto, a todas elas, pela inabalável determi¬nação
de vencer, pelo desejo de realizar-se.
Num convento, numa caverna, na solidão, tais oportunidades difícilmente
se verificarão.
Viver no mundo — sem aderir ao mundo.
Viver no mundo — sem partilhar-lhe as paixões.
Viver no mundo — sem entregar-se ao mundo.
Viver no mundo — mas livrar-se do mal.
Transitar pela Terra — sem chafurdar-se na lama dos vícios,
é prova difícil, porém não impossível.
Pede decisão, esforço, persistência.
Conhecendo o anseio de crescimento espiritual, que era uma constante
na vida dos discípulos, porém, identificando-lhes igualmente
a fragilidade humana, rogava Jesus ao Pai:
— “Não peço que os tires do mundo, e, sim,
que os guardes do mal.”
No pedido do Mestre nota-se, amorosa, uma exortação à
vigilância, para que não viessem eles a sucumbir ante o
mal, nas suas diversas manifestações.
O mundo, com seus conflitos e suas tentações, era-lhes,
sem dúvida, clima propício às experiências
reno¬vadoras.
Fortalecidos, contudo, pelas imortais lições de Jesus,
haveriam de se converter, como de fato se converteram, em exemplos vivos
e atuantes de amor e trabalho.
O heroísmo dos primeiros cristãos regou a árvore
do Cristianismo.
A abnegação e o sacrifício dos homens da “Casa
do Caminho”, nas adjacências de Jerusalém, adubaram,
para todos os séculos e milênios, a sementeira do Evangelho.
6
A Mulher e o Lar – 1º
Cada um permaneça
na vocação em que foi chamado.
Um dos mais belos aspectos do Espiritismo
é, sem dúvida, o que diz respeito ao problema da fixação
da mulher dentro do Lar.
E este fato, por si mesmo expressivo e jubiloso, evidencia, de maneira
incontestável, a influência da nossa Doutrina nos surtos
de progresso que assinalam, na atualidade, as conquistas humanas, influência
segura e benéfica, proveitosa e construtiva.
Os movimentos feministas têm-se revelado inope¬rantes, pelo
menos até hoje, uma vez que não conse¬guiram incutir,
na mulher, a compreensão sublime da tarefa que lhe cabe na preparação
da Humanidade do porvir.
A verdade insofismável é que os lares se estão
esvaziando na mesma proporção em que os clubes se tornam
cada dia mais freqüentados.
Enquanto a música sem inspiração, a dança,
a bebida e o jogo vão consumindo a saúde e o dinheiro,
o bom ânimo e a confiança de casais invigilantes, milhares
de crianças, de todas as idades, órfãs de pais
vivos, necessitadas de carinho e assistência, permanecem nos lares
sob a guarda de auxiliares nem sempre dedicadas.
Em outros casos, os adolescentes acompanham os genitores aos clubes,
ou buscam, eles próprios, ambientes onde esperam e procuram esvaziar,
noite a dentro, a taça do prazer e da ilusão.
Embora Paulo, traçando diretrizes sobre a estabilidade da família,
recomende aos Coríntios que “cada um permaneça na
vocação em que foi chamado” — isto é,
a mulher no lar, educando e assistindo os filhos, e o homem nos deveres
inerentes à sua própria natureza — o que se percebe,
na atualidade, é que, enquanto os lares se despovoam, os clubes
se repletam.
Deslumbrada por mirabolantes “slogans” de reivindicações
de toda a sorte, vai a mulher se deixando conduzir, pouco a pouco, pela
estrada do superficialismo, esquecida, lastimàvelmente, de que
a mais importante reivindicação que poderia fazer seria
a de continuar rei¬nando, soberana, em seu Lar.
Não conhecemos postulação mais sublime, mais gran¬diosa,
para a mulher: esposa e mãe, companheira do seu companheiro,
educadora dos seus filhos.
Se a Escola instrui, o coração materno educa.
Duas realidades, portanto, se afirmam: 1.): — o despovoamento
dos lares, com os naturais e compreensíveis perigos à
estabilidade do instituto doméstico; 2.) : — o rápido
crescimento dos cassinos e boates, onde a futilidade e o vinho fazem
parelha com a desconfiança e a sedução, na vertiginosa
corrida para o mais rápido aluimento dos sagrados alicerces da
família.
A mulher contemporânea, especialmente nos chamados “meios
civilizados”, procura ajustar-se, por esnobismo ou ingenuidade,
ao falso conceito de modernismo ou modernice.
Começa a perder, assim, sem que o perceba, como uma pessoa que
se embriaga à força de pequeninos e sucessivos goles,
o gosto pelo Lar, a satisfação de ser a companheira dos
seus filhos.
O ambiente requintado dos clubes alegra-lhe mais o coração
do que a simplicidade, o recato do santuário doméstico,
onde se plasmam os caracteres e de onde partem, para o mais incerto
dos incertos destinos, os futuros cidadãos do mundo.
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