ESTUDANDO O EVANGELHO - MARTINS PERALVA

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A Mulher e o Lar – 2º

... cada um permaneça diante de Deus naquilo que foi chamado.

A mulher foi chamada para o Lar.
Competindo e rivalizando com os homens, inclusive em alguns excessos, vai ela, contudo, se habituando fora de casa.
Posterga, assim, de maneira imperceptível, o mais sublime e inalienável direito que o matrimônio e a maternidade edificante lhe concedem.
Abre mão, perigosamente, do mais belo atributo com que Deus a investiu, qual seja o de educar, ela própria, os filhos, com a transferência — ó infeliz e desnaturada transferência! — dessa divina atribuição às babás e auxiliares, muitas delas desprovidas de qualquer sentimento afetivo para com os entezinhos que a invigilância maternal lhes põe nos braços.
Sim — nos braços, apenas.
Abre mão, a mulher, maravilhada ante o brilho das reuniões sociais, da suprema ventura de acompanhar, muitas vezes com lágrima e sacrifício, o desenvolvimento mental e moral dos filhos, de partilhar-lhes as tristezas e alegrias, de sentir-lhes e anotar — para corrigir — os pequenos e grandes defeitos que pedem retificação, enquanto é tempo, defeitos e anfractuosidades cujo preço, no futuro, podem ser a desgraça e o sofrimento, a miséria e o crime.
A mulher parece não ouvir a advertência do grande Paulo: permanecer naquilo para que foi chamada; permanecer como Rainha do Lar, Sacerdotisa da Família.
Fixar o elemento feminino no Lar, evitando que este se esvazie por completo, fazendo compreender que é ele a primeira sociedade que a criança conhece e da qual participa — eis a missão do Espiritismo, na atualidade e sempre.
Missão grandiosa, inadiável, séria, divina.
Existem mães, em grande número — e isso não constitui novidade para ninguém —, que nada sabem dos filhos, dos seus problemas, das suas necessidades, das suas deficiências.
A vida social intensa, expressando-se, quase sempre, através de consecutivas atividades noturnas, nos clubes ou em residências amigas, onde o aperitivo e o jogo disputam o título de mais eficiente “destruidor da paz doméstica”, obriga os pais a irem para um lado e os filhos para outro.
Assegura Emmanuel, nosso querido e respeitável Instrutor, que o feminismo legítimo “deve ser o da reeducação da mulher para o lar, nunca para uma ação contra-producente fora dele”.
É isso o que o Espiritismo, por seus divulgadores, pretende e deseja fazer.
Não desejamos violentar o livre arbítrio de quem quer que seja, homem ou mulher, mas veicular o esclarecimento fraterno, construtivo.
Indicar os males decorrentes do desamor ao Lar —sagrada instituição que teve por fundamento, na Terra, três personagens singulares.
A nobreza de um carpinteiro que se chamava José.
A santidade de uma virgem que se chamava Maria.
A sabedoria e a bondade de uma criança, loura, que se chamava JESUS.
Seria infantilidade de nossa parte negarmos que mulheres ilustres contribuíram, em todas as épocas da Humanidade, atuando fora do lar, para o progresso da Ciência e da Arte, da Filosofia e da Religião.
Todavia, mesmo assim, apraz-nos a recomendação do apóstolo tarsense.
Conforta-nos a observação de Emmanuel. Da missão da mulher dentro do lar; do seu sacrifício e da sua renúncia; do seu sofrimento e de suas lágrimas; de sua abnegação e do seu anônimo labor, surgirá, para a Humanidade, o Amanhã de Luz.
É no lar, entre as quatro paredes de uma casa, modesta ou opulenta, que a alma infantil recebe as primeiras lições de sensibilidade e carinho, as primeiras manifestações de nobreza e compreensão.
E não esqueçamos que um dia as mães do mundo inteiro ouvirão, na acústica da própria consciência, a Voz de Deus, em forma de acusação ou de louvor:
“Mães, que fizestes dos filhos que vos confiei?...”

8
A Primeira Escola

Deixai vir a mim os pequeninos...

Quando Jesus atribuiu a si mesmo a qualidade de Caminho, Verdade e Vida, não fêz, logicamente, uma declaração de ordem pessoal, mas se referiu, decerto, àmensagem que trouxera ao Mundo, em nome e por delegação do Pai.
Reportou-se o Mestre, sem dúvida, aos ensinos, ao roteiro que traçava por norma de aperfeiçoamento, à moral que pregava e exemplificava.
O Evangelho é Caminho, porque, seguindo-o, não nos perderemos nas sombrias veredas da incompreensão e do ódio, da injustiça e da perversidade, mas perlustraremos, com galhardia e êxito, as luminosas trilhas da evolução e do progresso — da ascensão e da felicidade que se não extingue.
O Evangelho é Verdade, porque é eterno.
Desafia os séculos e transpõe os milênios.
Perde-se no Infinito dos Tempos...
O Evangelho é Vida, porque a alma que se alimenta dele, e nele vive, ganhará a vida eterna. Aquele que crê em Jesus e pratica os Seus ensinos viverá — mesmo que esteja morto.

* * *

Deixar ir a Jesus os pequeninos, levar as crianças ao Mestre não significa, pois, organizar, objetiva e materialmente, uma caravana de Espíritos de meninos — encarnados ou desencarnados — para, em luminosa carruagem, romperem as barreiras espaciais, vencerem as distâncias cósmicas e prostrarem-se, devotamente, ante o Excelso Governador Espiritual do Mundo, com a finalidade inconcebível, porque absurda, de Lhe tributarem pomposas homenagens.
Conduzir as crianças a Jesus significa incutir-lhes nos corações os preceitos evangélicos, a fim de que os seus atos possam revelar, no futuro, nobreza e dignidade.
O Espiritismo, através das Escolas de Evangelho, vem cuidando de levar os pequeninos ao Mestre, fazendo-os apreender as imortais lições da Boa Nova do Reino.
Urge, contudo, que o meritório esforço das nossas instituições, polarizando-se na criança, não encontre obs¬táculos na despreparação evangélica dos pais, para evitar que a criança “ouça”, nos Centros, luminosos conceitos de espiritualidade e moral, mas “veja” e “sinta”, dentro de casa, no próprio lar, inadequadas atitudes de egoísmo e torpeza.
Não basta, pois, evangelizar a criança nas Instituições Espíritas.
É imprescindível que essa educação alcance, tam¬bém, os genitores ou responsáveis, evitando-se, destarte, se estabeleça na incipiente alma infantil a desastrosa confusão de ver e ouvir”, em casa, atitudes e conceitos bem diversos dos que “vê” e “ouve” nas aulas de Evangelho e Espiritismo.
A primeira escola é o lar.
E o lar evangelizado dá à criança, grava-lhe, na consciência, as firmes noções do Cristianismo sentido e vivido.
Imprime-lhe, no caráter, os elementos fundamentais da educação.
É necessário que a criança sinta e se impregne, no santuário doméstico, desde os primeiros instantes da vida física, das sublimes vibrações que só um ambiente evan¬gelizado pode assegurar, para que, simultaneamente com o seu desenvolvimento moral e intelectual, possa ela “ver” o que é belo, “ouvir” o que é bom e “aprender” o que é nobre.
Se o lar não é evangelizado, as lições colhidas fora dele podem ser, apenas, um conhecimento a mais, no campo religioso, para a inteligência infantil.
Um conhecimento a mais não passa de um acidente instrutivo. E o que devemos buscar é a realidade educativa, moral, que tenha sentido de perene renovação.
Cuidar da criança — esquecendo os pais da criança — parece-nos esforço incompleto.
Não adianta ser a criança aconselhada, na Escola de Evangelho, por devotadas instrutoras ou instrutores, a Se expressarem de maneira conveniente, se observa ela em casa palavrões e gírias maliciosas, impropriedades e xingamentos.
Se o lar é uma escola A PRIMEIRA ESCOLA
e se os pais representam para os filhos, como primeiros educadores, o que há de melhor, sob o ponto de vista de cultura e respeito, experiência e autoridade, evidentemente a criança será inclinada — entre os pais que proferem palavrões e grosserias e a professora de Evangelho que ensina boas maneiras e sobriedade no vocabulário — a seguir os primeiros.
Com os pais a criança dorme, levanta-se, faz refeições e convive, diuturnamente.
O convívio da criança, na Aula de Evangelho, com os instrutores, verifica-se uma vez por semana, durante uma hora ou pouco mais.
E não nos esqueçamos de que, na opinião dos filhos, os pais São os maiores.
Contribuir para que os pequeninos possam “ir a Jesus”, mediante o aprendizado evangélico, representa, a nosso ver, providência correlata, simultânea com o esforço de “levar a Jesus” os pais, preparando-os, condignamente, para a missão da paternidade ou da maternidade.
Informa a sabedoria popular que o exemplo deve vir de cima...

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