O ESPIRITISMO EM SUA EXPRESSÃO MAIS SIMPLES
ALLAN KARDEC
ÍNDICE
Prefácio
CAPÍTULO 1 = Histórico
do Espiritismo
CAPÍTULO 2 = Resumo do ensinamento dos Espíritos
CAPÍTULO 3 = Máximas extraídas do ensinamento dos
Espíritos
Prefácio
Em Janeiro de 1862, Allan Kardec publicou, na "Revista Espírita",
o seguinte comentário sobre o livreto O Espiritismo em Sua Expressão
Mais Simples, que acabava de editar:
"O objetivo desta publicação é dar, num quadro
muito sucinto, o histórico do Espiritismo e uma idéia
suficiente da Doutrina dos Espíritos, para que se lhe possa compreender
o objetivo moral e filosófico. Pela clareza e pela simplicidade
do estilo, procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências.
Contamos com o zelo de todos os verdadeiros Espíritas para ajudar
a sua propagação."
Inegavelmente, este opúsculo, de fácil leitura e acessível
a todos os intelectos, propicia ao leitor uma visão muito clara
da majestosidade da Doutrina dos Espíritos.
A agitação do mundo contemporâneo faz com que muitos
homens não encontrem tempo para a leitura de livros substanciosos
como o são as cinco monumentais obras que formam a Codificação
Kardequiana; por isso, Allan Kardec, com o objetivo de facilitar o conhecimento
do Espiritismo, ainda que de forma bastante superficial, houve por bem
lançar esse pequeno livro, que encerra uma súmula dessa
maravilhosa Doutrina. Temos certeza plena de que os que lerem este opúsculo
se sentirão atraídos para a leitura de todas as demais
obras espíritas.
Essa iniciativa de Allan Kardec demonstra o seu empenho em desvendar
aos homens a excelência de uma Doutrina que emanou do Mundo Maior
sob a égide do Espírito de Verdade, e que tem por escopo
básico descerrar uma ponta do véu que encobria aquilo
que os nossos antepassados consideravam mistério, as grandes
verdades que o mundo precisa conhecer, a fim de se libertar do obscurantismo,
pelo conhecimento da verdade, conforme preceituou o nosso Mestre Jesus
Cristo.
O leitor deste opúsculo, tomando conhecimento do seu conteúdo,
poderá ter a certeza de que adentrou o terreno de um conhecimento
novo, que muito o ajudará a desvendar e equacionar coisas que
falam muito de perto aos seus problemas morais e espirituais.
Na época, quando Allan Kardec escreveu este opúsculo,
ainda não fora dado a lume O Evangelho Segundo o Espiritismo;
portanto, o leitor terá muito mais a aprender ao ler essa monumental
obra do Codificador, identificando-se com os ensinamentos de Jesus,
à luz da Terceira
Revelação. A leitura de O Espiritismo em Sua Expressão
Mais Simples fará com que o leitor se prepare para assimilar
conhecimentos ainda mais elevados, que abrirão novos horizontes
no roteiro que leva as nossas almas ao Criador de todas as coisas, pela
senda penosa, mas redentora, da evolução espiritual.
Paulo Alves Godoy
1
Histórico do Espiritismo
Por volta de 1848, chamou-se a atenção, nos Estados Unidos,
para diversos fenômenos estranhos que consistiam em ruídos,
batidas e movimento de objetos sem causa conhecida. Esses fenômenos
aconteciam com freqüência, espontaneamente, com uma intensidade
e persistência singulares; mas notou-se também que ocorriam
particularmente sob a influência de certas pessoas, às
quais se deu o nome de médiuns, que podiam de certa forma provocá-los
à vontade, o que permitiu repetir as experiências. Para
isso usaram-se sobretudo mesas; não que este objeto seja mais
favorável que um outro, mas somente porque ele é móvel,
é mais cômodo, e porque é mais fácil e natural
sentar-se em volta de uma mesa que de qualquer outro móvel. Obteve-se
dessa forma a rotação da mesa, depois movimentos em todos
os sentidos, saltos, reversões, flutuações, golpes
dados com violência, etc. O fenômeno foi designado, a princípio,
com o nome de mesas girantes ou dança das mesas(1).
Até então, o fenômeno podia explicar-se perfeitamente
por uma corrente elétrica ou magnética, ou pela ação
de um fluído desconhecido, e esta foi aliás a primeira
opinião formada. Mas não se demorou a reconhecer, nesses
fenômenos, efeitos inteligentes; assim, o movimento obedecia à
vontade; a mesa ia para a direita ou para a esquerda, em direção
a uma pessoa designada, ficava sobre um ou dois pés sob comando;
batia no chão o número de vezes pedido, batia regularmente,
etc. Ficou então evidente que a causa não era puramente
física e, a partir do axioma: Se todo efeito tem uma causa, todo
efeito inteligente deve ter uma causa inteligente, concluiu-se que a
causa desse fenômeno devia ser uma inteligência.
Qual era a natureza dessa inteligência? Era essa a questão.
A primeira idéia foi que podia ser um reflexo da inteligência
do médium ou dos assistentes, mas a experiência demonstrou
logo a impossibilidade disso, porque se obtiveram coisas completamente
fora do pensamento e dos conhecimentos das pessoas presentes, e até
em contradição com suas idéias, vontade e desejo;
ela só podia, então, pertencer a um ser invisível.
O meio de certificar-se era bem simples: bastava iniciar uma conversa
com essa entidade, o que foi feito por meio de um número convencional
de batidas significando sim ou não, ou designando as letras do
alfabeto; obtiveram-se, dessa forma; respostas para as diversas questões
que se lhe dirigiam. O fenômeno foi designado pelo nome de mesas
falantes. Todos os seres que se comunicaram dessa forma, interrogados
sobre sua natureza, declararam ser Espíritos e pertencer ao mundo
invisível. Como se tratava de efeitos produzidos em um grande
número de localidades, pela intervenção de pessoas
diferentes, e observados por homens muito sérios e esclarecidos,
não era possível que fossem um jogo de ilusão.
Da América esse fenômeno passou para a França e
o resto da Europa onde, por alguns anos, as mesas girantes e falantes
estiveram na moda e se tornaram o divertimento dos salões; depois,
quando as pessoas se cansaram, deixaram-nas de lado, em busca de outra
distração.
O fenômeno não demorou a apresentar-se sob um novo aspecto
que o fez sair do domínio da simples curiosidade. Os limites
deste resumo não nos permitem segui-lo em todas as suas fases;
assim passamos, sem transição, para o que ele oferece
de mais característico, para o que atraiu sobremaneira a atenção
das pessoas sérias(2).
Salientemos, antes, que a realidade do fenômeno encontrou numerosos
opositores; alguns, sem levar em conta a preocupação desinteressada
e a honradez dos experimentadores, só enxergaram uma fraude,
uma hábil sutileza. Os que não admitem nada fora da matéria,
que só acreditam no mundo visível, que acham que tudo
morre com o corpo, os materialistas, em resumo os que se qualificam
de espíritos fortes, repeliram a existência dos Espíritos
invisíveis para o campo das fábulas absurdas; tacharam
de loucos os que levavam a coisa a sério, e os cumularam de sarcasmos
e zombarias. Outros; não podendo negar os fatos, e sob o império
de certas idéias, atribuíram esses fenômenos à
influência exclusiva do diabo e procuraram, assim, assustar os
tímidos. Mas hoje o medo do diabo perdeu singularmente seu prestígio;
falaram tanto dele, pintaram-no de tantos modos, que as pessoas se familiarizaram
com essa idéia e muitos acharam que era preciso aproveitar a
ocasião para ver o que ele é realmente.
Resultou que, à parte de um pequeno número de mulheres
timoratas, o anúncio da chegada do verdadeiro diabo tinha algo
de picante para aqueles que só o tinham visto em quadros ou no
teatro; ele foi para muita gente um poderoso estimulante, de modo que
os que quiseram levantar, por esse meio, uma barreira às novas
idéias, agiram contra seu próprio objetivo e tornaram-se,
sem o querer, agentes propagadores tanto mais eficazes quanto mais forte
gritavam. Os outros críticos não tiveram sucesso maior
porque, aos fatos constatados, com raciocínios categóricos,
só puderam opor denegações. Leiam o que eles publicaram
e em toda parte encontrarão a prova da ignorância e a falta
de observação séria dos fatos(3); em nenhum lugar,
uma demonstração peremptória de sua impossibilidade.
Toda a argumentação deles resume-se assim: "Eu não
acredito, então não existe; todos os que acreditam são
loucos; somente nós temos o privilégio da razão
e do bom senso." O número dos adeptos feitos pela crítica
séria ou burlesca é incalculável, porque em todas
elas só se encontram opiniões pessoais, vazias de provas
em contrário. Continuemos com nossa exposição.
As comunicações por batidas eram lentas e incompletas;
verificou-se que, adaptando um lápis a um objeto móvel
(cesto, prancheta ou um outro, sobre os quais se colocavam os dedos),
esse objeto começava a movimentar-se e traçava sinais.
Mais tarde verificou-se que esses objetos eram tão-somente acessórios
que podiam ser dispensados; a experiência demonstrou que o Espírito,
que agia sobre um corpo inerte dirigindo-o à vontade, podia agir
da mesma forma sobre o braço ou a mão, conduzindo o lápis.
Tivemos então médiuns escritores, ou seja, pessoas que
escreviam de modo involuntário, sob o impulso dos Espíritos,
de que eram instrumentos e intérpretes. A partir daí,
as comunicações não tiveram mais limites, e a troca
de pensamentos pode-se fazer com tanta rapidez e desenvolvimento quanto
entre os vivos. Era um vasto campo aberto à exploração,
a descoberta de um mundo novo: o mundo dos invisíveis, assim
como o microscópio tinha desvendado o mundo dos infinitamente
pequenos.
Que são esses Espíritos? Que papel desempenham no Universo?
Com que propósito se comunicam com os mortais? Tais eram as primeiras
questões que se impunham resolver. Soube-se logo, por eles mesmos,
que não se trata de seres à parte na criação,
mas das próprias almas daqueles que viveram na Terra ou em outros
mundos; que essas almas, depois de terem despojado de seu envoltório
corporal, povoam e percorrem o espaço. Não houve mais
possibilidade de dúvidas quando se reconheceram, entre eles,
parentes e amigos, com quem se pôde conversar; quando estes vieram
dar prova de sua existência, demonstrar que a morte para eles
foi só do corpo, que sua alma ou Espírito continua a viver
que estão ali junto de nós, vendo-nos e observando-nos
como quando eram vivos, cercando de solicitude aqueles que amaram, e
cuja lembrança é para eles uma doce satisfação.
Geralmente fazemos dos Espíritos uma idéia completamente
falsa; eles não são, como muitos imaginam, seres abstratos,
vagos e indefinidos, nem algo como um clarão ou uma centelha;
são, ao contrário, seres muito reais, com sua individualidade
e uma forma determinada. Podemos ter uma idéia aproximada pela
explicação seguinte:
Há no homem três coisas essenciais: 1º) a Alma ou
Espírito, princípio inteligente em que residem o pensamento,
a vontade e o senso moral; 2º) o corpo, envoltório material,
pesado e grosseiro, que coloca o Espírito em relação
com o mundo exterior; 3º) o perispírito, envoltório
fluídico, leve, que serve de laço e intermediário
entre o Espírito e o corpo. Quando o envoltório exterior
está gasto e não pode mais funcionar, ele cai e o Espírito
despoja-se dele como o fruto de sua casca, a árvore de sua crosta;
em resumo, como se abandona uma roupa velha que não serve mais;
é a isso que chamamos morte(4).
A morte, portanto, não passa da destruição do grosseiro
envoltório do Espírito - só o corpo morre, o Espírito
não. Durante a vida o Espírito está de certa forma
limitado pelos laços da matéria a que está unido
e que, muitas vezes, paralisa suas faculdades; a morte do corpo desembaraça-o
de seus laços; ele se liberta e recupera sua liberdade, como
a borboleta saindo de sua crisálida. Mas ele só abandona
o corpo material; conserva o perispírito, que constitui para
ele uma espécie de corpo etéreo, vaporoso, imponderável
para nós e de forma humana, que parece ser a forma-tipo. Em seu
estado normal, o perispírito é invisível, mas o
Espírito pode fazer com que sofra certas modificações
que o tornam momentaneamente acessíveis à vista e até
ao contato, como acontece com o vapor condensado; é assim que
eles podem às vezes mostrar-se a nós em aparições.
É com a ajuda do perispírito que o Espírito age
sobre a matéria inerte e produz os diversos fenômenos de
ruído, de movimento, de escrita, etc.
As batidas e movimentos são, para os Espíritos, meios
de atestar sua presença e chamar para si a atenção,
exatamente como quando uma pessoa bate para avisar que há alguém.
Há os que não se limitam a ruídos moderados, mas
que chegam a fazer um alarido como de louça quebrando, de portas
que se abrem e se fecham, ou de móveis derrubados.
Através de batidas e movimentos combinados eles puderam exprimir
seus pensamentos, mas a escrita lhes oferece o meio completo, mais rápido
e mais cômodo; é o que eles preferem(5). Pela mesma razão
que podem formar caracteres, podem guiar a mão para traçar
desenhos, escrever música, executar uma peça em um instrumento,
em resumo, na falta do próprio corpo, que não têm
mais, usam o do médium para manifestar-se aos homens de uma maneira
sensível.
Os Espíritos podem ainda manifestar-se de várias maneiras,
entre outras pela visão e pela audição. Certas
pessoas, ditas médiuns auditivos, têm a faculdade de ouvi-los
e podem, assim, conversar com eles; outras os vêem - são
os médiuns videntes. Os Espíritos que se manifestam à
visão apresentam-se geralmente sob forma análoga à
que tinham quando vivos, porém vaporosa; outras vezes, essa forma
tem toda a aparência de um ser vivo, a ponto de iludir completamente,
tanto que algumas vezes foram tomados por criaturas de carne e osso,
com as quais se pôde conversar e trocar apertos de mãos,
sem se suspeitar que se tratava de Espíritos, a não ser
em razão de seu desaparecimento súbito(6).
A visão permanente e geral dos Espíritos é bem
rara, mas as aparições individuais são bastante
freqüentes, sobretudo no momento da morte; o Espírito liberto
parece ter pressa de rever seus parentes e amigos, como para avisá-los
que acaba de deixar a terra e dizer-lhes que continua vivendo.
Que cada um junte suas lembranças, e veremos quantos fatos autênticos
desse tipo, de que não nos apercebíamos, aconteceram não
só à noite, durante o sono, mas em pleno dia e no estado
mais completo de vigília.
Outrora víamos esses fatos como sobrenaturais e maravilhosos,
e os atribuíamos à magia e à feitiçaria;
hoje, os incrédulos os atribuem à imaginação;
mas desde que a ciência espírita nos deu a chave, sabemos
como se produzem e que não saem da ordem dos fenômenos
naturais.
Acreditamos ainda que os Espíritos, só pelo fato de serem
Espíritos, devem ser donos da soberana ciência e da soberana
sabedoria: é um erro que a experiência não tardou
a demonstrar. Entre as comunicações feitas pelos Espíritos,
algumas são sublimes de profundidade, eloqüência,
sabedoria, moral, e só respiram bondade e benevolência;
mas, ao lado dessas, há aquelas muito vulgares, fúteis,
triviais, grosseiras até, pelas quais o Espírito revela
os mais perversos instintos. Fica então evidente que elas não
podem emanar da mesma fonte e que, se há bons Espíritos,
há, também, maus. Os Espíritos, não sendo
mais que as almas dos homens, naturalmente não podem tornar-se
perfeitos ao abandonar seu corpo; até que tenham progredido,
conservam as imperfeições da vida corpórea; é
por isso que os vemos em todos os graus de bondade e maldade, de saber
e ignorância.
Os Espíritos geralmente se comunicam com prazer, constituindo
para eles uma satisfação ver que não foram esquecidos;
descrevem de boa vontade suas impressões ao deixar a Terra, sua
nova situação, a natureza de suas alegrias e sofrimentos
no mundo em que se encontram. Uns são muito felizes, outros infelizes,
alguns até sofrem horríveis tormentos, segundo a maneira
como viveram e o emprego bom ou mau, útil ou inútil que
fizeram da vida. Observando-os em todas as fases de sua nova existência,
de acordo com a posição que ocuparam na terra, seu tipo
de morte, seu caráter e seus hábitos como homens, chegamos
a um conhecimento senão completo, pelo menos bastante preciso
do mundo invisível, para termos a explicação do
nosso estado futuro e pressentir o destino feliz ou infeliz que lá
nos espera.
As instruções dadas pelos Espíritos de categoria
elevada sobre todos os assuntos que interessam à humanidade,
as respostas que eles deram às questões que lhes foram
propostas, foram recolhidas e coordenadas com cuidado, constituindo
toda uma ciência, toda uma doutrina moral e filosófica,
sob o nome de Espiritismo. O Espiritismo é, pois, a doutrina
fundada na existência, nas manifestações e no ensinamento
dos Espíritos.
Esta doutrina acha-se exposta de modo completo em O Livro dos Espíritos,
quanto à sua parte filosófica; em O Livro dos Médiuns,
quanto à parte prática e experimental; e em O Evangelho
segundo o Espiritismo, quanto à parte moral. Podemos avaliar,
pela análise que faremos abaixo dessas obras, a variedade, a
extensão e a importância dos assuntos que a doutrina envolve.
Como vimos, o Espiritismo teve seu ponto de partida no fenômeno
vulgar das mesas girantes; mas como esses fatos falam mais aos olhos
que à inteligência, despertam mais curiosidade que sentimento,
satisfeita a curiosidade, fica-se menos interessado, na medida de nossa
falta de compreensão. A situação mudou quando a
teoria veio explicar a causa; sobretudo quando se viu que dessas mesas
girantes com as quais as pessoas se divertiram algum tempo, saia toda
uma doutrina moral que fala à alma, dissipando as angústias
da dúvida, satisfazendo a todas as aspirações deixadas
no vácuo por um ensinamento incompleto sobre o futuro da humanidade,
as pessoas sérias acolheram a nova doutrina como um benefício
e, a partir de então, longe de declinar, ela cresceu com incrível
rapidez.
No espaço de alguns anos conseguiu adesões em todos os
países do mundo, sobretudo entre as pessoas esclarecidas, inúmeros
partidários que aumentam todos os dias em uma proporção
extraordinária, de tal forma que hoje pode-se dizer que o Espiritismo
conquistou direito de cidadania(7). Ele está assentado em bases
que desafiam os esforços de seus adversários mais ou menos
interessados em combatê-lo e a prova é que os ataques e
críticas não retardaram sua marcha um só instante
- este é um fato obtido da experiência, cujo motivo os
oponentes nunca puderam explicar; os espíritas dizem simplesmente
que, se ele se propaga apesar da crítica, é que o acham
bom e que se prefere seu modo de raciocinar ao de seus contestadores.
O Espiritismo, entretanto, não é uma descoberta moderna;
os fatos e princípios sobre os quais ele repousa perdem-se na
noite dos tempos, pois encontramos seus vestígios nas crenças
de todos os povos, em todas as religiões, na maior parte dos
escritores sagrados e profanos; só que os fatos, não completamente
observados, foram muitas vezes interpretados segundo as idéias
supersticiosas da ignorância, e não foram deduzidas todas
as suas conseqüências.
Com efeito, o Espiritismo está fundado sobre a existência
dos Espíritos, mas os Espíritos não sendo mais
que as almas dos homens, desde que há homens, há Espíritos;
o Espiritismo nem os descobriu, nem os inventou. Se as almas ou Espíritos
podem manifestar-se aos vivos, é que isso é natural e,
portanto, eles devem tê-lo feito todo o tempo; assim, em qualquer
época e qualquer lugar encontramos a prova dessas manifestações
abundantes, sobretudo nos relatos bíblicos.
O que é moderno é a explicação lógica
dos fatos, o conhecimento mais completo da natureza dos Espíritos,
de seu papel e seu modo de ação, a revelação
de nosso estado futuro, enfim, sua constituição em corpo
de ciência e de doutrina e suas diversas aplicações.
Os Antigos conheciam o princípio, os Modernos conhecem os detalhes.
Na Antigüidade, o estudo desses fenômenos constituía
o privilégio de certas castas que só os revelavam aos
iniciados em seus mistérios; na Idade Média, os que se
ocupavam ostensivamente com isso eram tidos como feiticeiros e, por
isso, queimados; mas hoje não há mistérios para
ninguém, não se queima mais ninguém; tudo se passa
claramente e todo mundo pode esclarecer-se e praticá-lo, pois
há médiuns em toda parte.
A própria doutrina que os espíritos ensinam hoje não
tem nada de novo; é encontrada em fragmentos na maior parte dos
filósofos da Índia, do Egito e da Grécia, e inteira
no ensinamento de Cristo. Então o que vem fazer o Espiritismo?
Vem confirmar novos testemunhos, demonstrar, por fatos, verdades desconhecidas
ou mal compreendidas, restabelecer em seu verdadeiro sentido as que
foram mal interpretadas.
O Espiritismo não ensina nada de novo, é verdade; mas
não é nada provar de modo patente, irrecusável,
a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, sua individualidade
depois da morte, sua imortalidade, as penas e recompensas futuras? Quanta
gente acredita nessas coisas, mas acredita com um vago pensamento dissimulado
de incerteza, e diz em seu foro íntimo: "E se não
fosse assim?" Quantos não foram levados à incredulidade
porque lhes apresentaram o futuro sob um aspecto que sua razão
não podia admitir?
Então, não é nada que o crente vacilante possa
dizer: "Agora tenho certeza!", que o cego reveja a luz? Pelos
fatos e por sua lógica, o Espiritismo vem dissipar a ansiedade
da dúvida e trazer de volta à fé aquele que dela
se afastou; revelando-nos a existência do mundo invisível
que nos rodeia, e no meio do qual vivemos sem suspeitar, ele nos dá
a conhecer, pelo exemplo dos que viveram, as condições
de nossa felicidade ou infelicidade futura; ele nos explica a causa
de nossos sofrimentos aqui na terra e o meio de amenizá-los.
Sua propagação terá por efeito inevitável
a destruição das doutrinas materialistas, que não
podem resistir à evidência. O homem, convencido da grandeza
e da importância de sua existência futura, que é
eterna, compara-a com a incerteza da vida terrestre, que é tão
curta, e eleva-se, pelo pensamento, acima das mesquinhas considerações
humanas; conhecendo a causa e o propósito de suas misérias,
ele as suporta com paciência e resignação, porque
sabe que elas são um meio de chegar a um estado melhor. O exemplo
daqueles que vêm do além-túmulo descrever suas alegrias
e dores, provando a realidade da vida futura, prova ao mesmo tempo que
a justiça de Deus não deixa nenhum vício sem punição
e nenhuma virtude sem recompensa. Acrescentemos, finalmente, que as
comunicações com os seres queridos que perdemos acarretam
uma doce consolação, provando não só que
eles existem, mas que estamos menos separados deles que se estivessem
vivos num país estrangeiro.
Em resumo, o Espiritismo suaviza a amargura das tristezas da vida; acalma
os desesperos e as agitações da alma, dissipa as incertezas
ou os terrores do futuro, elimina o pensamento de abreviar a vida pelo
suicídio; da mesma forma torna felizes os que aderem a ele, e
está aí o grande segredo de sua rápida propagação.
Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades
fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade,
as penas e as recompensas futuras; mas é independente de qualquer
culto particular.
Seu propósito é provar, aos que negam ou duvidam que a
alma existe, que ela sobrevive ao corpo, que ela sofre depois da morte
as conseqüências ao bem e do mal que fez durante a vida corpórea;
ora, isto é de todas as religiões.
Como crença nos espíritos, também não se
afasta de qualquer religião, ou de qualquer povo, porque em todo
lugar onde há homens há almas ou espíritos; que
as manifestações são de todos os tempos, e o relato
delas acha-se em todas as religiões, sem exceção.
Pode-se, portanto, ser católico, grego ou romano, protestante,
judeu ou muçulmano, e acreditar nas manifestações
dos espíritos, e conseqüentemente ser Espírita; a
prova é que o Espiritismo tem aderentes em todas as seitas(8).
Como moral, ele é essencialmente cristão, porque a doutrina
que ensina é tão-somente o desenvolvimento e a aplicação
da do Cristo, a mais pura de todas, cuja superioridade não é
contestada por ninguém, prova evidente de que é a lei
de Deus; ora, a moral está a serviço de todo mundo.
O Espiritismo, sendo independente de qualquer forma de culto, não
prescrevendo nenhum deles, não se ocupando de dogmas particulares,
não é uma religião especial, pois não tem
nem seus padres nem seus templos. Aos que indagam se fazem bem em seguir
esta ou aquela prática, ele responde:
Se sua consciência pede para fazê-lo, faça-o; Deus
sempre leva em conta a intenção. Em resumo, ele não
se impõe a ninguém; não se destina àqueles
que têm fé ou àqueles a quem essa fé basta,
mas à numerosa categoria dos inseguros e dos incrédulos;
ele não os tira da Igreja, visto que eles se separaram dela moralmente
em tudo, ou em parte; ele os faz percorrer os três quartos do
caminho para entrar nela; cabe a ela fazer o resto.
O Espiritismo combate, é verdade, certas crenças como
a eternidade das penas, o fogo material do inferno, a personalidade
do diabo, etc.; mas não é certo que essas crenças,
impostas como absolutas, sempre fizeram incrédulos e continuam
a fazê-los? Se o Espiritismo, dando desses dogmas e de alguns
outros uma interpretação racional, devolve à fé
aqueles que dela desertaram não está prestando serviço
à religião? Assim, um venerável eclesiástico
dizia a esse respeito: "O Espiritismo faz acreditar em alguma coisa;
ora, é melhor acreditar em alguma coisa que não acreditar
em absolutamente nada."
Os Espíritos não sendo senão almas, não
se pode negar os Espíritos sem negar a alma. Sendo admitidas
as almas ou Espíritos, a questão reduzida à sua
mais simples expressão é esta: As almas dos que morreram
podem comunicar-se com os vivos? O Espiritismo prova a afirmativa pelos
fatos materiais; que prova se pode dar de que isso não é
possivel? Se assim é, todas as negações do mundo
não impedirão que assim seja, pois não se trata
nem de um sistema, nem de uma teoria, mas de uma lei da natureza; ora,
contra as leis da natureza, a vontade do homem é impotente; é
preciso, querendo ou não, aceitar suas conseqüências,
e adequar suas crenças e seus hábitos.
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