INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO
XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC
Homenagem do "Grupo Meimei"
16
AMARGA EXPERIÊNCIA
Na noite de 24 de junho
de 1954, tivemos a agradável e comovente surpresa da
visita de um companheiro que, tempos atrás, fora assistido pelos
Instrutores
Espirituais, por intermédio de nosso Grupo.
Lembramo-nos de que, em seu primeiro contacto conosco, trazia a mente
obcecada por visões de ouro.
Regressando às nossas tarefas, na noite mencionada, deixou-nos
a sua
"amarga experiência", que constitui, em verdade, uma
grande lição para nós todos.
Através dela, podemos observar como as Idéias inferiores,
com o tempo, se
cristalizam em nossa alma, Impondo-nos aflitiva fixação
mental, decorrente de
nossas próprias criações íntimas.
O irmão "F" nome pelo qual passaremos a designar o
companheiro, cuja
mensagem vamos transcrever, foi na Terra grande banqueiro. Certamente
não foi
um criminoso, na acepção comum do termo, mas, pelo conteúdo
espiritual de suas
manifestações, parece haver sido um desses homens "nem
frios, nem quentes", do
símbolo evangélico, que, trazendo a mente amornada na
idéia do ouro, durante a
existência na carne, ficou por ela dominado em seus primeiros
tempos, além da
morte.
Senhores!
Perdoai-me o tratamento,
entretanto, não me sinto ainda à altura de chamar-vos
"amigos" ou "irmãos".
Sou apenas um mendigo de retorno ao vosso templo de caridade, a fim
de
agradecer, ou simplesmente um homem desencarnado, em tremenda guerra
consigo mesmo, para não se arrojar ao abismo da loucura, porqüanto
a loucura,
quase sempre, resulta de nossa inconformação ante a realidade
das situações e
das coisas.
Com aprovação de vossos orientadores, venho trazer-vos
o meu
reconhecimento e algo de minha amarga experiência, como aviso
de um náufrago
aos viajantes do mundo.
Quantas vezes afirmei que o dinheiro era a solução da
felicidade!..
Quanto tempo despendi, acreditando que a dominação financeira
fosse o triunfo
real na Terra!...
No entanto, a morte me assaltou em plena vida, assim como o tiro do
caçador
surpreende o pássaro desprevenido no mato inculto...
Como foi o meu desligamento do corpo físico e quantos dias dormi
na sombra,
por agora, nada sei dizer.
Sei hoje apenas que acordei no espaço estreito do sepulcro, com
o pavor de um
homem que se visse repentinamente enjaulado.
Sufocava-me a treva espessa.
Horrível dispnéia agitava-me todo.
Queria o ar puro...
Respirar... respirar...
E gritei por socorro.
Meus brados, contudo, se perdiam sem eco.
Ao cabo de alguns instantes, notei que duas mãos vigorosas me
soergueram e
vi-me, depois de estranha sensação, na paz do campo, sorvendo
o ar fresco da
noite.
Que lugar era aquele?
Uma casa sem teto?
De repente, a cambalear, reconheci-me rodeado de grandes caixas fortes...
Ao frouxo clarão da Lua, reparei que essas caixas fortes surgiam
milagrosamente douradas...
Tateei-as com dificuldade, percebi palavras em alto-relevo e verifiquei
que eram
túmulos...
Espavorido, transpus apressado as grades daquela inesperada prisão.
Vi-me, semilouco, na via pública.
Devia ser noite alta.
Na rua, quase ninguém...
Um bonde retardado apareceu.
Achava-me doente, inquieto e exausto, mas ainda encontrei forças
para clamar:
- Condutor!... condutor!...
O homem, porém, não me ouviu.
Caminhei mais depressa.
Tomei o veículo em movimento e consegui a situação
do pingente anônimo;
todavia, com espanto, observei que o bonde era todo talhado em ouro...
As pessoas que o lotavam vestiam-se de ouro puro.
O motorneiro envergava uniforme metálico.
Intrigado, sentia medo de mim mesmo.
E, para distrair-me, tentei estabelecer uma conversação
com vizinhos.
Os circunstantes, porém, pareciam surdos.
Ninguém me ouvia.
Vencendo embaraços indefiníveis, alcancei minha residência.
As portas, no entanto, jaziam cerradas.
Esmurrei, chamei, supliquei...
Mas tudo era silêncio e quietação.
E quando fitei o frontispício do prédio, o ouro me cercava
por todos os lados.
Acomodei-me no chão de ouro e tentei conciliar, debalde, o sono,
até que,
manhãzinha, a porta semi-aberta permitiu-me a entrada franca.
Tudo, porém, alterara-se em minha ausência.
Ninguém me reconheceu.
Fatigado, avancei para meu leito...
Mas o velho móvel apresentava-se-me agora em ouro maciço.
Senti sede e procurei a água simples, entretanto, o liquido que
jorrava era ouro,
ouro puro...
Faminto, busquei nosso antigo depósito de pão.
O pão, todavia, transformara-se.
Era precioso bloco de ouro, de cuja existência, até então,
não tinha qualquer
conhecimento em nossa casa.
Meditei... meditei...
Todos os meus afeiçoados como que conspiravam contra mim...
Não passava de intruso em minha própria moradia. Dia terrível
aquele em que
reassumia ou tentava reassumir o meu contacto com os seres amados que,
na-
turalmente, me deviam assistência e carinho!.
Depois de vastas reflexões julguei-me dementado.
Assinalei, dentro de mim, a necessidade do amparo religioso.
Iniciei dolorido exame de consciência. Seria eu católico?
Em verdade, se eu me houvesse consagrado à religião, não
teria outra escola
de fé.
Colaborara no erguimento de instituições pias.
Conhecia pessoalmente o Senhor Arcebispo.
Convivera com sacerdotes.
Freqüentava, de quando em quando, as igrejas, por imperativos da
vida social.
Conhecia as obrigações do culto exterior.
Ai de mim!... por que não obtinha o repouso necessário?
Passou o dia e veio a noite.
Alta madrugada, tornei à via pública e nela perambulei,
vacilante, procurando,
através dos templos, alguma porta que se me descerrasse, acolhedora.
As igrejas, no entanto, estavam repletas.
Movimento enorme.
Mais tarde, vim a saber que outros desencarnados como eu imploravam
socorro...
Vagueei... vagueei... até que atingi um santuário de bairro
humilde.
Amanhecia...
Vários grupos de crentes chegavam para a missa.
Gente simples, gente pobre.
Entrei.
Conturbado e aflito, senti necessidade da confissão.
Afinal, eu era um católico que relaxara a própria fé.
Sem que ninguém me escutasse os apelos, pedi a presença
de um padre.
Avancei para o confessionário e pus-me de joelhos, mas, em poucos
momentos,
o confessionário convertia-se para mim num guichê de banco.
Sobressaltado, ergui meus olhos para o altar.
O altar, porém, transformara-se em cofre forte.
Intentei consolar-me com a visão do missal, mas o livro do culto,
de repente,
surgiu metamorfoseado num velho livro de minha propriedade, em que eu
lançava,
às ocultas, as minhas notas de rendimento real.
Diligenciei isolar-me.
Temia a loucura completa.
Ainda assim, levantei meu olhar para a imagem da Virgem Maria.
Naturalmente, ela teria pena de mim, contudo, ante a minha atenção,
a imagem
reduziu-se a uma jóia de alto preço...
Fez-se toda de ouro, de ouro puro...
Voltei-me para dentro de mim.
Busquei orar, orar, orar... sem poder.
A missa começara e tive a esperança de que o momento reservado
à
Comunhão Eucarística seria aquele da visitação
do Santíssimo Sacramento.
O Santíssimo purificaria o lugar em que eu, pecador, me encontrava...
Todavia, quando alcei meus olhos para o sacerdote, que empunhava, então,
o
cálice sagrado, notei que as hóstias eram moedas tilintantes.
Horrorizado, tentei reconfortar-me com a visão da cruz...
Procurei-a, acima do altar que se havia erigido em cofre forte, mas
a cruz
transformou-se também num grande cifrão...
Ó Deus! que restava, então, de mim, senão o usurário
vencido!...
Apavorado, tornei à rua.
Sentia agora mais sede, muita sede...
Voltei-me para o corpo da igreja, como um filho expulso do próprio
lar; contudo,
não mais a vi.
Apenas, estranha voz no alto gritou aos meus ouvidos, ensurdecedoramente:
- Amigo, os filhos de Deus encontram nas casas de Deus aquilo que
procuram... Procuravas o ouro... Ouro encontraste...
Qual mendigo desamparado, fugi sem destino. Queria agora apenas água,
água
pura que me dessedentasse.
Conhecia a cidade.
Demandei uma caixa dágua que me era familiar no alto do bairro
de Santo
Antônio. (1)
A água, ali, corria em jorros. Podia debruçar-me...
Podia beber como se eu fora um animal e, prostrado, não mais
de joelhos, mas
de rastros, imploraria a graça de Deus.
Achei a água corrente, a água límpida visitada
pela luz do sol e estirei-me no
chão...
Mas, no momento preciso em que meus lábios sequiosos tocaram
o líquido
puro, apenas o ouro, o ouro apareceu...
Reconheci haver descido à condição de um alienado
mental.
Lembrei-me, então, de velho amigo... Cícero Pereira...
(2)
Cícero era espírita e, por esse motivo, tornou-se para
mim alguém que eu
supunha, em minha triste cegueira, haver deixado na retaguarda da loucura.
Bastou a recordação para que a voz dele se me fizesse
ouvida.
Acudia-me ao chamado.
(1) Refere-se o comunicante
a um dos bairros da cidade de Belo Horizonte. -
Nota do organizador.
(2) Reporta-se a Cícero Pereira, batalhador da Causa Espírita,
em Minas Gerais,
cuja palavra figura também neste livro.
- Nota do organizador.
Amparou-me.
Conversou comigo.
Depois de algumas horas de esclarecimento, que eu não pude aquilatar
com
segurança, trouxe-me para junto de vós.
Sobre a mesa que vos serve, depararam-se-me folhas impressas que me
pareceram cédulas valiosas.
Esforcei-me por fixar o Evangelho que compulsáveis no estudo,
mas,
contemplando o Livro Divino, nele identifiquei apenas um livro de cheques...
Não obstante atordoado, registrei-vos a palavra consoladora.
Fui socorrido.
De imediato, quase nada pude reter de vossos apelos e ensinamentos.
Contudo, depois de alguns dias, o benefício das exortações
recebidas renovou-
me o íntimo e, de amigos espirituais que presentemente me ajudam
a recuperação,
aceitei a incumbência de lidar com os associados de meu pretérito,
velhos
conhecidos e amigos que manejam o dinheiro do mundo, para, através
deles, algo
realizar que me possa refazer a esperança..
Desde então, tenho falado em espírito, com mais de mil
pessoas, com mais de
mil depositantes de ouro e preciosidades, suplicando atenção
para a caridade...
Entretanto, qual aconteceu com as sentinelas da vida espiritual que
me
buscavam noutro tempo, tenho visto apenas ouvidos de mármore,
cabeças de pedra
e corações de gelo.
Somente agora, nesta semana, atingi um grande resultado.
Aproximei-me, com êxito, de um homem que guardava algumas economias.
Pude abeirar-me dele e dar-lhe um pensamento:
- "Oferecer um cobertor a uma viúva pobre." Ele acatou
a sugestão.
Comprou o cobertor e, em minha companhia, ele mesmo entregou essa esmola
de agasalho a quem tinha frio!...
Então, pela primeira vez, depois da morte, uma nova alegria brotou
de
minhalma!...
Tenho hoje a ventura de crer que as visões do ouro terrestre
ficarão para trás...
Doravante, espalharei, de coração erguido a Jesus, o ouro
do trabalho, o ouro do
pão, o ouro da água, o ouro da prece...
O Senhor, que esses fios de algodão, dados de boa-vontade, me
envolvam
também agora!...
Sejam eles o primeiro sinal de minha definitiva renovação,
a luz da prece de
reconhecimento que venho, feliz, partilhar convosco!...
Senhores, muito obrigado!
Que Deus vos recompense ....
F.
17
NA VIAGEM DO MUNDO
Na noite de 1º de
julho de 1954, o Grupo recebeu a visita de Dalva de Assis,
abnegada orientadora espiritual das tarefas doutrinárias de alguns
dos
componentes de nossa agremiação.
Com a sua palavra encantadora e simples, mostrou-nos como a sombra lança
mão de vários subterfúgios para embaraçar-nos
o passo, na conquista do
aprimoramento espiritual, despertando-nos, ao mesmo tempo, para a rota
cristã, a
fim de que não nos falte a bússola da bondade e da fé,
com a qual encontraremos o
porto da Luz e da Verdade.
"Quem me segue não
anda em trevas..." - prometeu-nos o Eterno Amigo.
Se avanças, assim, em companhia do Mestre, sob o nevoeiro do
mundo, muitas
vezes serás interpelado pela sombra, através daqueles
que te palmilham a senda.
Em plena estrada, dir-te-á pelo rebelde!
- Perdão é
covardia.
O ódio alimenta.
Incendeia o caminho.
Oprime e passa.
Dir-te-á pelo ambicioso:
- Não cogites dos meios para alcançar os fins.
Dar é tolice.
O interesse acima de tudo.
Mais vale um vintém na Terra que um tesouro nos Céus.
Exclamará para
os teus ouvidos pela boca dos viciosos:
- Nada além da carne.
Come e bebe.
Goza o dia.
Embriaga-te e esquece.
Exortar-te-á pelo
usurário:
- Não desdenhes a bolsa farta.
Serviço é privilégio da ignorância.
Migalha bem furtada, riqueza justa.
Ajuda a ti mesmo, antes que os outros te desajudem.
Dir-te-á pelo pessimista:
- Nada mais a fazer.
Que te importa o destino?
Não vale a pena...
Tudo é ilusão.
Exortar-te-á pelos
filhos do orgulho:
- Jamais te humilhes.
O mundo é teu.
Nada além de ti mesmo.
Vence e domina.
Em teu santuário
de serviço, dir-te-á pelo chefe:
- Não reclames.
Obedece e cala-te.
Estou fatigado...
Não me perturbes.
Pela voz do subordinado,
gritará, inquietante:
- Não te aproximes.
Não te suporto.
Pagar-me-ás a injustiça.
Maldito sejas.
E acentuará pela
boca do companheiro:
- Desaparece.
Não me aborreças.
Estou farto.
A culpa é tua...
Em casa, dir-te-á
pelos mais amados:
- És a nossa vergonha.
Enlouqueceste...
Que fizeste de nós?
Não passas de um fraco...
Mas, no imo dalma, escutarás
a palavra do Senhor, na acústica do coração:
- Brilhe tua luz.
Ama sem exigência.
Serve a todos.
Ampara indistintamente.
Não desesperes.
Tem bom ânimo.
Ora pelos adversários.
Ajuda a quem te calunia.
Perdoa setenta vezes sete.
A quem te pedir a túnica, oferece também a capa.
Ao que te pedir a jornada de mil passos, caminha com ele dois mil.
Renúncia é conquista.
A dor é bênção.
Sacrifício é glória.
O trabalho é superação.
A luta é pão da vida.
A cruz é triunfo.
A morte é ressurreição.
Se souberes ouvir o Celeste
Orientador, aprenderás servindo e servirás
amando...
E, reconhecendo a tua condição de simples viajante no
mundo, usarás, cada
dia, a bússola da bondade e da fé, no divino silêncio,
nutrindo a certeza de que
aportarás, amanhã, sob a inspiração de Jesus,
na grande praia da verdade, onde
encontrarás, enfim, a tua Vitória Eterna.
Dalva de Assis
18
DRAMA NA SOMBRA
No encerramento de nossas
atividades na noite de 9 de julho de 1954, tivemos
a presença de Jorge, um irmão que nos era desconhecido
e com quem tomáramos
o primeiro contacto um ano antes.
Mobilizando as faculdades psicofônicas do médium, relatou-nos
o seu "drama
na sombra", oferecendo-nos com ele preciosos elementos de estudo.
Ouvindo-o, lembramos-lhe a primeira manifestação, em julho
de 1953, quando
foi auxiliado por nossos Benfeitores Espirituais, através de
nosso Grupo.
Apresentara-se como um louco. Sustentava a cabeça entre as mãos,
queixando-se desesperadamente, e alegando que trazia o crânio
estilhaçado pela
bala de revólver com que exterminara o próprio corpo e
cujo estampido parecia
eternizar-se dentro de seu cérebro.
Regressando ao nosso Grupo com o presente relato, mostra como age sobre
nós a Lei de Causa e Efeito. Homicida direta e indiretamente
e suicida, torna-se
obsidiado pelas suas vítimas, após o crime em que se comprometeu
na existência
da carne, fazendo-se presa de Espíritos infernais nas regiões
inferiores a que
desceu pelo suicídio e somente consegue reequilibrar-se, assimilando
com boa-
vontade o auxílio que lhe foi prestado pelos Espíritos
Benevolentes e Amigos.
Importante notar que as suas vítimas, com delitos menores, voltam
à
reencarnação antes dele e ser-lhe-ão pais terrestres,
em futuro próximo, para que,
dentro do "carma" elaborado pelo trio, possam os três
caminhar unidos nas
provações expiatórias com que se redimirão
diante da Lei.
Quem agradece com sinceridade
traz aos benfeitores aquilo de melhor que
possui.
Sou pobre vítima do crime e do suicídio que vem depositar
em vossas preces
uma singela flor de gratidão.
No entanto, para comentar o favor recebido, peço permissão
para que minhas
lembranças recuem no tempo.
Corria o ano de 1917 e sentia-me um homem feliz entre os mais felizes.
Era moço, otimista e robusto.
Avizinhava-me dos trinta anos e sonhava a organização
de meu próprio
santuário doméstico.
Anita era minha noiva.
Aqueles que amaram profundamente, guardando, inalteráveis, no
peito, a
primavera das primeiras aspirações, poderão compreender
a floração de esperança
que brilhava em minhalma.
A escolhida de minha mocidade encarnava para mim o ideal da perfeita
mulher.
Preparávamos o futuro, quando um primo, de nome Cláudio,
veio viver em
nossa casa no Rio, à caça de estabilidade profissional
para a juventude,
necessitada de maiores experiências.
Acolhido carinhosamente por meus pais e por mim, e mais moço
que eu próprio,
passou a ser meu companheiro e meu irmão.
O infortúnio, porém, como que me espreitava de perto,
porque Cláudio e Anita,
ao primeiro contacto, pareceram-me transfundidos na ventura de velho
conhe-
cimento.
Pouco a pouco, reconheci que a criatura querida me escapava dos braços
e, mais
que isso, notei que o amigo se erguia em meu adversário, porque
blasonava de
minha perda, ironizando-me a inferioridade física.
No decurso de alguns meses, por mais tentasse distanciá-los discretamente,
Cláudio e Anita estreitavam os laços da intimidade afetiva,
até que fui apeado de
meu projeto risonho - tudo quanto a Terra e a vida me ofereciam de melhor.
Instado para entendimento pela antiga noiva, dela recolhi observações
inesperadas.
Nosso compromisso era apenas ilusão...
Andara mal inspirada...
Eu não representava para ela, em verdade, o tipo ideal do companheiro...
Não seríamos felizes...
Melhor desfazer a aliança amorosa, enquanto o tempo nos favorecia
visão
justa...
Senti-me desfalecer.
Preferia a morte à renúncia.
Entretanto, era preciso sufocar o brio humilhado, asfixiar o coração
e viver...
Para vós outros, semelhantes confidências podem constituir
uma confissão
demasiado infantil, todavia, dela necessito para salientar o benefício
recolhido em
nossas preces.
Recalquei o sofrimento moral.
Escoaram-se os dias.
Cláudio era filho adotivo de nossa casa, comensal de nossa mesa.
Sentindo-se meu irmão, não suspeitava que um ódio
terrível se me desenvolvia
no coração invigilante.
Meses transcorreram e a gripe, em 1918, castigava a cidade.
Estendera-se a epidemia e Cláudio não lhe resistiu ao
assalto. Caiu sob
invencível abatimento.
Fui-lhe o enfermeiro desvelado, no entanto, mal podia suportar o devotamento
de que o via objeto, por parte da mulher que eu amava.
Não compreendia por que se confiara ela a tamanha versatilidade,
e,
observando-a, firme e abnegada, em torno do rapaz, entreguei-me gradativamente
à
idéia do crime.
Numa noite de febre alta, em que o doente reclamava maiores demonstrações
de paciência e carinho e em que Anita, fatigada, obtivera, enfim,
alguns momentos
de sono, eliminei todas as dúvidas. Á guisa de remédio,
administrei ao enfermo o
veneno que o afastaria para sempre de nós.
Na manhã imediata, um cadáver representava a resposta
de meu despeito às
esperanças da mulher que me preterira.
A morte, contudo, não conseguiu desuni-los, porque Anita, embora
afagada por
mim, fez-se arredia e desconfiada. Parecia procurar em meus olhos a
sombra do
remorso que passara a flagelar-me o coração. E, apática,
desalentada, renunciando
ao porvir, rendeu-se à depressão orgânica, que,
aos poucos, lhe abriu caminho para
o sepulcro.
Revelava-se contente por entregar ao polvo invisível da tuberculose
a taça do
próprio corpo.
Quando me vi sozinho, sem os dois, mergulhei no desânimo e no
arrependimento.
E entre a silenciosa interrogação de meus pais e a tortura
interior que passou a
possuir-me, escutava-lhes a voz, desafiando-me em cada canto:
- Jorge! Jorge! que fizeste? que fizeste de nós? Jorge! Jorge!
Pagarás,
pagarás!...
Os dois fantasmas inexoráveis impeliam-me à morte.
Inútil tentar resistência.
Percebia-os em toda parte, fosse em casa, na via pública ou dentro
de mim...
E o desejo de minha própria exterminação começou
a empolgar-me...
Em dado instante, resolvi não mais me opor à tentação.
Meus pais eram bons, carinhosos e devotados.
Não lhes podia dar o espetáculo de um suicídio
aberto.
Na manhã fatídica, porém, notifiquei à minha
mãe que faria a limpeza na arma
de um amigo.
Ela pediu-me cuidado.
Contemplei-a enternecidamente pela última vez.
Aqueles cabelos brancos rogavam-me que eu vi-vesse!.
Fixei a mesa de escritório em que meu pai, ausente, costumava
trabalhar, e a
figura dele visitou-me a imaginação, induzindo-me à
calma e ao respeito à vida...
Hesitei.
Não seria mais justo continuar sofrendo no mundo para, com mais
segurança,
reparar meus erros?
Entretanto, as acusações, em voz inarticulada, martelavam-me
o cérebro.
- Jorge, covarde! que fizeste de nós?...
Decidi-me sem detença.
Demandei o quarto de dormir e com o revólver emprestado espatifei
meu crânio.
Ah! desde então suspirei por morar no inferno de fogo terrestre
que seria
benigno comparado ao tormento que passei a experimentar!...
Creio hoje que as grandes culpas nos transformam o espírito numa
esfera
impermeável, em cujo bojo de trevas sofremos irremediável
soledade, punidos por
nossa própria desesperação.
Tenho a idéia de que todos os padecimentos se congregavam em
mim.
Desejava ver, possuía olhos, e não via. Propunha-me ouvir
qualquer voz
familiar, identificava meus ouvidos, e não ouvia.
Queria movimentar as mãos e, sentindo-as embora, não conseguia
acioná-las.
Meus pés! Possuía-os, intactos, entretanto, não
podia movê-los.
Achava-me na condição dos mutilados que prosseguem assinalando
a presença
dos membros que a cirurgia lhes arrancou.
Comigo uma vida nova de fome, sede, amargura e remorso passou a
desdobrar-se...
O estampido não tinha fim.
Sempre a bala aniquilando-me a cabeça...
Depois de largo tempo, cuja duração não me é
possível precisar, notei que
vozes sinistras imprecavam contra mim... Pareciam nascer de furnas sombrias
situadas em minhalma...
E sempre envolto na sombra sibilante, sentia um fogo diferente daquele
que
conhecemos na Terra, uma espécie de lava comburente e incessante,
vertendo cha-
mas vivas, a se entornarem de minha cabeça sobre o corpo...
Debalde acariciava o anseio de domir.
Torturava-me a fome, sem que eu pudesse alimentar-me.
Algumas vezes, pressentia que nuvens do céu se transformavam
em temporal...
Guardava a impressão de arrastar-me dificilmente sobre o pó,
tentando recolher
algumas gotas de chuva que me pudessem dessedentar...
Mas, como se eu estivesse vivendo num cárcere inteiriço,
sabia que a chuva
rumorejava por fora sem que eu lograsse uma gota sequer do precioso
líquido.
E, em meio aos tormentos inomináveis, sofria mordidelas e alfinetadas,
quais se
vermes devoradores me atingissem o crânio, carcomendo-me todo
o corpo, a partir
da planta dos pés.
Em muitas ocasiões, monstros horripilantes descerravam-me as
pálpebras que
eu não conseguia reerguer e, como se me falassem através
de pavorosas janelas,
gritavam sarcasmos e palavrões, deixando-me mais desesperado
e abatido.
Sempre aquela sensação da cabeça a esmigalhar-se,
dos ossos a se
desconjuntarem e da mente a obstruir-se, sob o império de forças
tremendas que,
nem de leve, até hoje, minha inteligência poderia definir
ou compreender...
De nada me valiam lágrimas, petitórios, lamentação...
Ansiava pela felicidade de tocar algum móvel de substância
material... Clamava
pela bênção de poder transformar as mãos
numa concha simples, a fim de recolher
algo do pó terrestre e localizar-me por fim...
Assim vivi na condição de um peregrino enovelado nas trevas,
até que alguém
me trouxe ao vosso templo de orações.
Agora que recuperei a noção do tempo, digo-vos que isso
aconteceu
precisamente há um ano...
Pude conversar convosco, ouvir-vos a voz.
O médium que me acolheu, à maneira de mãe asilando
um filho, era um ímã
refrigerante.
Transfundir-me nas sensações de um corpo físico,
de que me utilizava
transitoriamente embora, deu-me a idéia de que eu era uma lâmpada
apagada,
buscando reanimar-me na chama viva da existência que me fora habitual
e cujo
calor buscava reaver desesperadamente.
Depois de semelhante transfusão de forças, observei que
energias novas
fixavam-se-me no espírito, refazendo-me os sentidos normais e,
então, pude
gemer...
Tive a felicidade de gemer como antigamente, de chorar como se chora
no
mundo...
Conduzido a um hospital, recebi tratamento.
Decorridos dois meses, passei a freqüentar-vos o ambiente.
Aprendi a encontrar o socorro da oração e, mais consciente
de mim, indaguei
por Cláudio e Anita.
Obtive a permissão de revê-los.
Oh! prodígio! reencontrei-os enlaçados num lar feliz,
tão jovens quanto antes...
Recém-casados, desfrutavam a ventura merecida... Marido e mulher,
haviam
reconstituido a união que eu furtara...
Aproximei-me deles com imensa emoção.
A noite avançava plena...
Extático, rememorando o pretérito, reconheci que os dois
haviam entrado nas
vibrações radiosas da prece, passando, logo após,
ao sono doce e tranqüilo.
Minha surpresa fez-se mais bela.
Afastando-se suavemente do corpo físico, ambos estenderam-me
os braços, em
sinal de perdão e de amor...
E, enquanto me entregava ao pranto de gratidão, alguém
que está convosco (1),
e é para todos nós uma irmã devotada e infatigável,
anunciou-me aos ouvidos:
- Jorge, o novo dia espera por você. Cláudio e Anita, hoje
reencarnados,
oferecem-lhe ao coração a bênção de
novo abrigo ... Em verdade, você receberá
um corpo castigado, um instrumento experimental em que se lançará
à recuperação
da harmonia... A fim de restaurar-se, sofrerá você como
é justo, mas todos nós, na
ascensão para Deus, não prescindiremos do concurso da
dor, a divina instrutora
das almas... Regozije-se, ainda assim, porque, neste santuário
de esperança e
ternura, será você amanhã o filho abençoado
e querido!...
Despedi-me, radiante.
E agora, tomado de fé viva, trago-vos a mensagem de meu reconhecimento.
Oxalá possa eu merecer a graça de um corpo torturado e
doente, em que,
padecendo, me refaça e em que, chorando, me reconforte...
Sei que, para as minhas vítimas do passado e benfeitores do presente,
serei
ainda um fardo de incerteza e lágrimas, contudo, pelo trabalho
e pela oração,
encontraremos, enfim, o manancial do amor puro que nos guardará
em sublime
comunhão para sempre.
Amigos, recebei minha ventura!
Para exprimir-vos gratidão nada tenho... Mas, um dia, estaremos
todos juntos
na Vida Eterna e, com o amparo divino, repetirei convosco a inesquecível
invocação
desta hora: "Que Deus nos abençoe!. .
(1) O comunicante refere-se
ao Espírito Meimei. - Nota do organizador.
Jorge
19
ALERGIA E OBSESSÃO
A noite de 15 de julho
de 1954 trouxe-nos a alegria do primeiro contacto com o
Espírito do Doutor Francisco de Menezes Dias da Cruz, distinto
médico e denodado
batalhador do Espiritismo, que foi Presidente da Federação
Espírita Brasileira, no
período de 1889 a 1895, desencarnado em 1937.
Tomando as faculdades psicofônicas do médium, pronunciou
a palestra aqui
transcrita, que consideramos precioso estudo em torno da obsessão.
Subordinando o assunto ao tema "alergia e obsessão",
elucida-nos sobre a
maneira pela qual facilitamos a influenciação das entidades
Infelizes ou inferiores
em nosso campo físico, desde as mais simples perturbações
epidérmicas aos casos
dolorosos de avassalamento psíquico.
Quem se consagra aos
trabalhos de socorro espiritual há de convir, por certo,
em que a obsessão é um processo alérgico, interessando
o equilíbrio da mente.
Sabemos que a palavra "alergia" foi criada, neste século,
pelo médico vienense
Von Pirquet, significando a reação modificada nas ocorrências
da hipersensibilidade
humana.
Semelhante alteração pode ser provocada no campo orgânico
pelos agentes
mais diversos, quais sejam os alimentos, a poeira doméstica,
os polens das plantas,
os parasitos da pele, do intestino e do ar, tanto quanto as bactérias
que se
multiplicam em núcleos infecciosos.
As drogas largamente usadas, quando em associação com
fatores protéicos,
podem suscitar igualmente a constituição de alérgenos
alarmantes.
Como vemos, os elementos dessa ordem são exógenos ou endógenos,
isto é,
procedem do meio externo ou interno, em nos reportando ao mundo complexo
do
organismo.
A medicina moderna, analisando a engrenagem do fenômeno, admite
que a
ação do anticorpo sobre o antígeno, na intimidade
da célula, liberta uma substância
semelhante à histamina, vulgarmente chamada substância
"H", que agindo sobre
os vasos capilares, sobre as fibras e sobre o sangue, atua desastrosamente,
ocasio-
nando variados desequilíbrios, a se expressarem, de modo particular,
na dermatite
atípica, na dermatite de contacto, na coriza espasmódica,
na asma, no edema, na
urticária, na enxaqueca e na alergia sérica, digestiva,
nervosa ou cardiovascular.
Evitando, porém, qualquer preciosismo da técnica científica
e relegando à
medicina habitual o dever de assegurar os processos imunológicos
da integridade
física, recordemos que as radiações mentais, que
podemos classificar por agentes
"R", na maioria das vezes se apresentam, na base de formação
da substância "H",
desempenhando importante papel em quase todas as perturbações
neuropsíquicas
e usando o cérebro como órgão de choque.
Todos os nossos pensamentos definidos por vibrações, palavras
ou atos,
arrojam de nós raios específicos.
Assim sendo, é indispensável curar de nossas próprias
atitudes, na autodefesa
e no amparo aos semelhantes, porqüanto a cólera e a irritação,
a leviandade e a
maledicência, a crueldade e a calúnia, a irreflexão
e a brutalidade, a tristeza e o
desânimo, produzem elevada percentagem de agentes "R",
de natureza destrutiva,
em nós e em torno de nós, exógenos e endógenos,
suscetíveis de fixar-nos, por
tempo indeterminado, em deploráveis labirintos da desarmonia
mental.
Em muitas ocasiões, nossa conduta pode ser a nossa enfermidade,
tanto
quanto o nosso comportamento pode representar a nossa restauração
e a nossa
cura.
Para sanar a obsessão nos outros ou em nós mesmos, é
preciso cogitar dos
agentes "R" que estamos emitindo.
O pensamento é força que determina, estabelece, transforma,
edifica, destrói e
reconstrói.
Nele, ao influxo divino, reside a gênese de toda a Criação.
Respeitemos, assim, a dieta do Evangelho, procurando erguer um santuário
de
princípios morais respeitáveis para as nossas manifestações
de cada dia.
E, garantindo-nos contra a alergia e a obsessão de qualquer procedência,
atendamos ao sábio conselho de Paulo, o grande convertido, quando
adverte aos
cristãos da Igreja de Filipos:
- "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto,
tudo o que é nobre, tudo o
que é puro, tudo o que é santo, seja, em cada hora da
vida, a luz dos vossos pensa-
mentos. "
Dias da Cruz
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EM MARCHA
No encerramento das nossas
atividades, na noite de 22 de julho de 1954, fomos
brindados com a presença do Espírito do Doutor Geminiano
Brazil de Oliveira Góis,
notável e digno advogado e político sergipano, desencarnado
no Rio de Janeiro, em
1904, que, em se consagrando ao Espiritismo, testemunhou a sua fé
sem
hesitações, transformando-se em valoroso lidador do Cristo,
a serviço da Hu-
manidade.
A mensagem psicofônica que nos deixou é uma bela adverténcia
aos espíritos
encarnados, notadamente a nós, os espiritistas, convidando-nos
a considerar o
valor do tempo em nossa romagem terrena, para que nos situemos em melhores
condições no Plano Espiritual.
É justo não
esquecermos que ainda somos seres em crescimento evolutivo,
para retirarmos do tempo os valores e as vantagens imprescindíveis
à nossa
ascensão.
A romagem no campo físico é a vida espiritual noutro modo
de ser, tanto quanto
a luta, aquém da morte, é a continuação
do aprendizado terrestre numa expressão
diferente.
Analisando a imensidade infinita dos mundos, agrupamo-nos na Terra em
singela faixa vibratória, assim como determinada coletividade
de pássaros da
mesma condição se congregam num trecho de floresta, ou
como certa família de
rãs, a reunir-se no fundo do mesmo poço.
Condicionados pelo nosso progresso reduzido, não assinalamos
da gloriosa
vida que nos cerca senão ínfima parte, adstritos que nos
achamos às estreitas
percepções do padrão sensorial que nos é
próprio.
Com o corpo de carne, somos tarefeiros do mundo, matriculados na escola
da
experiência predominantemente objetiva, desfrutando um instrumento
precioso, qual
seja o veículo denso, em que o cérebro, com todos os implementos
das redes
nervosas, pode ser comparado a um aparelho radiofônico de emissão
e recepção,
funcionando no tipo de onda inferior ou superior a que nos ajustamos,
e em que os
olhos, os ouvidos, a língua, as mãos e os pés representam
acessórios de trabalho,
subordinados ao comando da mente.
Além da morte, sem o vaso carnal, ainda somos tarefeiros do mundo,
fichados
no educandário da experiência predominantemente subjetiva,
registrando os resul-
tados das ações boas ou más, que nos decidimos
a mentalizar e estender.
Aprisionando-nos à carne ou libertando-nos dela, nascendo, morrendo,
ressurgindo ao esplendor da imortalidade ou reaparecendo na sombra do
Planeta,
segundo a conceituação humana, vivemos em marcha incessante
para os
arquétipos que a Eternidade nos traçou e que nos cabe
atingir.
Vós, que tendes encontrado em nossa companhia tantos problemas
dolorosos
de fixação mental nos Espíritos conturbados e sofredores,
considerai conosco a im-
portância do dia que foge.
Temos da vida tão-somente aquilo que recolhemos das horas.
O tempo é a sublimação do santo, a beleza do herói,
a grandeza do sábio, a
crueldade do malfeitor, a angústia do penitente e a provação
do companheiro que
preferiu acomodar-se com as trevas.
Dele surgem o céu para o coração feliz do bom trabalhador
e o inferno para a
consciência intranqüila do servidor infiel.
Façamos de nossa tarefa, qualquer que ela seja, um cântico
de louvor ao
trabalho, à fraternidade e ao estudo.
Sirvamos, amemos e aprendamos!
Dilatemos o horizonte de nossa compreensão, arejando nossas almas
e
filtrando apenas a luz para que a luz nos favoreça.
E quanto a vós, em particular, vós que ainda detendes
a valiosa oportunidade
de contacto com o indumento físico, evitai, ainda hoje, a ingestão
do mal, para não
digerirdes lodo e fel amanhã.
Geminiano Brazil
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