INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO
XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC
Homenagem do "Grupo Meimei"
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UMA LIÇÃO
Na reunião da noite de
2 de setembro de 1954, no momento habitual das
instruções, fomos surpreendidos com a visita de Joaquim,
um irmão cuja identidade
não nos é possível fornecer.
Apreciando-lhe o comunicado, será Interessante recordar que,
algum tempo
antes, fora socorrido em nossa agremiação.
Surgira revoltado e infeliz. Dizia-se molestado por fortes jatos de
água fria e
alegava estar sendo dissecado vivo numa aula de medicina anatômica.
Afirmava
sentir pavoroso sofrimento e lembramo-nos perfeitamente de que repetia,
a cada
passo, entre lágrimas:
- "Como é possível aplicar semelhante procedimento
a um homem vivo? Não
há justiça na Terra?"
Regressando ao nosso Grupo na noite referida, Joaquim esclareceu-nos
por
que sofrera a pena de talião em toda a sua dureza de "olho
por olho e dente por
dente", fazendo-nos sentir que nos reencarnamos para crescer em
virtude e
entendimento, cabendo-nos a obrigação de praticar o bem,
dentro de todas as
possibilidades ao nosso alcance, para renovarmos as causas que preponderam
em
nosso destino, segundo a Lei de Causa e Efeito.
Realmente, a palestra de Joaquim é uma preciosa lição
para nós todos,
convidando-nos a aproveitar, com o máximo de nossa boa-vontade
e de nossas
forças, a presente romagem que desfrutamos na Terra.
Há meses, abrigastes meu
Espírito em vossa estação de pronto-socorro
espiritual.
E volto para trazer-vos notícias.
Simples é o meu caso.
Entretanto, é uma lição e todas as lições
que falam de perto aos vivos
acordados depois da morte certamente interessam aos que jazem, por enquanto,
adormecidos na carne.
Minha derradeira máscara física era a de um pobre homem,
que tombou na via
pública, num insulto cataléptico.
Tão pobre que ninguém lhe reclamou o suposto cadáver.
Conduzido à laje úmida, não consegui falar e nem
ver, contudo, não obstante a
inércia, meus sentidos da audição e do olfato,
tanto quanto a noção de mim mesmo,
estavam vigilantes.
Impossível para mim descrever-vos o que significa o pavor de
um morto-vivo.
Depois de muitas horas de expectação e agonia moral, carregaram-me
seminu
para a câmara fria.
Suportei o ar gelado, gritando intimamente sem que a minha boca hirta
obedecesse.
Não posso enumerar as horas de aflição que me pareceram
intermináveis.
Após algum tempo, fui transportado para certo recinto, em que
grande turma de
jovens me cercou, em animada conversação que primava pela
indiferença à minha
dor.
Inutilmente procurei reagir.
Achava-me cego, mudo e paralítico...
Assinalava, porém, as frases irreverentes em torno e conseguia
ajuizar, quanto
à posição dos grupos a se dispersarem junto de
mim...
Mais alguns minutos de espera ansiosa e senti que lâmina afiada
me rasgava o
abdômen.
Protestei, com mais força, no imo de minhalma, no entanto, minha
língua jazia
imóvel.
Tolerando padecimentos inenarráveis, observei que me abriam o
tórax e me
arrebatavam o coração para estudo.
Em seguida, um choque no crânio para a trepanação
fez-me perder a noção de
mim mesmo e desprendi-me, enfim, daquele fardo de carne viva e inerte,
fugindo
horrorizado qual se fora um cão hidrófobo, sem rumo...
Não tenho palavras para expressar a perturbação
a que me reduzira.
E, até agora, não sou capaz de imaginar, com exatidão,
as horas que despendi
na correria martirizante.
Trazido, porém, à vossa casa, suave calor me regenerou
o corpo frio.
Escutei as vossas advertências e orações...
E braços piedosos de enfermeiros abnegados conduziram-me de maca
a um
hospital que funciona como santa retaguarda, além do campo em
que sustentais
abençoada luta.
Banhado em águas balsâmicas, aliviaram-se-me as dores.
Transcorridos alguns dias, implorei o favor de vir ao vosso núcleo
de prece,
solicitando-vos cooperação para que todos os cadáveres,
constrangidos aos
tormentos da autópsia, recebessem, por misericórdia, o
socorro de injeções
anestésicas, antes das intervenções cirúrgicas,
para que as almas, ainda não
desligadas, conseguissem superar o "pavor cadavérico"
que, depois da morte, é
muito mais aflitivo que a própria morte em si.
Em resposta, porém, à minha alegação, um
de vossos amigos - que considero
agora também por meus amigos e benfeitores -, numa simples operação
magné-
tica, mergulhou-me no conhecimento da realidade e vi-me, em tempo recuado,
envergando o chapéu de um mandarim principal...
O rubi simbólico investia-me na posse de larga autoridade.
Revi-me, numa noite de festa, determinando que um de meus companheiros,
por mero capricho de meu orgulho, fosse lançado em plena nudez
num pátio
gelado...
Ao amanhecer, recomendei lhe furtassem os olhos.
Mandei algemá-lo qual se fora um potro selvagem, embora clamasse
compaixão...
Impassível, ordenei fosse ele esfolado vivo...
Depois, quando o infeliz se debatia nas vascas da morte, decidi fosse
o seu
crânio aberto, antes de entregue aos abutres, em pleno campo...
Exigi, ainda, lhe abrissem o abdômen e o tórax...
Reclamei-lhe o coração numa bandeja de prata...
O toque magnético impusera-me o conhecimento de minha dívida.
As reminiscências de sucessos tão tristes confortavam-me
e humilhavam-me ao
mesmo tempo.
Em pranto, nas fibras mais íntimas, indaguei dos mentores que
me cercavam:
- Será, então, a justiça assim tão implacável?
Onde o amor nos fundamentos
da vida?
Alguém que para vós aqui se movimenta, à feição
de generosa mãe de todos
(1), explicou-me com bondade:
- Amigo, viveste na indiferença e a ociosidade atrai sobre nós,
com mais
pressa, as conseqüências de nossas faltas. É por essa
razão que a justiça funciona
matematicamente para contigo, já que não chamaste a luz
do amor ao campo de
teu destino.
Compreendi, então, que se houvesse amado, cultivando a árvore
da
fraternidade, decerto que outras sementes, outras energias e outros
recursos teriam
interferido em minha grande tragédia, atenuando-me o sofrimento
indescritível.
É por isso que, como lembrança, trago-vos a lição
do meu passado-presente
com a afirmação de que tudo farei para aproveitar os favores
que estou recolhendo,
recordando a vós outros - e talvez seja este o único ponto
valioso de minha
humilde visitação - a palavra
(1) O comunicante refere-se a
Meimei. - Nota do organizador.
do Evangelho, quando nos deixa
entrever que só o amor é capaz de cobrir a
multidão de nossos pecados.
Que a humildade e o serviço, a boa-vontade e as boas obras nos
orientem o
caminho, porque, com semelhante material, edificaremos o elevado destino
que nos
aguarda no grande porvir, para exaltar a justiça consoladora
- a justiça que é
também misericórdia de Nosso Pai.
Joaquim
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BOM AVISO
Rematando as nossas tarefas, na
noite de 9 de setembro de 1954, José Xavier,
nosso amigo espiritual, senhoreou as faculdades psicofônicas do
médium,
passando a conversar conoscO em versos.
Alguns de nossos companheiros, antes da reunião, haviam encaminhado
a
palavra, em nosso templo de preces, para assuntos menos edificantes,
relacionando queixumes e reprovações com apontamentos
picantes de permeio.
José Xavier, contudo, veio ao nosso encontro, e, alertando-nos
para os nossos
deveres, deixou-nos a excelente advertência que ficou intitulada
"Bom Aviso".
Meus irmãos, em benefício
De nossas reuniões,
Preparando as nossas preces,
Lavemos os corações.
Já que na Terra é
difícil
Viver sem o "leva-e-traz",
Pelo menos, por minutos,
Preservemos nossa paz.
Alcançando as seis da tarde,
Para que o mal nos esqueça,
Desinfetemos a boca
E arejemos a cabeça.
Se a discussão nos procura
Com razão ou sem razão,
Pronunciemos palavras
De bondade e de perdão.
Se a política exigir-nos
Opiniões e contatos,
Oremos na paz de Deus
Por todos os candidatos.
Risinhos e anedotários
Com pimenta malagueta,
Situemos, sem alarde,
No silêncio da sarjeta.
Aflições da parentela
E chagas do pensamento
Resguardemos, apressados,
No cesto do esquecimento.
Censuras, reprovações,
Orgulho, mágoa e capricho,
Conservemos, com cuidado,
No depósito de lixo.
Ante as doenças e as provas
Guardemos conformação,
Tratando-as, sem desespero,
Na farmácia da oração.
Finda a tarefa, porém,
Na jornada costumeira,
Cada qual lavre o seu campo
E viva à sua maneira.
Entretanto, relembremos,
Em nossas lutas e tratos,
Que sempre receberemos
De acordo com os nossos atos.
Quanto ao mais, Deus nos perdoe,
Socorrendo a nossa fé.
É a bênção que vos deseja
O vosso mano José.
José Xavier
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PALAVRAS DE AMIGO
Na fase terminal da nossa reunião,
na noite de 16 de setembro de 1954, os
recursos psicofônicos do médium foram ocupados pelo nosso
amigo Queiroz, que
foi abnegado médico em Belo Horizonte e cuja personalidade não
podemos
identificar, de todo, por motivos justos.
Conhecemo-lo pessoalmente.
Homem probo e digno, fizera da Medicina verdadeiro sacerdócio.
Dedicava-se
aos clientes e partilhava-lhes as dificuldades e sofrimentos, qual se
lhe fossem
irmãos na ordem familiar.
Apenas 28 dias depois de desencarnado, com o amparo de Amigos Espirituais
viera pela primeira vez ao nosso Grupo. Parecia despertar de longo sono
e sentia-
se ainda no corpo de carne. Reconhecia-se consciencialmente, mas julgava-se
ainda em estado comatoso e, por isso, orava com encantadora fé
e em voz alta
pelos enfermos que lhe recebiam cuidados, confiando-os a Deus. Passando
a
conversar conosco e assistido magneticamente pelos Benfeitores Espirituais
de
nosso templo, despertou para a verdade em comovente transporte de alegria.
Lembramo-nos, perfeitamente, de ouvi-lo dizer, tão logo se observou
redivivo:
- "Então, a morte é Isto? uma porta que se fecha
ao passado e outra que se
abre ao futuro?"
Passou, de imediato, a ver junto de si antigos clientes desencarnados
que lhe
vinham demonstrar gratidão e, com inesquecíveis expressões
de amor a Jesus,
despediu-se, contente, deixando-nos agradecidos e emocionados.
Voltando ao nosso círculo de ação, felicitou-nos
com a presente mensagem que
bem lhe caracteriza o elevado grau de entendimento evangélico.
Sou daqueles que precisaram morrer
para enxergar com mais segurança.
A experiência terrestre é comparável a espessa cortina
de sombra, restringindo-
nos a visão.
E, em mim, o dever do médico eclipsava a liberdade do homem,
limitando
observações e digressões.
Contudo, vivi no meu círculo de trabalho com bastante discernimento
para
identificar os profundos antagonismos de nossa época.
Insulado nas reflexões dos derradeiros dias no corpo, anotava
as vicissitudes e
conflitos do espírito humano, entre avançadas conquistas
científico-sociais e os
impositivos da própria recuperação.
Empavesado na hiperestrutura da inteligência, nosso século
sofre aflitiva sede
de valores morais para não descer a extremos desequilíbrios,
e a existência do
homem de hoje assemelha-se a luxuoso transatlântico, navegando
sem bússola.
Por toda parte, a fome de lucros ilusórios, a indústria
do prazer, a desgovernada
ambição, o apetite insaciável de emoções
inferiores e a fuga da responsabilidade
exibem tristes espetáculos de perturbação, obrigando-nos
a reconhecer a
necessitade de fé renovadora para o cérebro das elites
e para o coração das
massas sem rumo.
Daqui, portanto, é fácil para nós confirmar agora
que o mundo moderno está
doente.
E o clínico menos atilado perceberá sem esforço
que o diagnóstico deve ser
interpretado como sendo carência de Deus no pensamento da Humanidade,
estabelecendo crises de caráter e confiança.
Apagando o personalismo que eu trouxe da Terra, descobri, estudando
em
vossa companhia, que somente o Cristo é o médico adequado
à cura do grande
enfermo e que só o Espiritismo, revivendo-lhe as lições
divinas, é-lhe a medicação
providencial.
Segundo vedes, sou apenas modesto aprendiz da grande transformação.
Entretanto, quanto mais se me consolidam as energias, mais vivo é
o meu
deslumbramento, diante da verdade.
A luz que o Senhor vos deu e que destes a mim alterou-me visceralmente
a
feição pessoal.
Sou, presentemente, um médico tentando curar a si mesmo.
Minhas aquisições culturais estão reduzidas a chama
bruxuleante que me
compete reavivar.
Meus préstimos, por agora, são nulos.
Mas, revive-se-me a esperança e, abraçando-vos, reconhecido,
entrego-me ao
trabalho do recomeço...
Glória ao Senhor que nos ilumina o caminho espiritual!
É assim, reanimado e fortalecido, que aceito, agora, o serviço
e a solidariedade
sob novo prisma, rogando a Jesus nos abençoe e caminhando convosco
na
antevisão do glorioso futuro.
Queiroz
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CONSCIÊNCIA FERIDA
Na noite de 23 de setembro de
1954, recebemos pela segunda vez a presença
de Maria da Glória, uma entidade sofredora que se devota agora
à nossa casa.
Regressando ao nosso círculo de orações com a palavra
falada, trouxe-nos,
nessa noite, a sua história comovente, que passamos a transcrever.
Meus amigos.
Deus nos ampare.
Depois de minha primeira visita, eis que torno à vossa casa,
que funcionou para
mim como um ninho de socorro e um tribunal de justiça.
Mulher padecente, trazia enlaçado a mim, qual se fora erva sufocante
sobre
árvore ferida, o espírito revoltado de meu próprio
filho, cuja reencarnação impedi,
num processo de aborto, no qual, por minha vez, perdi a existência.
Leviana e surda ao dever, adquiri compromissos com a maternidade,
detestando-a.
E, por odiar o rebento que me palpitava no seio, procurei destruí-lo,
usando
venenosa beberagem que igualmente me furtou a vida corpórea.
Entretanto, se supunha que a morte fosse um ponto final à minha
tragédia
íntima, estava profundamente enganada, porque da poça
de sangue a que se me
reduziram os despojos, levantou-se, diante de mim, uma sombra acusadora.
A princípio, dessa nuvem amorfa nascia o choro incessante de
uma criança
recém-nata.
Tentando emudecer aqueles vagidos angustiosos, inutilmente rezei, usando
orações decoradas na infância...
A nuvem, porém, jazia algemada ao meu próprio peito, através
de laços cuja
consistência ainda hoje não posso definir.
Abandonei, amedrontada, o meu aposento de mulher solteira e, esquecendo
o
culto do prazer a que me dedicara, procurei fugir, como se eu pudesse
escapar de
mim mesma.
Perdi a idéia de rumo...
Esqueci o calendário.
De minha memória desapareceu a noção de tempo.
Guardava a consciência de
que a nuvem e eu corríamos sem cessar...
Houve, contudo, um momento em que a sombra se converteu na forma de
um
homem, que me perseguia, amaldiçoando:
- Desnaturada! Assassina!... Assassina!...
Anelei, assim, depois da morte, a vinda de outra morte que me afundasse
no
esquecimento.
Sentindo sede, debruçava-me no charco...
Torturada de fome, atirava-me aos detritos dos animais mortos no campo...
Ah! como será possível alguém adivinhar na Terra,
enquanto a bênção do corpo
físico é uma graça para o Espírito que opera
entre os homens, o tormento da cons-
ciência que edificou em si mesma o inferno que a envolve?
Minha existência passou a ser um suplício constante, terrível,
inominável...
Chegou, todavia, a noite em que, à maneira de náufrago
fatigado, vim dar à
praia de vosso templo.
Mãos amigas apartaram-me da sombra agressiva a que me prendia,
agoniada...
O alívio surgiu, por fim...
Entretanto, de alma conturbada, roguei esclarecimento para o meu desvario,
embora conhecendo a minha culpa de pecadora penitente.
Recebi, de imediato, a resposta.
Um de vossos amigos (1) - justamente aquele que me acompanha aqui, nesta
noite, com fins educativos - submeteu-me a longa intervenção
magnética e,
fazendo com que minhas reminiscências recuassem no tempo, vi-me
no Rio,
menina malnascida, amparada por nobre mulher.
Para ser mais explícita, devo adiantar que essa criatura era
Dona Mariana
Carlota, a Condessa de Belmonte, aia do Imperador Dom Pedro 2º,
ainda criança.
Fui conduzida ao leito de pálida menina enferma, que morria pouco
a pouco...
Essa menina era a Princesa Dona Paula, que se afeiçoou a mim,
com natural
carinho.
Mas, por morte dela, eu ficava aos treze anos novamente desamparada.
No entanto, benfeitores do palácio estenderam-me braços
generosos e fui
mantida em São Cristóvão, na posição
de criada humilde.
Aos vinte de idade, desposei um artesão da Casa Real.
Miguel era o nome de meu marido.
Duas filhas vieram ao nosso encontro.
A tentação dos prazeres carnais, porém, fascinava-me
o espírito inferior.
Foi assim que aceitei a proposta indigna de um homem que me arrancou
do lar
para delituosa aventura.
(1) Refere-se a entidade a um
dos Benfeitores Espirituais que nos assistem as
tarefas. - Nota do organizador.
Na tela de minhas recordações,
surgiu então a noite do dia 4 de setembro de
1843, noite festiva que consagrou o casamento daquele que era o Imperador
do
Brasil.
Mulher moça, esposa e mãe, olvidei minhas obrigações
e fui à procura de quem
passara a ser o adversário de minha felicidade, a fim de receber-lhe
a companhia,
na rua Direita, junto ao Arco do Triunfo, com o qual se comemorava a
grande
cerimônia.
O Rio, nessa data, acolhia a nova imperatriz dos brasileiros.
É necessário me detenha nesses fatos - esclarece o benfeitor
que me auxilia
-, para marcar em nossa lição que o tempo não desaparece
com o passado, conti-
nuando vivo em nosso presente, como estará também vivo
para nós, no grande
futuro...
Na noite a que me reporto, fui surpreendida por meu esposo, numa atitude
de
desconsideração aos compromissos que abraçara.
Miguel não resistiu.
Respondeu-me à loucura com o suicídio.
Transformou-se-me, então, a vida.
Dificuldades sobrevieram.
Enjeitei minhas filhas.
Partilhei o destino do aventureiro que, em seguida àminha irreflexão,
me atirou
ao resvaladouro das mulheres de ninguém...
Entretanto, a sombra de meu companheiro suicida nunca mais se apagou
de
meus passos.
Seguiu-me, não obstante desencarnado, agravou-me as provações
e reuniu-se
a mim, quando me desliguei do corpo de carne, num asilo de alienados
mentais,
depois de atribulada peregrinação pelo meretrício.
Escuros tempos assomaram-me à lembrança.
O caminho expiatório é um trilho de sofrimentos e reparações,
e nós éramos
dois condenados, respirando a escuridão de noite profunda...
Uma noite imensa, povoada de gemidos, de blasfêmias, de dor...
até que
renasci na carne, novamente em corpo de mulher. Amando-me e odiando-me
ao
mesmo tempo, Miguel intentara ser meu filho, contudo, arruinei-lhe os
propósitos,
recusando a maternidade menos feliz, retornando nós dois, desse
modo, às trevas
de onde vínhamos.
Agora, tudo de novo a recomeçar...
Um século, meus amigos...
Um século de um erro a outro erro...
Vede o martírio da mulher que em cem anos nada mais fez senão
transviar-se
por invigilância!
De 1943 até o ano findo, padecimentos novos me exacerbaram a
luta, até que a
prece e o amor me socorreram.
Venho, pois, compartilhar-vos a oração, a fim de que me
renove, de modo a
partir dignamente ao encontro do esposo que buscou reaproximar-se de
mim, na
condição de filho, para, de alguma sorte, ensaiarmos juntos
a jornada reparadora.
Com a presente narrativa, não tenho outro intuito senão
dizer-vos que a vida
está continuando...
Que o trabalho não cessa...
Que o tempo não morre...
E que ai daqueles que caem, porque o soerguimento, muitas vezes, constitui
fogo e fel no coração.
Sou um Espírito em reajuste.
Alguém que vos bate à porta, rogando amparo.
Pobre mulher que fala às outras, avisando-as quanto ao flagelo
que nos
aguarda, cada vez que o nosso coração foge aos princípios
superiores da senda de
elevação...
Expresso-me, assim, porque os homens, até certo ponto, são
produto de nossa
influência e domínio.
Os homens que nos partilham o leito, que se nutrem do pão que
amassamos,
que nos absorvem os pensamentos e que nos ouvem as palavras são
nossos filhos
e nossos irmãos, dependendo de nós para a vitória
da Justiça e do Bem.
Que o Senhor nos dê consciência de nosso mandato! Que as
companheiras
presentes me ajudem com as suas preces, aproveitando igualmente a experiência
aflitiva da mísera irmã que, em se perdendo, há
tanto tempo, ainda não conseguiu
recuperar-se...
Que Deus nos ilumine!...
Maria da Glória
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CORAÇÃO E CÉREBRO
No encerramento das nossas atividades,
na reunião da noite de 2 de outubro de
1954, foi Meimei quem tomou as faculdades psicofônicas do médium,
alertando-nos
para a cultura do coração.
Imaginemos um castelo de prodigiosa
beleza, no cimo da montanha, talhado em
ouro maciço, ostentando torres de cristal, ameias incrustadas
de pérolas e pátios
pavimentados de brilhantes, entre ogivas refulgentes, mas sem água
que lhe
garanta a habitabilidade e alegria.
Ao clarão diurno, faísca de cintilações
e, à noite, assemelha-se a santuário
sublime vestido de prateada luz.
Entretanto, na aridez em que se encrava, reduz-se a solitário
retiro, no qual
somente as aranhas e as serpes da sombra se amontoam, rebeldes e
envenenadas.
Eis, porém, que surge um dia em que de fonte oculta aflora no
palácio um fio
dágua humilde.
E onde havia abandono aparece o pouso agasalhante, cercado de jardins,
substituindo a secura que se enfeitava de pó.
Escorpiões e víboras fogem apressados, ante os hinos do
trabalho e as vozes
das crianças.
Temos nesses símbolos o cérebro supermentalizado e o coração
regenerador.
O raciocínio erguido às culminâncias da cultura,
mas sem a compreensão e sem
a bondade que fluem do entendimento fraterno, pode ser um espetáculo
de
grandeza, mas estará distante do progresso e povoado pelos monstros
das
indagações esterilizantes ou inúteis.
Enriqueçamo-lo, porém, com o manancial do sentimento puro
e a inteligência
converter-se-á, para nós e para os outros, num templo
de sublimação e paz, con-
solo e esperança.
Cultivemos o cérebro sem olvidar o coração.
Sentir, para saber com amor; e saber, para sentir com sabedoria, porque
o amor
e a sabedoria são as asas dos anjos que já comungam a
glória de Deus.
Meimei
TODO CONTEÚDO
DAS ORAÇÕES, MENSAGENS ESPÍRITAS E PSICOGRAFIAS
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