INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC

Homenagem do "Grupo Meimei"

31
UM IRMÃO DE REGRESSO

Os ensinamentos por nós recolhidos, na reunião da noite de 7 de outubro de
1954, constituem, a nosso ver, informações de grande interesse para todos os
companheiros que militam no socorro aos desencarnadOS.
O mensageiro espiritual que nos visitou foi o nosso confrade Efigênio S. Vítor,
antigo trabalhador do Espiritismo em Belo Horizonte, onde, por largos anos,
emprestou as melhores forças à Doutrina que nos reconforta.
Sua palestra psicofônica demonstra com detalhes a carinhosa atenção
prodigalizada por nossos Benfeitores Espirituais aos nossos agrupamentos
doutrinários, porqüanto o que se dá, em nossa agremiação simples e sincera,
acontece em todas as casas espíritas onde o escopo essencial seja o serviço ao
próximo, sob o amparo de nosso Divino Mestre.
Leiamos-lhe a mensagem consoladora e instrutiva.

Espírita militante que fui, muitas vezes, dirigindo sessões mediúnicas, desejei
que algum dos companheiros desencarnados me trouxesse notícias do Além, tão
precisas e claras quanto possível, a começar do ambiente das reuniões que eu
presidia ou das quais partilhava.
Desembaraçado agora do corpo físico, não obstante carregar ainda muitas
velhas imperfeições morais, tentarei comentar nossa paisagem de serviço, no intuito
de fortalecê-los, na edificação que fomos chamados a levantar.
Como não ignoram, operamos aqui em bases de matéria noutra modalidade
vibratória.
Por mercê de Deus, possuímos nossa sede de trabalho em cidade espiritual que
se localiza nas regiões superiores da Terra ou, mais propriamente, nas regiões
inferiores do Céu.
Gradativamente, a Humanidade compreenderá, com dados científicos e
positivos, que há no Planeta outras faixas de vida.
E assim como existe, por exemplo, para o serviço humano o solo formado de
argila, areia, calcário e elementos orgânicos, temos para as nossas atividades o
solo etéreo, em esfera mais elevada, com as suas propriedades químicas especiais
e obedecendo a leis de plasticidade e densidade características.
É de lá, de onde se erguem organizações mais nobres para a sublimação do
espírito e onde a Natureza estua em manifestações mais amplas de sabedoria e
grandeza, que tornamos ao convívio de nossos irmãos encarnados para a
continuação da tarefa que abraçamos no mundo.
Satisfazendo, porém, ao nosso objetivo essencial, aproveitaremos os minutos
de que dispomos para falar-lhes, de algum modo, acerca da tela de nossas ativi-
dades.
Qual ocorre aos demais santuários de nossa fé, orientados pelo devotamento ao
bem, junto aos quais o Plano Superior mantém operosas e abnegadas equipes de
assistência, nossa casa, consagrada à Espiritualidade, é hoje um pequeno mas
expressivo posto de auxílio, erigido à feição de pronto-socorro. Com a supervisão e
cooperação de vasto corpo de colaboradores em que se integram médicos e
religiosos, inclusive sacerdotes católicos, ministros evangélicos e médiuns espíritas
já desencarnados, além de magnetizadores, enfermeiros, guardas e padioleiros,
temos aqui diversificadas tarefas de natureza permanente.
Nossa reunião está garantida por três faixas magnéticas protetoras.
A primeira guarda a assembléia constituída e aqueles desencarnados que se
lhes conjugam à tarefa da noite.
A segunda faixa encerra um círculo maior, no qual se aglomeram algumas
dezenas de companheiros daqui, ainda em posição de necessidade, à cata de
socorro e esclarecimento.
A terceira, mais vasta, circunda o edifício, com a vigilância de sentinelas
eficientes, porque, além dela, temos uma turba compacta - a turba dos irmãos que
ainda não podem partilhar, de maneira mais íntima, o nosso esforço no aprendizado
evangélico. Essa multidão assemelha-se à que vemos, freqüentemente, diante dos
templos católicos, espíritas ou protestantes com incapacidade provisória de
participação no culto da fé.
Bem junto à direção de nossas atividades, está reunida grande parte da equipe
de funcionários espirituais que nos preservam as linhas magnéticas defensivas.
À frente da mesa orientadora, congregam-se os companheiros em luta a que
nos referimos.
E em contraposição com a porta de acesso ao recinto, dispomos em ação de
dois gabinetes, com leitos de socorro, nos quais se alonga o serviço assistencial.
Entre os dois, instala-se grande rede eletrônica de contenção, destinada ao
amparo e controle dos desencarnados rebeldes ou recalcitrantes, rede essa que é
um exemplar das muitas que, da vida espiritual, inspiraram a medicina moderna no
tratamento pelo electrochoque.
E assim organiza-se nossa casa para desenvolver a obra fraterna em que se
empenha, a favor dos companheiros que não encontraram, depois da morte, senão
as suas próprias perturbações.
Assinalando, de maneira fugacíssima, o setor de nossa movimentação,
devemos recordar que, acima da crosta terrestre comum, temos uma cinta
atmosférica que classificamos por "cinta densa", com a profundidade aproximada
de 50 quilômetros, e, além dela, possuímos a "cinta leve", com a profundidade
aproximada de 950 quilômetros, somando 1.000 quilômetros acima da esfera em
que vocês presentemente respiram.
Nesse grande mundo aéreo, encontramos múltiplos exemplares de almas
desencarnadas, junto de variadas espécies de criaturas sub-humanas, em
desenvolvimento mental no rumo da Humanidade.
Milhões de Espíritos alimentam-se da atmosfera terrestre, demorando-se, por
vezes, muito tempo, na contemplação íntima de suas próprias visões e criações,
nas quais habitualmente se imobilizam, à maneira da alga marinha que nutre a si
mesma, absorvendo os princípios do mar.

Meus amigos, para o espírita a surpresa da desencarnação pode ser muito
grande, porque além-túmulo continuamos nas criações mentais que nos inspiravam
a existência do mundo.
O Espiritismo é uma concessão nova do Senhor à nossa evolução
multimilenária.
Surpreendemos em nossa Doutrina vastíssimo campo de libertação, mas
também de responsabilidade profunda, e o maior trabalho que nos compete efetuar
é o de nosso próprio burilamento interior, para que não estejamos vagueando nas
trevas das horas inúteis, pois somente aqueles que demandam a morte,
sustentando maiores valores de aperfeiçoamento próprio, é que se ajustam sem
sacrifício à própria elevação.
Reportando-nos à experiência religiosa, poucos padres aqui continuam padres,
poucos pastores prosseguem pastores e raros médiuns de nossas formações
doutrinárias continuam médiuns, porqüanto os títulos de serviço na Terra envolvem
deveres de realização dos quais quase sempre vivemos em fuga pelo vício de
pretender a santificação do vizinho, antes de nossa própria melhoria, em nos
referindo à construção moral da virtude.
A morte é simplesmente um passo além da experiência física, simplesmente um
passo.
Nada de deslumbramento espetacular, nada de transformação imediata, nada
de milagre e, sim, nós mesmos, com as nossas deficiências e defecções,
esperanças e sonhos.
Por isso, propunha-me a falar-lhes, de algum modo, nesta primeira visita
psicofônica, do compromisso que assumimos, aceitando a nossa fé pura e livre...
porque num movimento renovador tão grande, tão iluminativo e tão reconfortante
quanto o nosso, é muito fácil começar, muito difícil prosseguir e, apenas em
circunstâncias muito raras, somos capazes de conquistar a coroa da vitória para a
tarefa que encetamos.
Somos espíritas encarnados e desencarnados.
À nossa frente, desdobra-se a vida - a vida que precisamos compreender com
mais largueza de pensamento, com mais altura de ideal e com mais sadio interesse
no estudo e na prática da Doutrina que vale em nossa peregrinação por sublime
empréstimo de Deus.
Não se esqueçam de que se é grande a significação de nossa fé, enquanto
viajamos no mundo, a importância dela é muito mais ampla depois de perdermos a
veste fisiológica.
Em outra oportunidade, tornaremos ao intercâmbio. Nossos assuntos são
fascinantes e, em outro ensejo, nossa amizade voltará.
Jesus nos ilumine e abençoe.

Efigênio S. Vítor


32
PALAVRAS DE LUZ

Grande júbilo marcou para nós a noite de 14 de outubro de 1954. Na fase
terminal de nossas tarefas, o Espírito José Xavier, através dos canais psicofônicos,
avisou-nos fraternalmente:
- "Esforcemo-nos por entrelaçar pensamentos e preces, por alguns minutos,
pois receberemos, na noite de hoje, a palavra, distanciada embora, de quem há
sido, para muitos de nós, um anjo e uma benfeitora. Nosso grupo, em sua feição
espiritual, deve permanecer atento. Neste instante, aproximar-se-á de nós, tanto
quanto possível, a grande Teresa d'Ávila e, assim como um grão de areia pode, em
certas situações, refletir a luz de uma estrela, nosso conjunto receber-lhe-á a
mensagem de carinho e encorajamento, através de fluidos teledinãmicos. A mente
do Chico está preparada agora, qual se fosse um receptor radiofônico. Repetirá,
automaticamente, com certa zona cerebral mergulhada em absoluta amnésia, as
palavras de luz da grande alma, cujo nome não ousarei repetir. Rogamos aos
companheiros se mantenham em oração e silêncio, por mais dois a três minutos."
Preparado o grupo, tivemos a felicidade de ouvir a nossa abnegada benfeitora
espiritual, cuja mensagem falada nos atingiu os corações, como sendo sublime
projeção de amor e luz.

Por muito se adiante a alma no tempo, há sempre tempo para que a alma
reconsidere a estrada percorrida, abastecendo-se de esperança no amor daqueles a
quem ama, assim como o viajante no mar provê a si mesmo de água doce, a fim de
seguir à frente.
"Há tempo de semear e tempo de colher" - diz-nos a experiência da Escritura.
E, se juntos partilhamos a promessa, não seria justo olvidarmo-nos uns aos
outros no dia da realização.
"Deixai crescer reunidos o trigo e o joio, até que venha a ceifa" recomendou por
sua vez o Senhor.
Entretanto, a palavra de sua Sabedoria não nos inclina à indiferença. E,
lembrando-a, não curamos de ser o trigo porque hoje nos vejamos fora do escuro
sedimento da carne e nem insinuamos sejais vós o joio por permanecerdes dentro
dela.
Recordamos simplesmente que todos trazemos ainda no campo das próprias
almas o joio da ilusão e o trigo da verdade, necessitados da mercê do Celeste
Cultivador.
Irmãos, não é apenas por regalar-se o espírito na confiança que se lhe
descortinarão as portas da vida glorificada, mas sim por se lhe acendrarem o
conhecimento e a virtude, através do trabalho bem sofrido e da caridade bem
exercitada.
Outrora, buscávamos a paz na quietude do claustro, na suposição de que a
vitória pudesse brilhar a distância da guerra contra as nossas próprias faltas, e
disputávamos a posse do santo sepulcro do Excelso Rei, ao preço de sangue e
lágrimas dos semelhantes, como se lhe não devêssemos o próprio coração por
escabelo aos pés divinos.
Hoje, porém, dispomos de suficiente luz para o caminho e não seria lícito
permutar o pão da sabedoria pelo fel da loucura.
Enquanto os séculos de sombra e impenitência se escoam no pó do mundo,
preparai nesse mesmo pó, erigido em tabernáculo de carne, os séculos futuros, em
que nos reuniremos de novo para a exaltação do triunfo eterno.
Enalteçamos o sacrifício, aprendendo a renunciar para possuir, a perder para
ganhar e a morrer para viver.
Por algum tempo ainda padeceremos o cativeiro das nossas culpas e
transgressões, mas, em breve, aceitando o trilho escabroso e bendito da cruz,
exalçaremos, diante da Majestade Divina, a nossa libertação para sempre.
Que o Senhor seja louvado.

Teresa d'Ávila


33
UM ANTIGO LIDADOR

Encerrando as nossas atividades socorristas na reunião de 21 de outubro de
1954, fomos reconfortados com a visita do Irmão Ernesto Senra, antigo lidador dos
arraiais espiritistas de Minas Gerais.
Foi ele um dos fundadores do "Centro Espírita Amor e Luz", a primeira
organização doutrinária de Pedro Leopoldo, instalada em 5 de fevereiro de 1903,
emprestando, anos mais tarde, sua valiosa colaboração às casas espíritas de Belo
Horizonte.
Sua palavra de companheiro esclarecido e perspicaz denota grande
conhecimento de nossa vida mental e de nossas necessidades doutrinArias,
merecendo, por Isso, a nossa justa atenção.

Imaginai pequena bandeja de papel sobre um ímã.
As partículas de ferro organizar-se-ão, segundo as linhas de força do campo
magnético por ele estabelecido.
Mentalizemos as radiações gravitantes que arremessamos de nós, em torno do
próprio veículo que nos exterioriza. Os órgãos vivos que o constituem reproduzir-
lhes-ão o impulso e a natureza, inclinando-nos ao equilíbrio ou ao desequilíbrio, à
saúde ou à enfermidade.
Nossa mente pode ser comparada a vigorosa usina electromagnética de
emissão e recepção e o nosso corpo espiritual, seja no círculo da carne ou em
nosso presente estágio evolutivo fora dela, é um condensador em que os centros de
força desempenham a função de baterias e em que os nervos servem por fios
condutores, transmitindo-nos as emanações mentais e absorvendo-as, em primeira
mão, de conformidade com a lei de correspondência ou de fluxo e refluxo.
No exame de quaisquer perturbações, é indispensável o serviço de auto-análise
para conhecer a onda vibratória em que nos situamos e a fim de ponderar quanto
aos elementos que estamos atraindo.
Isso é de fundamental importância no estudo de nossas impressões orgânicas,
porque, provocando os eflúvios mórbidos das entidades enfermas que se nos asso-
ciam ao mundo psíquico, já estamos consumindo esses mesmos eflúvios,
originariamente produzidos por nosso próprio pensamento, colocando-nos em
ligação indesejável com os habitantes da sombra.
Através de nossas radiações, favorecemos a eclosão ou o desenvolvimento de
moléstias aflitivas, como sejam a neurastenia e a debilidade, a epilepsia e a loucura,
a paralisia e a angina, a tuberculose e o câncer, sem nos reportarmos às doenças
menores, catalogadas nos quadros da sintomatologia comum.
Referimo-nos, porém, ao assunto, não para pesquisar os raios da treva, de cuja
intimidade precisamos distância.
Tangemos a questão, destacando o impositivo de trabalho para os nossos
setores doutrinários, no campo do Espiritismo, de modo a cunharmos novos
padrões para nossas atitudes e atividades, criando um estado de consciência
individual e coletiva, em que preponderem a saúde e a harmonia, a compreensão e
a tolerância, a bondade e o otimismo, o altruísmo e a fortaleza moral.
A cada passo, somos defrontados por grupos de nossa Doutrina que mais se
assemelham a muros de lamentação, repletos de petitórios e necessidades, quando
possuímos em nosso movimento toda uma fonte de bênçãos renovadoras e dons
divinos, à feição de ricos potenciais, mobilizáveis na concretização de nosso idealis-
mo com Jesus.
Compete-nos, dessa forma, acionar as energias ao nosso alcance para que a
nossa tarefa não se converta em graciosa colheita de conforto particularista, mas
sim numa campanha viva e ativa de valores educacionais, porqüanto o Espiritismo
envolve em si mesmo o mais vasto empreendimento de espiritualização até agora
surgido no mundo.
Valioso é o nosso patrimônio doutrinário. Mas, se o tesouro permanece
aferrolhado no cofre das teorias inoperantes, em verdade perderemos no século
oportunidade das mais preciosas, expressa no ensejo de nossa própria edificação
ao sol do Cristianismo redivivo.
Em nossa posição de associados de luta, encontramos também doutrinadores
sempre ágeis na ministração do ensinamento, com imensa dificuldade de assimilá-
los a si mesmos; companheiros que exaltam a paciência, conservando o coração à
maneira dum poço de irascibilidade e de orgulho; irmãs que se reportam à
humildade, transformando o lar que o Senhor lhes confia em trincheira de guerra
contra os próprios familiares, e amigos que glorificam a lição do Mestre, salientando
o impositivo da bondade e do perdão, com absoluta incapacidade de suportar os
irmãos da retaguarda.
Cabe-nos, assim, modelar recursos e iniciativas que aperfeiçoem não apenas os
nossos corações, mas também nossas casas de trabalho, a se fundamentarem nas
nossas próprias almas.
Para esse fim, é indispensável a coragem de aceitar os princípios, incorporando-
os à nossa existência.
Os velhos homens do mar abandonaram a vela que lhes dificultava a
navegação; entretanto, para atingir esse resultado, investigaram o vapor e
dispuseram-se a receber-lhe os benefícios.
As antigas cidades aboliram o serviço deficiente do gás, contudo, para isso,
estudaram a eletricidade e adotaram a lâmpada.
Reclamamos um Espiritismo, não somente sentido, crido e ensinado, mas
substancialmente vivido, porque amanhã seremos congregados pela Vida Eterna e
o trabalho na Vida Eterna brilhará nas mãos daqueles servidores que, desde agora,
procurem realizar a sua própria renovação para o bem.
Amigos, cremos não estar usando a palavra de maneira ociosa.
Desejamos fazer em vossa companhia essa mesma cruzada em que empenhais
o coração, de vez que nós outros, os vossos companheiros desencarnados,
também somos caminheiros da libertação, decididos a estabelecer novos rumos em
nós mesmos, a fim de que a nossa fé seja tanto aí, quanto aqui, trabalho vivo e
santificante.

Ernesto Senra


34
PARASITOSE MENTAL

Na reunião da noite de 28 de outubro de 1954, fomos novamente felicitados com
a palavra do nosso Instrutor Espiritual Doutor Francisco de Menezes Dias da Cruz,
que nos enriqueceu os estudos, palestrando em torno do tema que ele próprio
definiu por "parasitose mental".
Observações claras e precisas, estabelecendo um paralelo entre o parasitismO
no campo físico e o vampirismo no campo espiritual, o Doutor Dias da Cruz, na
condição de médico que é, no-las fornece, aconselhando-nos os elementos
curativos do Divino Médico, através do Evangelho, a fim de que estejamos em
guarda contra a exploração da sombra.

Avançando em nossos ligeiros apontamentos acerca da obsessão, cremos seja
de nosso interesse apreciar o vampirismo, ainda mesmo superficialmente, para figu-
rá-lo como sendo inquietante fenômeno de parasitose mental.
Sabemos que a parasitogenia abarca em si todas as ocorrências
fisiopatológicas, dentro das quais os organismos vivos, quando negligenciados ou
desnutridos, se habilitam à hospedagem e à reprodução dos helmintos e dos ácaros
que escravizam homens e animais.
Não ignoramos também que o parasitismo pode ser externo ou interno.
Nas manifestações do primeiro, temos o assalto de elementos carnívoros, como
por exemplo as variadas espécies do aracnídeo acarino sobre o campo epidérmico
e, nas expressões do segundo, encontramos a infestação de elementos saprófagos,
como, por exemplo, as diversas classes de platielmíntios, em que se destacam os
cestóides no equipamento intestinal.
E, para evitar as múltiplas formas de degradação orgânica, que o parasitismo
impõe às suas vítimas, mobiliza o homem largamente os vermífugos, as pastas sul-
furadas, as loções mercuriais, o pó de estafiságria e recursos outros, suscetíveis de
atenuar-lhe os efeitos e extinguir-lhe as causas.
No vampirismo, devemos considerar igualmente os fatores externos e internos,
compreendendo, porém, que, na esfera da alma, os primeiros dependem dos
segundos, porqüanto não há influenciação exterior deprimente para a criatura,
quando a própria criatura não se deprime.
É que pelo ímã do pensamento doentio e descontrolado, o homem provoca
sobre si a contaminação fluídica de entidades em desequilíbrio, capazes de
conduzi-lo àescabiose e à ulceração, à dipsomania e à loucura, à cirrose e aos
tumores benignos ou malignos de variada procedência, tanto quanto aos vícios que
corroem a vida moral, e, através do próprio pensamento desgovernado, pode
fabricar para si mesmo as mais graves eclosões de alienação mental, como sejam
as psicoses de angústia e ódio, vaidade e orgulho, usura e delinqüência, desânimo
e egocentrismo, impondo ao veículo orgânico processos patogênicos indefiníveis,
que lhe favorecem a derrocada ou a morte.
Imprescindível, assim, viver em guarda contra as idéias fixas, opressivas ou
aviltantes, que estabelecem, ao redor de nós, maiores ou menores perturbações,
sentenciando-nos à vala comum da frustração.
Toda forma de vampirismo está vinculada à mente deficitária, ociosa ou inerte,
que se rende, desajustada, às sugestões inferiores que a exploram sem defensiva.
Usemos, desse modo, na garantia de nossa higiene mento-psíquica, os
antissépticos do Evangelho.
Bondade para com todos, trabalho incansável no bem, otimismo operante, dever
irrepreensivelmente cumprido, sinceridade, boa-vontade, esquecimento integral das
ofensas recebidas e fraternidade simples e pura, constituem sustentáculo de nossa
saúde espiritual.
- "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" recomendou o Divino Mestre.
- "Caminhai como filhos da luz" - ensinou o apóstolo da gentilidade.
Procurando, pois, o Senhor e aqueles que o seguem valorosamente, pela reta
conduta de cristãos leais ao Cristo, vacinemos nossas almas contra as flagelações
externas ou internas da parasitose mental.

Dias da Cruz


35
CARIDADE

No momento preciso das instruções, na noite de 4 de novembro de 1954, foi
nosso amigo espiritual José Silvério Horta, mais conhecido por "Monsenhor Horta",
quem ocupou os recursos psicofônicos do médium, dirigindo-nos a sua palavra
cristã.
Sacerdote católico na última romagem terrestre, Monsenhor Horta deixou em
Minas formosas tradições de humildade, simplicidade e amor cristão, destacando-se
por fiel servidor de Jesus, e. confirmando as notícias que lhe exornam o nome,
teceu, para a nossa edificação espiritual, significativas considerações em torno da
caridade, que transcrevemos a seguir.

Filhos, em verdade, outra virtude não existe mais bela.
Todos os dons da vida, emoldurando-a, empalidecem como os lumes terrenos
quando o sol aparece vitorioso.
Desde a antigüidade, a ciência e a filosofia erigem à própria exaltação gloriosos
monumentos que se transformam em cinza, a fim de que elas mesmas se renovem.
Em todos os tempos, a autoridade e o poder fazem guerras que esbarram no
sepulcro, entre sombra e lamentação.
Só a Caridade, filha do Amor Celeste, é invariável.
Com ela, desceu Nosso Senhor Jesus-Cristo à treva humana e, abraçando os
fracos e enfermos, os vencidos e desprezados, levantou os alicerces do Reino de
Deus que as Forças do Bem na Terra ainda estão construindo.
Vinde, pois, à Seara do Evangelho, trazendo no coração a piedade fraternal que
tudo compreende e tudo perdoa!...
Acendamos a flama da caridade quando orarmos!
Em nossas casas de socorro espiritual, achamo-nos cercados por todos os tipos
de sofrimento, enquanto nos devotamos à prece... que decorrem de tristes almas
desencarnadas a carregarem consigo as escuras raízes de ilusão e delinqüência,
com que se prendem à retaguarda...
São as filas atormentadas daqueles que traficaram com o altar, que venderam a
consciência nos tribunais da justiça, que mercadejaram com os títulos respeitáveis,
que menosprezaram a bênção do lar, que tripudiaram sobre o amor puro, que
fizeram do corpo físico uma porta à viciação, que se renderam às sugestões das
trevas alimentando-se de vingança, que fizeram da violência cartilha habitual de
conduta, que acreditaram na força sobre o direito, que se desmandaram no crime,
que sepultaram a mente em pântanos de usura e que se abandonaram, inermes, à
ociosidade, à perturbação, à perversidade e à morte moral...
Para todos esses corações encarcerados na sombra expiatória, é indispensável
saibamos trazer, em nome do Cristo, a chama do sacrossanto amor que ilumina e
salva, esclarece e aprimora...
Inegavelmente, enquanto na carne, não conseguis analisar a extensão das
consciências em desequilíbrio que se nos abeiram das preces, como sedentos em
torno à fonte...
Viveis, provisoriamente, a condição do manancial incapaz de saber quão longo
é o caminho da própria corrente na regeneração do deserto.
Cabe-nos, assim, o mais amplo esforço para que a caridade persista em nossos
pensamentos, palavras e ações, porqüanto é imprescindível avivá-la também quan-
do agimos.
No círculo doméstico e na vida pública, tanto quanto em todos os domínios de
vossa atuação nas lides terrestres, sois igualmente defrontados pelos companheiros
em desajuste que, como nos acontece a todos, anseiam por reerguimento e
restauração.
Guardemos caridade para com todos aqueles que nos rodeiam... Para com os
felizes que não sabem medir a própria ventura e para com os infortunados que não
podem ainda compreender o valor da provação que os vergasta, para com jovens e
velhos, crianças e doentes, amigos e adversários!...
Cultivemo-la em toda parte... Caridade que saiba renunciar a favor de outrem,
que se cale ajudando em silêncio, e que se humilhe, sobretudo, a fim de que o de-
sespero não domine os corações que pretendemos amar...
Todos na Terra suspiram pelo melhor.
A mulher que vedes, excessivamente adornada, muita vez traz o coração
chagado de angústia.
O homem que surge, assinalado pela riqueza terrestre, quase sempre é portador
de um vulcão no crânio entontecido.
A juventude espera orientação, a velhice pede amparo.
Onde estiverdes, não condeneis!
O lodo da miséria nasce no charco da ignorância em cujos laços viscosos a
leviandade ainda se enleia.
Nós, porém, que já conhecemos a lição do Senhor, quinhoados que fomos por
sua bênção, podemos abreviar o caminho para a grande libertação, desde que a
caridade brilhe conosco, dissipando a sombra e lenindo o sofrimento.
É assim que vos concitamos à mais intensa procura do Cristo para que o Cristo
esteja em nós, de vez que somente no Espírito Divino de Jesus é que conseguire-
mos vencer a dominação das trevas, estendendo no mundo o império silencioso da
caridade, por vitoriosa luz do Céu.

José Silvério Horta

 

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