INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC

Homenagem do "Grupo Meimei"

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SENTIMENTO

O encerramento da nossa reunião de 16 de dezembro de 1954 assinalou grande
regozijo para o nosso Grupo.
Através do médium, recebemos a visita de Áulus, abnegado Instrutor Espiritual
(1), que nos falou acerca do sentimento como base de nossa vida mental,
oferecendo-nos Interessante conceituação educativa sobre o assunto e salientando
que na comunhão mais íntima com o Divino Mestre é que poderemos consolidar o
equilíbrio de que carecemos para realizar o nosso aprimoramento interior.

Amigos.
Em nossas relações com o Senhor, com os nossos Semelhantes, com a Vida e
com a Natureza, é importante lembrar que a nossa própria alma produz os modelos
sutis que nos orientam as atividades de cada dia.

(1) Trata-se do benfeitor espiritual a que se refere André Luiz em seu livro "Nos
Domínios da Mediunidade". - Nota do organizador.

Tanto quanto a segurança de um edifício corresponde ao projeto a que se
subordina, o êxito ou o fracasso em nossos menores empreendimentos
correspondem ànossa atitude espiritual.
Sabemos em fotografia que o clichê é a imagem negativa obtida na câmara
escura, do qual podemos extrair inumeráveis provas positivas. Assim também o
pensamento é a matriz que compomos na intimidade do ser, com a qual é possível
criar infinitas manifestações de nossa individualidade.
Mas a formação do clichê depende da película sensível que, em nosso caso, é o
sentimento antecedendo-nos toda e qualquer elaboração de ordem mental.
É imprescindível, dessa forma, melhorar sempre e cada vez mais as nossas
aquisições de fraternidade, entendimento e simpatia.
A estrela é conhecida pela luz que desprende de si mesma.
A presença da flor é denunciada pelo perfume que lhe é característico.
A criatura é identificada pelas irradiações que projeta.
Sorvemos idéias, assimilamos idéias e exteriorizamos idéias todos os dias.
É imperioso, assim, em nosso intercâmbio uns com os outros, observar os
nossos estados sentimentais nas bases de nossas reflexões e raciocínios, como
origens de nossa vitória ou de nossa derrota no campo de luta vulgar.
Ilustrando-nos a conceituação despretensiosa, evoquemos a natureza para
simbolizar alguns de nossos sentimentos e clarear, tanto quanto possível, a lição
que a experiência nos oferece.
O ódio é comparável à hiena, espalhando terror e morte.
A inveja é semelhante à serpente que rasteja, emitindo raios de venenoso
magnetismo.
O ciúme parece um lobo famulento, estendendo aflição e desconfiança.
A agressividade assemelha-se ao ouriço, arremessando espinhos na direção
daqueles que lhe respiram a presença.
O amor é comparável ao sol que aquece e ilumina.
A compreensão copia a fonte amiga.
A tolerância fraterna é qual árvore que serve e ajuda sempre.
A gentileza é irmã da música construtiva, desdobrando consolações e mitigando
o infortúnio.
O sentimento elevado gera o pensamento elevado e o pensamento elevado
garante a elevação da existência.
Sintamos bem, para bem refletir, assegurando o bem na estrada que fomos
convidados a percorrer.
Em verdade, o pensamento é a causa da ação, mas o sentimento é o molde
vibrátil em que o pensamento e a causa se formam.
Sentindo, modelamos a idéia.
Pensando, criamos o destino.
Atendamos à higiene mental, entretanto não nos esqueçamos de que a casa,
por mais brilhante e por mais limpa, não viverá feliz sem alimento. E a bondade é o
pão das almas.
Em razão disso, recomendou-nos o Divino Mestre, em sua lição imperecível: -
"Amai-vos uns aos outros como eu vos amei."

Áulus


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DIVINO AMIGO, VEM!

Com a nossa reunião, na noite de 23 de dezembro de 1954, estávamos
encerrando as atividades do ano. Era um ciclo de tempo a fechar-se, diante de outro
que prestes se abriria... Trazendo-nos imenso júbilo, nosso amigo Emmanuel
controlou os recursos psicofônicos do médium e orou conosco, em voz alta,
sentidamente.

Senhor,
Tu que nos deste no Tempo
O sábio condutor de nossos destinos,
Faze-nos entender a bênção dos minutos,
A fim de não perdermos o tesouro dos séculos...

Porque o Tempo, Senhor,
Guardando-nos a alma
Nos braços das horas incessantes,
Embora nos amadureça o entendimento,
Não nos ergue da Terra
Ao encontro de Ti.

Por ele, temos a hora do berço
E a hora do túmulo,
A hora de semear
E a hora de colher,
A hora de rir
E a hora de chorar...

Com ele, temos a experiência
Da dor e da alegria,
Da ilusão e da realidade,
Do conforto e da angústia,
Que, em nos transformando o raciocínio,
Não nos alteram o coração.
É por isso, Senhor,
Que Te rogamos
Assistência e socorro ...

Ajuda-nos a cooperar com os dias,
Para que os dias colaborem conosco.
Ensina-nos a buscar
A hora de buscar-Te,
No respeito aos Teus desígnios,
No trabalho bem vivido,
No estudo de Tuas leis,
No serviço aos semelhantes,
Na contemplação de Tua grandeza
E na ação constante do bem.

Livra-nos da inércia,
Porque sem Tua bênção
A ronda dos milênios
É só repetição,
Prova e monotonia...
Divino Amigo, vem!...
E ampara-nos a senda
Porque, sem Ti, o Tempo,
Embora sendo luz

E embora sendo vida,
Sem que Te procuremos,
Deixar-nos-á clamando
Nos abismos da sombra,
Da aflição e da morte...

Emmanuel


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HOJE

Na noite de 6 de janeiro de 1955, nosso Grupo reiniciou as atividades e, na
parte reservada às instruções, Meimei, com a simplicidade que lhe é peculiar,
utilizou o médium e nos falou, generosa:

Meus irmãos, Jesus nos abençoe.
Ano novo, trabalho recomeçado...
É a bênção de Deus que se refaz na bênção das horas.
Valorizemos, por isso, o tempo que se chama hoje.
Hoje é o sol, a vida, a possibilidade, a esperança...
Ontem, é o dia que se foi.
Amanhã, é o dia que virá.
Hoje, contudo, é o tempo que está conosco.
É a nossa oportunidade de erguer o pensamento a mais altos níveis, de
conquistar a felicidade das obrigações bem cumpridas, de proclamar a boa-vontade
para com todos e estender as mãos aos semelhantes...
Hoje, é o momento de renovar o coração, varrendo a ferrugem da ociosidade,
expulsando o vinagre do desencanto, extinguindo o bolor da tristeza e pulverizando
o caruncho do desânimo.
Hoje, é o dia de sorrir para a dificuldade e ajudar com alegria.
Levanta-te, luta e vive, porque Hoje é o momento em que o Senhor lança à Terra
a escada luminosa do trabalho para que lhe escalemos os degraus, ao encontro
dele, em pleno Céu...

Neste ponto da sua dissertação, Meimei fez uma pausa expressiva e continuou
logo após:

Com esta saudação, desejamos a todos os companheiros paz e bom ânimo, no
campo de fraternidade e serviço que nos foi concedido a lavrar. E, ainda sobre o
Tempo, pedimos alguns instantes de auxílio silencioso, para que possamos ouvir a
palavra do nosso amigo Luiz Pistarini, que faz ao nosso grupo, nesta noite, uma
visita de gentileza e carinho.

Em breves segundos, a expressão facial do médium modificou-se. O grande
poeta fluminense, utilizando-lhe as faculdades, levantou-se e, com voz cheia e
comovida, falou-nos:

Amigos, visitando-vos o núcleo de Evangelho, trago-vos esta singela página do
coração:


NA ÚLTIMA HORA

O anjo da morte entrara, belo e puro...
E, ostentando nas mãos um facho aceso,
Disse-me ao coração triste e surpreso:
- Pobre amigo! é a ti mesmo que eu procuro!...

A memória rompera estranho muro.
A sós comigo, exânime e indefeso,
Regressei ao passado e vi-me preso
Às ansiedades do caminho escuro.

Amores e ambições... penas e abrolhos...
E o pranto que jorrava de meus olhos
Banhou-me a fria máscara de cera.

Mas na sombra abismal do último dia,
Não chorava a existência que fugia;
Em vão, chorava o tempo que perdera...

Linz Pistarini


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ARQUITETOS ESPIRITUAIS

Em nossa reunião da noite de 13 de janeiro de 1955, fomos novamente
agraciados com a visita do nosso companheiro Efigênio S. Vitor que nos trouxe
interessantes apontamentos, com respeito aos Espíritos Arquitetos, na palestra que
passamos a transcrever.

Examinando os variados setores de nossas atividades e encarecendo o valor da
contribuição dos diversos amigos que colaboram conosco, é preciso salientar o es-
forço dos Espíritos Arquitetos em nossa equipe de trabalhos habituais.
Em cada reunião espírita, orientada com segurança, temo-los prestativos e
operantes, eficientes e unidos, manipulando a matéria mental necessária à
formação de quadros educativos.
Simplifiquemos o assunto, quanto seja possível, para compreendermos a
necessidade de nosso auxílio a esses obreiros silenciosos.
Aqui, como em toda parte onde tenhamos uma agremiação de pessoas com fins
determinados, existe na atmosfera ambiente um centro mental definido, para o qual
convergem todos os pensamentos, não somente nossos, mas também daqueles
que nos comungam as tarefas gerais.
Esse centro abrange vasto reservatório de plasma sutilíssimo, de que se servem
os trabalhadores a que nos referimos, na extração dos recursos imprescindíveis
àcriação de formas-pensamento, constituindo entidades e paisagens, telas e coisas
semi-inteligentes, com vistas àtransformação dos companheiros dementados que
intentamos socorrer.
Uma casa como a nossa será, inevitavelmente, um pouso acolhedor, abrigando,
em nossos objetivos de confraternização, os amigos desencarnados, enfermos e so-
fredores, a se desvairarem na sombra.
Para que se recuperem, é indispensável recebam o concurso de imagens vivas
sobre as impressões vagas e descontínuas a que se recolhem. E para esse gênero
de colaboração especializada são trazidos os arquitetos da Vida Espiritual, que
operam com precedência em nosso programa de obrigações, consultando as
reminiscências dos comunicantes que devam ser amparados, observando-lhes o
pretérito e anotando-lhes os labirintos psicológicos, a fim de que em nosso santuário
sejam criados, temporariamente embora, os painéis movimentados e vivos, capazes
de conduzi-los à metamorfose mental, imprescindível à vitória do bem.
É assim que, aqui dentro, em nossos horários de ação, formam-se jardins,
templos, fontes, hospitais, escolas, oficinas, lares e quadros outros em que os
nossos companheiros desencarnados se sintam como que tornando à realidade
pregressa, através da qual se põem mais facilmente ao encontro de nossas
palavras, sensibilizando-se nas fibras mais íntimas e favorecendo-nos, assim, a in-
terferência que deve ser eficaz e proveitosa.
Delitos, dificuldades, problemas e tragédias que ficaram a distância, requisitam
dos nossos companheiros da ilustração espiritual muito trabalho para que sejam
devidamente revisionados, objetivando-se o amparo a todos aqueles que nos
visitam, em obediência aos planos traçados de mais alto.
É assim que as forças mento-neuro-psíquicas de nosso agrupamento são
manipuladas por nossos desenhistas, na organização de fenômenos que possam
revitalizar a visão, a memória, a audição e o tato dos Espíritos sofredores, ainda em
trevas mentais.
Espelhos ectoplásmicos e recursos diversos são também por eles improvisados,
ajudando a mente dos nossos amigos encarnados, que operam na fraseologia
assistencial, dentro do Evangelho de Jesus, a fim de que se estabeleça perfeito
serviço de sintonia, entre o necessitado e nós outros.
Para isso, porém, para que a nossa ação se caracterize pela eficiência, é
necessário oferecer-lhes o melhor material de nossos pensamentos, palavras,
atitudes e concepções.
Toda a cautela é recomendável no esforço preparatório da reunião de
intercâmbio com os desencarnados menos felizes, porque a elas comparecemos, na
condição de enfermeiros e instrutores, ainda mesmo quando não tenhamos, em
nosso campo de possibilidades individuais, o remédio ou o esclarecimento
indispensáveis.
Em verdade, contudo, através da oração, convertemo-nos em canais do socorro
divino, apesar da precariedade de nossos recursos, e, em vista disso, é preciso haja
de nossa parte muita tranqüilidade, carinho, compreensão e amor, a fim de que a
colaboração dos nossos companheiros arquitetos encontre em nós base segura
para a formação dos quadros de que nos utilizamos na obra assistencial.
Nossa palavra é simplesmente a palavra de um aprendiz.
Achamo-nos entre os mais humildes recém-vindos àlide espiritual, mas,
aproveitando as nossas experiências do passado, tomamos a liberdade de
palestrar, comentando alguns dos aspectos de nossa sementeira e de nossa
colheita, que funcionam todos os dias, conforme o ensinamento imortal do Senhor:
- "A cada um por suas obras."

Efigênio S. Vítor

Afastando-se o nosso amigo Efigênio, o nosso irmão José Xavier controla o
médium e avisa-nos, prestimoso:

Solicitamos ainda aos companheiros alguns instantes de silêncio e oração, para
que a nossa irmã Auta de Souza, presente em nossa casa, se manifeste, segundo
os seus desejos.

Decorridos alguns momentos, o médium apresenta singular modificação. A
conhecida poetisa norte-rio-grandense domina-lhe as faculdades e recita em voz
pausada e comovedora:

SEGUE E CONFIA

Alma cansada e triste, alma sincera,
Sorve a angústia do calix derradeiro!
Guarda a bênção da fé sob o madeiro
Da aflição que te punge e dilacera.

Trabalha, serve e crê, ajuda e espera,
Imitando o Celeste Companheiro...
Um dia, o doloroso cativeiro
Será livre e ridente primavera.

Vencendo ulcerações, trevas e escombros,
Bendize a dor que te enriquece os ombros
Com as chagas do martírio austero e forte.

A cruz que te aguilhoa, dia a dia,
É o luminoso preço da alegria
Na vida que te aguarda além da morte.

Auta de Souza


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BOA-VONTADE

Finalizando as nossas tarefas da noite de 20 de janeiro de 1955, foi Meimei
quem nos trouxe o reconforto de sua palavra.
Expressando-se com o carinho que lhe assinala as manifestações, falou-nos
sobre os méritos da boa-vontade.

O Sol é a força que nutre a vida na Terra.
Á boa-vontade é a luz que alimenta a harmonia entre as criaturas.
Acendamo-la no coração para caminhar com segurança e valor.
No lar, é chama atraente e doce.
Em sociedade, é fonte de concórdia e alegria. Onde falha o dinheiro e onde o
poder humano é insignificante, realiza milagres.
Ao alcance de todos, não a desprezemos.
Em todos os lugares, há chagas que pedem bálsamo, complicações que rogam
silêncio, desventuras que esperam socorro e obstáculos que imploram concurso
amigo.
Muitos aguardam lances públicos de notabilidade e inteligência, no cultivo da
caridade, acabando vencidos pelo tempo, entre a insatisfação e o desencanto.
Sejamos nós soldados diligentes no exército do bem, anônimos e humildes,
atravessando os dias no culto fiel àfraternidade.
O ódio e a ignorância guerreiam com ímpeto, conquistando no mundo o salário
da miséria e da morte.
O amor e o serviço lutam sem alarde, construindo o progresso e enaltecendo a
vida.
Com a boa-vontade, aprendemos a encontrar o irmão que chora, o companheiro
em dificuldade, o doente infeliz, a criança desamparada, o animal ferido, a árvore
sem proteção e a terra seca, prestando-lhes cooperação desinteressada, e é por ela
que podemos exercitar o dom de servir, através das pequeninas obrigações de cada
dia, estendendo mãos fraternas, silenciando a acusação descabida, sofreando a
agressividade e calando a palavra imprudente.
Situemo-la no princípio de todas as nossas atividades, a fim de que as nossas
iniciativas e anseios, conversações e entendimentos não se desviem da luz.
Lembremo-nos de que a paz e a boa-vontade devem brilhar em nossos triunfos
maiores ou menores com o nosso Divino Mestre.
É por isso que o Evangelho no berço de Jesus começa com a exaltação
inesquecível das milícias celestiais:
- "Glória a Deus nas alturas, paz na Terra e boa-vontade para com os
homens."

Meimei

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