INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC

Homenagem do "Grupo Meimei"

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UM CORAÇÃO RENOVADO

A noite de 7 de abril de 1955 integrou a semana com que a Cristandade
rememorou a flagelação de Jesus.
Em nosso Grupo foi mais Intensa a movimentação socorrista em favor dos
sofredores desencarnados, dentre Os quais sobressairam diversos irmãos
hansenianos que, mesmo além da morte, revelavam dolorosas fixações mentais de
revolta e amargura. Vários dos médiuns presentes foram veículos deles,
convocando-nos ao argumento evangélico e à oração para o alívio que reclamavam.
Concluindo as nossas tarefas, no horário dedicado aos Instrutores Espirituais,
os recursos psicofônicos do médium Xavier foram ocupados pelo poeta Jésus
Gonçalves, desencarnado em Pirapitinguí, que também passou pela provação da
lepra, cuja palavra nos trouxe amoroso esclarecimento.

Amigos.
Sou o vosso irmão Jésus Gonçalves, o leproso de Pirapitinguí, a quem o
Espiritismo ofereceu nova visão da vida.
Agradeço-vos o concurso fraterno, em socorro dos irmãos hansenianos
desencarnados.
Vieram conosco, entre a lamentação e a revolta, perturbados e oprimidos...
No mundo, receberam a chaga física por maldição, quando poderiam utilizá-la
como porta salvadora, e, no mundo espiritual, experimentam os efeitos da rebeldia.
Trazem, ainda, na organização perispirítica, os remanescentes da enfermidade
que os acabrunhava e, no íntimo, sofrem a indisciplina e a inconformação.
Graças a Jesus, porém, recolheram o benefício da calma, pelas sementes de
renovação evangélica espalhadas em vossos estudos de hoje e esperamos possam
imprimir, desde agora, novos rumos à própria transformação.
E, agora, peço permissão para orar convosco.
Nesta noite, em que toda a Cristandade se volta, reconhecida, para a memória
do Mestre, sentimo-lo igualmente em seu derradeiro sacrifício e, mentalizando-O no
madeiro, de alma genuflexa, trazemos a Ele, nosso Eterno Amigo e Divino Benfeitor,
a nossa prece de leproso diante da cruz.

Em seguida a leve pausa, o Espírito Jésus Gonçalves modificou a inflexão de
voz e, erguendo-se para o Alto, orou, em lágrimas, comovedoramente:

Senhor, eu que vivia em vãos clamores,
Vinha de longe em ânsias aguerridas,
Sob a trama infernal de horrendas lidas,
Entre largos caminhos tentadores.

Tronos, glórias, tiaras, esplendores
E cidades famélicas vencidas...
Tudo isso alcancei, de mãos erguidas
Aos gênios tenebrosos e opressores.

Mas, fatigado, enfim, de ser verdugo,
Roguei, chorando, a graça de teu jugo
E enviaste-me a lepra e a solidão.

E, confinado às dores que me deste,
Abriu-se-me a visão à luz celeste,
E achei-te, excelso, no meu coração.

*

Hoje, Mestre, ante a cruz em que te apagas,
Na compaixão que ajuda e renuncia,
Não te peço o banquete da alegria,
Embora o doce olhar com que me afagas.

Venho rogar-te a túnica das chagas
Para que eu volte à estrada escura e fria,
Em que os filhos da noite e da agonia
Sofrem ulcerações, bramindo pragas...

Dá-me, de novo, a lepra que redime,
Conservando-me a fé por dom sublime,
Agora que, contente, me prosterno!...

E que eu possa exaltar, por muitas vidas,
Sobre o lenho de angústias e feridas,
O teu reino de amor divino e eterno.

Jésus Gonçalves


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CONFORTADORA VISITA

Na reunião da noite de 14 de abril de 1955, os Benfeitores Espirituais
reservaram grata surpresa ao nosso Grupo.
Trazido por eles, veio até nós o Espírito de nosso velho amigo e confrade
Doutor Camilo Rodrigues Chaves, desencarnado em Belo Horizonte em 3 de
fevereiro deste ano.
Foi a primeira vez que tivemos o ensejo de observar um companheiro recém-
desencarnado comunicar-se no plano material com tanto equilíbrio e segurança.
Doutor Camilo, valoroso lidador do Espiritismo, passou para a Espiritualidade
como Presidente da União Espírita Mineira, casa-máter de nossa Doutrina, em
nosso Estado, e, controlando o médium, caracterizou-se plenamente, diante de nós,
não só pela mímica com que se fazia sentir, como também pela voz que lhe era
peculiar.
A visita do querido companheiro foi realmente confortadora e a sua palestra é de
notável conteüdo para a nossa meditação.

Irmãos, o condiscípulo temporariamente afastado da escola vem visitar-vos e
agradecer as vibrações encorajadoras e amigas.
A morte foi para mim benigna e rápida, no entanto, a desencarnação mental,
propriamente considerada, continua para meu espírito, porque o homem não se
desvencilha, de chofre, dos hábitos consuetudinários que lhe marcam a vida.
Os deveres, as afeições, os projetos formados para o futuro, constituem laços
ao pensamento.
Ainda assim, tenho comigo a bênção da fé, presidindo-me a gradativa liberação.
Sinto-me, por enquanto, na posição do convalescente inseguro, esperando
recuperar-se; contudo, já sei o bastante para afirmar-vos que, neste "outro lado" da
vida, a sobrevivência é tal qual pressentimos na Terra, mas nem todas as situações
se desdobram aqui, segundo imaginamos.
A experiência continua sem saltos, o homem se prolonga sem alterar-se de
improviso, a matéria rarefaz-se e, de algum modo, se modifica, sustentando, porém,
as características que lhe são próprias, e o túmulo é apenas transposição de plano
em que a nossa consciência encontra a si mesma, sem qualquer fantasia.
Compreendo, assim, agora, com mais clareza, a função do Espiritismo como
instituto mundial de educação renovadora das almas, junto ao qual precisamos
empenhar interesse e energia.
Não vale tomar a Doutrina a serviço nosso, quando é nossa obrigação viver a
serviço dela.
Escravizá-la às vantagens particulares, nos caprichos e paixões da luta
terrestre, é acrescer compromissos e débitos, adiando a nossa própria
emancipação.
Sem a cápsula física, nossa penetração na verdade é mais íntima e, a rigor,
mais verdadeira.
Daí o motivo de nos doerem, fundo, as faltas de omissão, porque todos
trazemos para cá a preocupação de não haver feito pelo bem tudo aquilo que
poderíamos ter realizado, no transcurso de nossa permanência no corpo.
Não nos iludamos.
Exercer a caridade vulgar, alimentando os famintos e agasalhando os nus, é
simples dever nosso, em nossas novas noções de solidariedade e justiça.
E não nos esqueçamos de que a caridade real será sempre iluminar o espírito
humano para que o espírito humano se conheça e ajude a si próprio.
Oxalá possais ver mais longe que nós, os companheiros que vos precederam na
grande viagem, atendendo ao serviço primordial que nos desafia!
Sem a assimilação dos nossos postulados, de maneira intensiva, utilizando
consciência e coração, raciocínio e sentimento, falecer-nos-á o discernimento, sem
discernimento fugiremos à responsabilidade, sem responsabilidade não teremos
elevação moral e, sem elevação moral, o fenômeno espírita, não obstante a sua
legitimidade, será estagnação no primitivismo.
Procuremos Jesus, afeiçoando-nos a ele, para que os nossos irmãos de senda
evolutiva e de atividade regeneradora o encontrem conosco.
Esta, meus amigos, por agora, é a nossa tarefa maior.

Camilo Rodrigues Chaves


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HOMENAGEM AO TIRADENTES

Na reunião da noite de 21 de abril de 1955, no horário consagrado às
instruções, comunicou-se nosso amigo espiritual José Xavier, recomendando-nos:
- "Rogamos aos companheiros mais dois ou três minutos de silêncio, em oração, a
fim de que o poeta Olavo Bilac, hoje presente às nossas tarefas, algo nos diga,
como é de seu desejo, sobre a memória do Tiradentes."
Minutos após, com a transfiguração habitual do médium, assinalamos a
presença do grande poeta brasileiro, cuja palavra eloqüente se fez ouvida em nosso
recinto, no soneto que passamos a transcrever:

TIRADENTES

Freme, na Lampadosa, a turba em longas filas.
Estandartes... Clarins... A praça tumultua...
Tiradentes, o herói, ante os gritos da rua.
Entra guardando a cruz nas magras mãos tranqüilas.

- "Morra a conjuração da sombra em que te asilas!"
- "Morte ao traidor do reino!..." - É a gentalha que estua.
E ele sobe, sereno, à forca estranha e nua,
Trazendo o sol da fé a inflamar-lhe as pupilas.

Logo após, é o baraço, o extremo desengano...
O mártir pensa em Cristo e envia ao povo insano
Um gesto de piedade e um olhar de amor puro.

Age o carrasco, enfim... O apóstolo balança...
E Tiradentes morre, entre o sonho e a esperança,
Contemplando, enlevado, o Brasil do futuro.

Olavo Bilac


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TRIO ESSENCIAL

Na reunião da noite de 28 de abril de 1955, foi Emmanuel quem senhoreou as
faculdades psicofônicas do médium, transmitindo-nos instruções acerca da
constituição de elementos para o êxito nas tarefas de intercãmbio com o mundo
espiritual.

Meus amigos.

O êxito da reunião mediúnica, como corpo de serviço no plano terrestre, exige
três elementos essenciais:
O orientador.
O médium.
O assistente.
Nesse conjunto de recursos tríplices, dispomos de comando, obediência e
cooperação.
O primeiro é o cérebro que dirige.
O segundo é o coração que sente.
O terceiro é o braço que ajuda.
Sem a segurança e a ponderação do cérebro, seremos arremessados,
irremediavelmente, ao desequilíbrio.
Sem o carinho e a receptividade do coração, sofreremos o império do
desespero.
Sem o devotamento e a decisão do braço, padeceremos a inércia.
Contudo, para que o trio funcione com eficiência, são necessários três requisitos
na máquina de ação em que se expressam:
Confiança.
Boa-vontade.
Harmonia.
Harmonia que traduza disciplina, ordem e respeito. Confiança que signifique fé,
otimismo e sinceridade. Boa-vontade que exprima estudo, compreensão e serviço
espontâneo ao próximo.
Não podemos esquecer, ainda, que essa máquina deve assentar-se em três
alicerces distintos:
Aperfeiçoamento interior.
Oração com vigilância.
Dever bem cumprido.
Obtida a sintonia nesse triângulo de forças, poderá, então, a Espiritualidade
Superior, através de fatores humanos, empreender entre os homens encarnados a
realização dos seus três grandes objetivos:
A elevação moral da ciência.
O esclarecimento da filosofia.
A liberdade da religião.
Com a ciência dignificada, não trairemos no mundo o rítmo do progresso.
Com a filosofia enobrecida, clarearemos os horizontes da alma.
Com a religião liberta dos grilhões que lhe encadeiam o espírito glorioso às
trevas da discórdia e do fanatismo, poderemos distender o socorro e a beneficência,
a fraternidade e a educação.
Reunamo-nos nas bases a que nos referimos, sob a inspiração do Cristo, Nosso
Mestre e Senhor, e as nossas reuniões mediúnicas serão sempre um santuário de
caridade e um celeiro de luz.

Emmanuel


60
FIXAÇÃO MENTAL

Em nossas tarefas da noite de 5 de maio de 1955, o iluminado Espírito do
Doutor Dias da Cruz voltou a visitar-nos, estudando, para a nossa edificação, o
problema da fixação mental, depois da morte. Em sua alocução interessante e
oportuna, o Instrutor oferece-nos grave advertênCia quanto ao aproveitamento de
nossa reencarnação terrestre.

Analisando, superficialmente embora, o problema da fixação mental, depois da
morte, convém não esquecer que a alma, quando encarnada, permanece munida do
equipamento fisiológico que lhe faculta o atrito constante com a natureza exterior.
As reações contínuas, hauridas pelos nervos da organização sensorial,
determinando a compulsória movimentação do cérebro, associadas aos múltiplos
serviços da alimentação, da higiene e da preservação orgânica, estabelecem todo
um conjunto vibratório de emoções e sensações sobre as cordas sensíveis da
memória, valendo por impactos diretos da luta evolutiva no espírito em
desenvolvimento, obrigando-o a exteriorizar-se para a conquista de experiência.
Esse exercício incessante, enquanto a alma se demora no mundo físico,
trabalha o cosmo mental, inclinando-o a buscar no bem o clima da atividade que o
investirá na posse dos recursos de elevação.
Como sabemos, todo bem é expansão, crescimento e harmonia e todo mal é
condensação, atraso e desequilíbrio.
O bem é a onda permanente da vida a irradiar-se como o Sol e o mal pode ser
considerado como sendo essa mesma onda, a enovelar-se sobre si mesma, geran-
do a treva enquistada.
Ambos personalizam o amor que é libertação e o egoísmo, que é cárcere.
E se a alma não conseguiu desvencilhar-se, enquanto na Terra, das variadas
cadeias de egoísmo, como sejam o ódio e a revolta, a perversidade e a
delinqüência, o fanatismo e a vingança, a paixão e o vício, em se afastando do
corpo de carne, pela imposição da morte, assemelha-se a um balão
electromagnético, pejado de sombra e cativo aos processos da vida inferior, a
retirar-se dos plexos que lhe garantiam a retenção, através da dupla cadeia de
gânglios do grande simpático, projetando-se na esfera espiritual, não com a leveza
específica, suscetível de alçá-la a níveis superiores, em circuito aberto, mas sim
com a densidade característica da fixação mental a que se afeiçoa, sofrendo em si
os choques e entrechoques das suas próprias forças desvairadas, em circuito
fechado sobre si mesma, revelando lamentável desequilíbrio que pode perdurar até
mesmo por séculos, conforme a concentração do pensamento na desarmonia em
que se compraz.
Nesse sentido, podemos simbolizar a vontade como sendo a âncora que retém
a embarcação do espírito em seu clima ideal.
É necessário, assim, consagrar nossa vida ao bem completo, a fim de que
estejamos de acordo com a Lei Divina, escalando, ao seu influxo, os acumes da
Vida Superior.
E é por isso que, encarecendo o valor da reencarnação, como preciosa
oportunidade de progresso, lembraremos aqui as palavras do Senhor, no versículo
35, do capítulo 12, no Evangelho do Apóstolo João: "Avançai enquanto tendes luz
para que as trevas não vos alcancem, porque todo aquele que caminha nas trevas,
marchará fatalmente sob o nevoeiro, perdendo o próprio rumo. "

Francisco de Menezes Dias da Cruz

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