INSTRUÇÕES PSICOFÔNICAS - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
DITADO POR DIVERSOS ESPÍRITOS
Em memória de ALLAN KARDEC

Homenagem do "Grupo Meimei"

6
A LIÇÃO DA CRUZ

A noite de 15 de abril de 1954 foi dedicada às comemorações de Endoenças
pela comunidade cristã. Recordando a véspera da crucificação de Jesus, nosso
Grupo estava superlotado de entidades desencarnadas de várias procedências e de
diversos graus evolutivos a nos partilharem tarefas e orações.
Coroando-nos os estudos, o Irmão Osias Gonçalves, que foi abnegado pastor
evangélico no Brasil, ocupou a faculdade psicofônica e falou, comovedoramente,
com respeito à lição da Cruz.


Meus irmãos:

Peçamos em nosso favor a bênção de Nosso Senhor Jesus-Cristo.
Nas recordações da noite de hoje, busquemos no Livro Sagrado a mensagem
de luz que nos comande as diretrizes.
Leiamos no Evangelho do Apóstolo João, no capítulo 12, versículo 32, a palavra
do Divino Mestre, quando anuncia aos seguidores:
- "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim."
Semelhante afirmativa foi pronunciada por ele, depois da entrada jubilosa em
Jerusalém.
Flores, alegria, triunfo.
Cabe-nos ponderar ainda que, nessa ocasião, o Embaixador Celestial havia
sido o Divino Médico dos corpos e das almas. Havia restaurado paralíticos, cegos e
leprosos, reconstituindo a esperança e a oportunidade de muitos... Estendera a
Boa-Nova e passara pela transfiguração do Tabor...
Entretanto, Jesus ainda se considera como Missionário não erguido da Terra.
Indubitavelmente, aludia ao gênero de testemunho com que o dilacerariam, mas
também ao sofrimento superado como acesso à vitória.
Reportava-se ao sacrifício como auréola da vida e destacava a cruz por símbolo
de espiritualidade e ressurreição.
Induzia-nos o Senhor a aceitar as aflições do mundo, como recursos de
soerguimento, e a receber nos pontos nevrálgicos do destino o ensejo de nossa
própria recuperação.
Ninguém passará incólume entre as vicissitudes da Terra.
Todos aí pagamos o tributo da experiência, do crescimento, do resgate, da
ascensão...
E arrojados ao pó do amolecimento moral, não atrairemos senão a piedade dos
transeuntes e o enxurro do caminho, sem encorajar o trabalho e o bom ânimo dos
outros, porque, de nós mesmos, teremos recusado a bênção da luta.
O Mestre, amoroso e decidido, ensinou-nos a usar o fracasso como chave de
elevação.
Traído pelos homens, utilizou-se de semelhante decepção para demonstrar
lealdade a Deus.
Atormentado, aproveitou a aflição para lecionar paciência e governo próprio.
Escarnecido, valeu-se da amargura íntima para exercer o perdão.
E, crucificado, fez da morte a revelação da vida eterna.
É imprescindível renunciar ao reconforto particular, para que a renovação nos
acolha.
Todos nos sentimos tranqüilos e sorridentes, diante do céu sem nuvens, mas se
a tempestade reponta, ameaçadora, eis que se nos desfazem as energias, qual se
nossa fé não passasse de movimento sem substância.
Acomodamo-nos com a satisfação e abominamos o obstáculo.
No entanto, não seremos levantados do mundo, ainda mesmo quando
estejamos no mundo fora do corpo físico, sem o triunfo sobre a nossa cruz, que, em
nosso caso, foi talhada por nossos próprios erros, perante a Lei.
É por isso que nesta noite, em que a serenidade de Jesus como que envolve a
Natureza toda, nesta hora em que o pensamento da coletividade cristã volve,
comovido, para a recuada Jerusalém, é natural estabeleçamos no próprio coração o
indispensável silêncio para ouvir a Mensagem do Evangelho que se agiganta nos
séculos...
- "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim."
Enquanto o Senhor evidenciava apenas o poder sublime de que se fazia
emissário, curando e consolando, poderia parecer um simples agente do Pai
Celestial, em socorro das criaturas; mas atendendo aos desígnios do Altíssimo, na
cruz da flagelação suprema, e confiando-se à renúncia total dos próprios desejos,
não obstante vilipendiado e aparentemente vencido, afirmou o valor soberano de
sua individualidade divina pela fidelidade ao seu ministério de amor universal e,
desde então, alçado ao madeiro, continua atraindo a si as almas e as nações.
Içado à ignomínia por imposição de todos nós que lhe constituímos a família
planetária, não denotou rebeldia, tristeza ou desânimo, encontrando, aliás, em
nossa debilidade, mais forte motivo para estender-nos o tesouro da caridade e do
perdão, passando, desde a cruz, não mais apenas a revigorar o corpo e a alma das
criaturas, mas principalmente a atraí-las para o Reino Divino, cuja construção foi
encetada e cujo acabamento está muito longe de terminar.
Assim sendo, quando erguidos pelo menos alguns milímetros da terra, através
das pequeninas cruzes de nossos deveres, junto aos nossos irmãos de Humanida-
de, saibamos abençoar, ajudar, compreender, servir, aprender e progredir sempre.
Intranqüilidade, provação, sofrimento, são bases para que nos levantemos ao
encontro do Senhor.
Roguemos, desse modo, a ele nos acrescente a coragem de apagar o incêndio
da rebelião que nos retém prostrados no chão de nossas velhas fraquezas, retiran-
do-nos, enfim, do cativeiro à inferioridade para trazer ao nosso novo modo de ser
todos aqueles que convivem conosco, há milênios, aguardando de nossa alma o
apelo vivo do entendimento e do amor.
E, reunindo nossas súplicas numa só vibração de fé, esperemos que e.
Bondade Divina nos agasalhe e abençoe.

Osias Gonçalves


7
TRABALHEMOS AMANDO

Na noite de 22 de abril de 1954, o nosso Instrutor Emmanuel voltou a utilizar-se
do equipamento mediúnico e, talvez porque os componentes do Grupo houvessem
palestrado, antes da reunião, sobre as diversas categorias das entidades espirituais
que se comunicam conosco, o venerável orientador tomou o assunto por tema de
sua mensagem que passamos a transcrever.

Meus amigos, trabalhemos amando.
A fim de que a glória do espírito se exprima, através do cérebro, na cintilação do
pensamento, é preciso que a cabeça se ajuste aos variados departamentos do
veículo carnal.
Para isso, é indispensável que cada elemento do corpo seja respeitado em sua
função específica.
Os olhos são funcionários da visão.
Os ouvidos são sentinelas do conhecimento.
As narinas são guardiãs do olfato.
A língua é a escultora da palavra.
O coração é o ministro do equilíbrio.
As mãos são artistas do trabalho.
Os pés são escravos da sustentação.
Temos, contudo, outros cooperadores em atividades mais humildes.
A epiderme é um manto protetor.
Os pulmões são câmaras de ar respiratório para a garantia da existência.
O estômago é o alambique da digestão.
O fígado é um condensador de energia vital.
O baço é um gerador de sangue.
O pâncreas é o excretor de enzimas.
Os intestinos são vasos de seleção técnica.
Os rins são filtros seguros e diligentes.
Os gases são recursos destinados à expulsão de venenos letais.
Tudo na colméia celular do campo físico é solidariedade perfeita, com especiais
objetivos de progresso e aprimoramento.
Uma reunião de trabalhos mediúnicos é igualmente um corpo simbólico,
exigindo que a direção considere, em seu devido valor, todas as peças de sua
composição espiritual.
Espíritos angélicos são mensageiros de amor.
Espíritos instrutores são emissários de sabedoria.
Espíritos amigos são frascos de remédio curativo ou de perfume amenizante.
Espíritos familiares são bênçãos de reconforto. Espíritos sofredores são avisos à
imprevidência.
Espíritos ignorantes são desafios à boa-vontade.
Espíritos em desequilíbrio são exercícios de paciência.
Espíritos cristalizados no mal são apelos ao bem.
Espíritos obsessores são oportunidades de concurso
fraterno.
Espíritos necrosados na delinqüência ou no vício são convites à oração.
Meus amigos, para a caridade tudo é grande! Na sementeira de luz, não há
serviço insignificante.
Na obra de redenção, não há tarefas desprezíveis.
Para as Leis Eternas, a mão do legislador que lavra um decreto é tão venerável
quanto a do enfermeiro que alivia uma chaga.
Trabalhemos, pois, amando, e que o Senhor nos abençoe.

Emmanuel


8
PALAVRAS DE UM BATALHADOR

No encerramento de nossas tarefas, na reunião da noite de 29 de abril de 1954,
fomos agradavelmente surpreendidos com a visita do Professor Cícero Pereira, que
foi valoroso batalhador do Espiritismo, em Minas Gerais, onde é vastamente
conhecido e carinhosamente lembrado por sua grande bagagem de serviço, como
Presidente da União Espírita Mineira, sediada em Belo Horizonte, e como devotado
irmão de todos os companheiros de nossa Causa. Aqui consignamos a valiosa
mensagem psicofônica que nos deixou.

Meus amigos, peçamos, antes de tudo, a Nosso Senhor Jesus-Cristo nos
ampare o trabalho.
Não pude furtar-me à alegria de visitá-los, ainda mesmo de escantilhão.
Grande é a nossa esperança, observando a plantação de luz a que se devotam.
Além disso, não posso esquecer que tenho aqui bons amigos, a começar pelo
nosso Rocha. (1)
Meus caros, a surpresa dos espíritas, depois do túmulo, chega a ser
incomensurável, porque freqüentemente mobilizamos os valores de nossa fé com a
pretensão de quem se julga escolhido à frente do Senhor.
Aguardamos, para além da morte, uma felicidade que nem de longe, no mundo,
cogitamos de construir.
Somos aprendizes novos do Evangelho.
Isso é verdade.
Mas estamos sempre interessados em conduzir ao Cristo os nossos problemas,
completamente despreocupados quanto aos problemas do Cristo, a nosso respeito.
Buscamos nossa própria imagem no espelho da Graça Divina. Somos velhos
Narcisos encarcerados na própria ilusão.
E admitimos que não há dores maiores que as nossas e que as nossas
necessidades superam as necessidades dos outros.
Por esse motivo, o tempo estreito de permanência no corpo carnal apenas nos
favorece, na maioria das vezes, mais densa petrificação de egoísmo, na concha de
nossa antiga vaidade.
Somos leitores de livros admiráveis.
Comovemo-nos e choramos, ante os valores iluminativos com que somos
agraciados, entretanto, depois do contacto com o pensamento sublime de nossos
orientadores, eis-nos arrojados ao esquecimento de todos os dias, como se
padecêssemos irremediável amnésia, diante de tudo o que se refira às nossas
obrigações para com Jesus.
Em nossas casas doutrinárias, intensificamos disputas em torno da direção
humana, magnetizados pelos aspectos menos dignos da luta que fomos chamados
a desenvolver e, muitas vezes, no intercâmbio com os nossos irmãos tresmalhados
na sombra, martelamos preciosas lições

(1) Reporta-se o visitante espiritual ao nosso companheiro Geraldo Benício
Rocha, de quem foi amigo íntimo. - Nota do organizador.

de caridade e fé viva, compreensão e tolerância, olvidando que os chamados
espíritos sofredores", em muitas ocasiões, são trazidos até nós por vanguardeiros
da Luz Divina, interessados em nossa renovação, enquanto há "melhor tempo".
Ai de nós, porém!...
Dos conflitos inadequados em nossos templos de fé, somente recolhemos frutos
amargos, e das mensagens pontilhadas de aflição, que guardam o objetivo de reabi-
litar-nos para o Senhor, apenas retiramos impressões negativas, de vez que nos
movimentamos no círculo de nossas responsabilidades, crendo-nos na condição de
cooperadores vitoriosos, quando, no fundo, perante os Benfeitores da
Espiritualidade Superior, somos simplesmente companheiros em perigo, com
imensas dificuldades para satisfazer ao próprio reajuste.
Estejam vocês convencidos de que para nós, os espíritas desencarnados, há
uma tarefa espantosa, com a qual não contávamos.
Por mais estranho nos pareça, somos geralmente situados em serviços de
orientação, junto aos companheiros que ficaram.
Espíritas com espíritas, como irmãos enlaçados no mesmo dever a cumprir.
Alijados do corpo, contudo, é que vemos quão difícil se faz o concurso eficiente
aos corações cerrados à luz e quão sacrificial se nos revela o socorro a doentes que
não se interessam pela própria cura!
Identificamos, então, o princípio de correspondência. Colocados na posição
daqueles que anteriormente nos dirigiam, reconhecemos quanta impermeabilidade
oferecíamos, no mundo, aos que nos acompanhavam abnegadamente de perto.
Tão logo descerrei os olhos, ante o esplendor da verdade, encontrei nosso velho
amigo Senra (1), notificando-me, bem-humorado:

(1) Refere-se o comunicante ao Doutor Ernesto Senra, antigo lidador do
Espiritismo, em Minas Gerais, desde muito desencarnado. - Neta do organizador.

- Cícero, agora é o seu tempo de experimentar o novo trabalho que vive em
nossas mãos...
E, desde essa hora, eu que retinha a veleidade de condutor, embora a
insipiência do aprendiz de Evangelho que ainda sou, comecei a entender alguma
coisa do serviço gigantesco que nos compete impulsionar para a frente.
Afeiçoados à nova máquina de ação, sofremos o cuidado de não trair a
harmonia.
Porque é preciso equilibrar nossos passos, a fim de orientar com segurança os
passos alheios, disciplinar-nos dentro das responsabilidades que abraçamos para
não ameaçar o trabalho daqueles que nos cercam.
Ouvir mais.
Fazer mais.
E falar menos.
Difícil é suportar na cabeça o título de servidor da
Boa-Nova, que, entre os homens, pode ser uma palma
florida, mas que se converte aqui em coroa de fogo, tal
a preocupação com que nos cabe aprender a auxiliar e
a renunciar para que o carro de nossos princípios avance sobre os trilhos da ordem.
Registrando-nos a experiência, esperamos que vocês venham mais tarde para
cá movimentando melhores recursos.
Reconheço que há muito ainda a dizer.
Entretanto, o horário está a esgotar-se.
Conosco, temos outros irmãos que lhes deixam afetuosa visita.
Nossos amigos Hanriot, Mata Simplício e ainda o nosso Efigênio (1) partilham-
nos a oração.
Todos agora padecemos o mesmo mal - o inquietante privilégio de colaborar
numa realização, cuja magnitude efetivamente nos esmaga.

(1) Reporta-se o visitante a companheiros espíritas de Belo Horizonte, já
desencarnados. - Nota do organizador.

Façamos o melhor de nossa parte, na convicção de que o Senhor não nos
desampara.
E, agradecendo a satisfação desta hora, deixo aos queridos companheiros o
meu coração reconhecido.

Cícero Pereira


9
NA ESFERA DA PALAVRA

Nas tarefas da reunião de 6 de maio de 1954, depois do serviço habitual de
socorro a desencarnados em sofrimento, nosso amigo André Luiz fez-se ouvido por
nós, de maneira clara e incisiva, acordando-nos para a necessidade do verbo bem
conduzido, com os seguintes ensinamentos.

Certa palavra delituosa foi projetada ao mundo por uma boca leviana e, em
breves dias, desse quase imperceptível fermento de incompreensão, nasceu vasta
epidemia de maledicência.
Da maledicência surgiram apontamentos ingratos, estabelecendo grande
infestação de calúnia.
Da calúnia apareceram observações impróprias, gerando discórdia,
perturbação, desânimo e enfermidade.
De semelhantes desequilíbrios, emergiram conflitos e desvarios, criando aflição
e ruína, guerra e morte.
Meus irmãos, para o médico desencarnado o verbo mal conduzido é sempre a
raiz escura de grande parte dos processos patogênicos que flagelam a
Humanidade.
A palavra deprimente é sarna invisível, complicando os problemas, enegrecendo
o destino, retardando o progresso, desfazendo a paz, golpeando a fé e anulando a
alegria.
Se buscamos no mundo selecionar alimentos sadios, na segurança e aprumo do
corpo, é indispensável escolher conversações edificantes, capazes de preservar a
beleza e a harmonia de nossas almas.
Bocas reunidas na exaltação do mal assemelham-se a caixotes de lixo, vazando
bacilos de delinqüência e desagregação espiritual.
Atendamos ao silêncio, onde não seja possível o concurso fraterno.
Disse o profeta que "a palavra dita a seu tempo écomo maçã de ouro em cesto
de prata".
No entanto, só o amor e a humildade conseguem produzir esse milagre de luz.
Para cooperar com o Cristo, é imprescindível sintonizar a estação da nossa vida
com o seu Evangelho Redentor.
Busquemos sentir com Jesus.
Não nos esqueçamos de que a língua fala com os homens e de que o coração
fala com Deus.

André Luiz


10
DEPOIMENTO

A mensagem de J. P., que designamos apenas por suas Iniciais, em virtude da
comovente lição que nos traz, foi recebida na noite de 13 de maio de 1954, no
encerramento de nossas tarefas.
Para elucidar certas passagens desta comunicação psicofônica, é forçoso
esclarecer que ele nos visitara anteriormente, sendo socorrido pela doutrinação
evangélica.
É curioso notar que uma de nossas irmãs, elemento efetivo de nosso Grupo e
esposa de um dos nossos companheiros, meses antes da mensagem que aqui
transcrevemos, revelava todos os sintomas de uma gravidez aparente e dolorosa,
tendo sido tratada espontaneamente, em várias reuniões sucessivas, por um de
nossos Benfeitores Espirituais que, carinhosamente, a libertou, através de passes
magnéticos, das estranhas impressões de que se via possuida.
Com grande surpresa para nós, viemos então a saber que o Espírito J. P. era o
candidato ao renascimento que não chegou a positivar-se.
Cremos sejam necessárias as presentes anotações, não só para que a mensagem
seja devidamente aclarada, como também para estudarmos importantes Incidentes
que podem ocorrer, entre dois mundos, em nossa vida comum.
Com a inflexão de quem chorava intimamente, o visitante assim se expressou,
sensibilizando-nos a todos:

13 de maio de 1954!...
Há precisamente sessenta e seis anos eram declarados livres todos os escravos
no território brasileiro.
E talvez comemorando o acontecimento, determinam os instrutores desta casa
vos fale algo de minha história, de minha escura história, porqüanto, em seus
últimos lances, ela se encontra de certo modo associada à obra espiritual de vosso
Grupo.
J. P. foi o meu nome em Vassouras, a fidalga Vassouras do Segundo Império.
Resumirei meu caso, tanto quanto possível, porque, como é fácil perceberdes,
não passo ainda de pobre viajante da sombra, em árduo serviço na própria regene-
ração.
Em março de 1888 fui convidado a participar de expressiva reunião da Câmara
Vassourense por meu velho amigo Doutor Correia e Castro. (1)
Cogitava-se da adoção de medidas compatíveis com a campanha abolicionista,
então na culminância.
Alguns conselheiros propuseram que todos os fazendeiros do Município
instituíssem a liberdade espontânea, a favor do elemento cativo, com a obrigação
de os escravos alforriados prosseguirem trabalhando, por mais cinco anos
consecutivos, numa tentativa de preservação da economia regional.
Discussões surgiram acaloradas.
Diversos agricultores inclinavam-se à ponderação e à benevolência.
Entretanto, eu era daqueles que pugnavam pela escravatura irrestrita.
Encolerizado, ergui minha voz.
Admitia que o negro havia nascido para o eito.
Nada de concessões nem transações.

(1) O comunicante refere-se a pessoa de suas relações íntimas, em 1888. -
Nota do organizador.

O senhor era senhor com direito absoluto; o escravo era escravo com
irremediável dependência.
Aderi ao movimento contrário à proposta havida, e nós, os da violência e da
crueldade, ganhamos a causa da intolerância porque, então, Vassouras prosseguiu
esperando as surpresas governamentais, sem qualquer alteração.
De volta ao lar, porém, vim a saber que a inspiração da providência sugerida
partira inicialmente de um homem simples, de um homem escravizado...
Esse homem era Ricardo, servo de minha casa, a quem presumia dedicar minha
melhor afeição.
Era meu companheiro, meu confidente, meu amigo... Inteligência invulgar,
traduzia o francês com facilidade. Comentávamos juntos as notícias da Europa e as
intrigas da Corte... Muitas vezes, era ele o escrivão predileto em meus
documentários, orientador nos problemas graves e irmão nas horas difíceis...
Minha amizade, contudo, não passava de egoísmo implacável.
Admirava-lhe as qualidades inatas e aproveitava-lhe o concurso, como quem se
reconhece dono de um animal raro e queria-o como se não passasse de mera
propriedade minha.
Enraivecido, propus-me castigá-lo.
E, para escarmento das senzalas, na sombra da noite, determinei a imediata
prisão de quem havia sido para mim todo um refúgio de respeito e carinho, qual se
me fora filho ou pai.
Ricardo não se irritou ante o desmando a que me entregava.
Respondeu-me às perguntas com resignação e dignidade.
Calmo, não se abateu diante de minhas exigências. Explicou-se, imperturbável e
sereno, sem trair a humildade que lhe brilhava no espírito.
Aquela superioridade moral atiçou-me a ira.
Golpeado em meu orgulho, ordenei que a prisão no tronco fosse transformada
em suplício.
Gritei, desesperado.
Assemelhava-me a fera a cair sobre a presa.
Reuni minha gente e as pancadas - triste é recordá-las! - dilaceraram-lhe o
dorso nu, sob meus olhos impassíveis.
O sangue do companheiro jorrou, abundante.
A vítima, contudo, longe de exasperar-se, entrara em lacrimoso silêncio.
E, humilhado por minha vez, à face daquela resistência tranqüila, induzi o
capataz a massacrar-lhe as mãos e os pés.
A recomendação foi cumprida.
Logo após, porque o sangue borbotasse sem peias, meu carrasco desatou-lhe
os grilhões...
Ricardo, na agonia, estava livre...
Mas aquele homem, que parecia guardar no peito um coração diferente, ainda
teve forças para arrastar-se, nas vascas da morte, e, endereçando-me inesquecível
olhar, inclinou-se à maneira de um cão agonizante e beijou-me os pes...
Não acredito estejais em condições de compreender o martírio de um Espírito
que abandona a Terra, na posição em que a deixei...
Um pelourinho de brasas que me retivesse por mil anos sucessivos talvez me
fizesse sofrer menos, pois desde aquele instante a existência se me tornou
insuportável e odiosa.
A Lei Áurea não me ocupou o pensamento.
E quando a morte me requisitou à verdade, não encontrei no imo do meu ser
senão austero tribunal, como que instalado dentro de mim mesmo, funcionando em
ativo julgamento que me parecia nunca terminar...
Lutei infinitamente.
Um homem perdido por séculos, em noite tenebrosa, creio eu padece menos
que a alma culpada, assinalando a voz gritante da própria consciência.
Perdi a noção do tempo, porque o tempo para quem sofre sem esperança se
transforma numa eternidade de aflição.
Sei apenas que, em dado instante, na treva em que me debatia, a voz de
Ricardo se fez ouvir aos meus pés:
- Meu filho!... meu filho!...
Num prodígio de memória, em vago relâmpago que luziu na escuridão de
minhalma, recordei cenas que haviam ficado a distância (1), quadros que a carne da
Terra havia conseguido transitoriamente apagar...
Com emoção indizível, vi-me de novo nos braços de Ricardo, nele identificando
meu próprio pai... meu próprio pai que eu algemara cruelmente ao poste de martírio
e a cuja flagelação eu assistira, insensível, até ao fim...
Não posso entender os sentimentos contraditórios que então me dominaram...
Envergonhado, em vão tentei fugir de mim mesmo. Em desabalada carreira,
desprendi-me dos braços carinhosos que me enlaçavam e busquei a sombra, qual o
morcego que se compraz tão-somente com a noite, a fim de chorar o remorso que
meu pai, meu amigo, meu escravo e minha vítima não poderia compreender...
No entanto, como se a Justiça, naquele momento, houvesse acabado de lavrar
contra mim a merecida sentença condenatória, após tantos anos de inquietação, re-
conheci, assombrado, que meus pés e minhas mãos estavam retorcidos...
Procurei levantar-me e não consegui.
A Justiça vencera.
Achava-me reduzido à condição de um lobo mutilado e urrei de dor... Mas,
nessa dor, não encontrei senão aquelas mesmas criaturas que eu havia maltratado,
velhos cativos que me haviam conhecido a truculência... E, por muitos deles, fui
também submetido a processos pavorosos de dilaceração. (2)
Passei, porém, a rejubilar-me com isso.
Guardava, no fundo, a consolação do criminoso que se sente, de alguma sorte,
reabilitado com a punição que lhe é imposta.

(1) Ao contacto do benfeitor espiritual, a entidade sofredora entrou a lembrar-se
de existência anterior, em que a vítima lhe fora pai na experiência terrestre. - Nota
do organizador.
(2) Refere-se o comunicante a sofrimentos que experimentou nas regiões
inferiores da vida espiritual, sob a vingança de muitas das suas antigas vítimas
revoltadas. - Nota do organizador.

A expiação era serviço que eu devia à minha própria alma.
Se algum dia pudesse rever Ricardo - refletia -, que eu comparecesse diante
dele como alguém que lhe havia experimentado as provações.
Lutei muito, repito-vos!...
Sofri terrivelmente, até que, certa noite, fui conduzido por invisíveis mãos ao lar
de um companheiro em cuja simpatia recolhi algum descanso...
Aí, de semana a semana, comecei a ouvir palavras diferentes, ensinamentos
diversos, explanações renovadoras. (1)
Modificaram-se-me os pensamentos.
Doce bálsamo alcançou-me o espírito dolorido. E, desse santuário de
transformação, vim, certa feita, ao vosso Grupo. (2)
Há quase dois anos, tive o conforto de desabafar-me convosco, de falar-vos de
meus padecimentos e de receber-vos o óbolo de fraternidade e oração.
Mas porque desejasse associar-me mais intimamente ao lar em que me
reformava, atirei-me apaixonadamente aos braços dos amigos que me acolhiam,
intentando consolidar mais amplamente a nossa afeição.
Queria renascer, projetando-me em vosso ambiente... Para isso, busquei-vos
como o sedento anseia pela fonte... E tudo fiz para exteriorizar-me; entretanto, eu
não possuía forças para mentalizar as mãos e os pés!...
Se eu retomasse a carne, seria um monstro e se concretizasse meu sonho
louco teria cometido tremendo abuso...
Além disso, estaria na posição de um aleijado, simplesmente regressando do
inferno que havia gerado para si mesmo.

(1) Refere-se o comunicante ao culto domésticO do Evangelho, existente no lar
do nosso companheiro de quem se havia aproximado. - Nota do organizador.
(2) A entidade reporta-se à primeira visita que fez ao nosso Grupo, quando foi
atendida por nossa casa, através da incorporação mediúnica, em 1952. - Nota do
organizador.

Nesse ínterim, contudo, os instrutores de vossa casa me socorreram...
Auxiliaram-me, sem alarde, noite a noite, e, graças ao Senhor, meu propósito foi
frustrado.
Mas, se é verdade que não pude retratar-me de novo, no campo da densa
matéria, para tentar o caminho de reencontro com Ricardo, recebi convosco, ao
contacto da prece, o reajuste de minhas mãos e de meus pés.
Orando em vossa companhia e mentalizando a minha renovação em Cristo,
minha vida ressurge transformada.
Agora, esperarei o dia de minha volta ao campo normal da experiência humana,
a fim de, em me banhando na corrente da vida física, apagar o passado e limpar
minhas culpas, através do trabalho, com a minha justa escravização ao dever, para,
então, mais tarde, cogitar da suspirada ascensão.
Mas, porque recompus minha forma, aqui estou convosco e vos digo:
- Aleluia!...
- Viva a liberdade!...
Louvo a liberdade que me permite agora pensar em receber o bem-aventurado
cativeiro da prova, favorecendo-me por fim o galardão da cura!...
Amigos, eis que nos achamos em 13 de maio de 1954!...
Para minhalma, depois de 66 anos, raia um novo dia...
Para mim, a luz não tarda!... a luz de renascer! E assim me expresso, porque
somente na esfera de luta em que vos encontrais como privilegiados tarefeiros, por
bondade de Nosso Senhor Jesus-Cristo, é que poderei encontrar o sol da redenção.
Agradeço-vos a todos, recomendando-me feliz às preces de todos os
companheiros, preces que constituem vibrações de amor que ainda me empenho
em recolher, como sementes de renovação para o dia de amanhã que espero, em
Jesus, seja enfim abençoado...
Que o Senhor nos ampare.
J. P.

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